Tempos férteis de Myriam Coeli

Publicação: 2019-02-08 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Jornalista, professora e poeta, Myriam Coeli (1926-1982) foi uma das mulheres mais cultas de sua época. Escreveu nos principais jornais de Natal, foi professora do Atheneu, das faculdades de Jornalismo e de Filosofia e autora de diversos livros, como “Imagem Virtual” (1961), “Vivência  Sobre  Vivência” (1980) e “Inventário” (1981). Sua produção poética, toda fora de catálogo, a coloca como um dos grandes nomes das letras potiguares, embora, nessa cidade de memória frágil, não seja devidamente lembrada. Mas um projeto editorial promete evidenciar novamente os versos da autora. Trata-se do livro “Myriam Coeli – Branco & Naquim: Obra Poética”, que reúne a poesia completa da potiguar.

Myriam foi a primeira jornalista formada a atuar em jornais do RN
Myriam Coeli foi a primeira jornalista formada a atuar em jornais do RN

Organizado por Elí de Araújo e Cristiana Coeli Goldie, filhos de Myriam com o jornalista Celso da Silveira, o livro era um desejo antigo da família. A obra está sendo publicada pela editora local Sol Negro, tem capa dura, mais de 400 páginas, tiragem de 500 exemplares e saiu da gráfica ontem (7). A previsão de lançamento, segundo o editor Márcio Simões (da Sol Negro), é para o primeiro semestre.

“Cristiana Coeli e eu devemos esse livro à memória dela [Myriam] e aos amigos e pesquisadores. Uma poesia de boa qualidade, há tanto tempo sem reedição, merecia reaparecer”, diz Elí em entrevista de Brasília, onde reside. Ele explica que todos os poemas publicados em livros pela autora constam na obra, incluindo os livros póstumos.

Myriam deixou poemas inéditos, mas os organizadores preferiram deixar esse material para ser trabalhado em outra ocasião. “Há poemas inéditos dela publicados em jornais, alguns até coletados por João Antônio Bezerra Neto, mas optamos por não incluí-lo. Esse pode ser um trabalho de pesquisa”, conta Eli. Da mesma forma acontece com os escritos em prosa da autora, principalmente os publicados em jornal, que devem render um livro futuro. “A parte em prosa, sobretudo as crônicas, ficam para depois”.

Mas o livro, além dos poemas, traz importante material teórico. “Há aparato crítico dos professores Humberto Hermenegildo e Wilson Azevedo. São dois textos independentes. [O jornalista] Franklin Jorge,  que conviveu com a autora por um período importante da vida dela,  escreveu um texto intimista”, detalha Eli, que também colaborou com um texto na obra.

Período na Espanha foi importante
Leitora voraz, Myriam demonstrava vocação para a escrita desde a infância. No tempo de escola foi incentivada por alguns professores, como Edgar Barbosa, a exercitar seu talento. Seu interesse por literatura a levou até Recife, onde se formou em Letras Neolatinas, e depois à Espanha, onde obteve diploma de jornalista pela Escola Oficial de Jornalismo de Madrid.

O período na Espanha, na década de 50, ampliou não apenas a noção de mundo da potiguar, mas seus conhecimentos literários. “Há muitas marcas 'espanholas' na obra [de Myriam]. O livro fala um pouco sobre esse período. [Federico Garcia] Lorca, por exemplo, teve sua leitura aprofundada por lá”, comenta Eli, citando um dos autores prediletos de sua mãe.

O livro Myriam Coeli – Branco e Naquim traz a obra poética completa da potiguar e material teórico de críticos e estudiosos
O livro Myriam Coeli – Branco & Naquim: Obra Poética reúne a produção em versos da
potiguar e material teórico de críticos e estudiosos

Myriam também buscou conhecer um pouco do movimento artístico espanhol para além da literatura. Uma história muito comentada é de que a poeta teria se encontrado com o surrealista Salvador Dali. A filha Cristiana confirma. “Sim mamãe encontrou Dali e falou sobre isso num encontro de semiótica, no teatro Alberto Maranhão, nos anos 70, onde fazia parte da mesa. Foi quando ela respondeu à questão cantando”, diz Cris.

Uma peculiaridade da produção poética de Myriam é que, embora tenha lançado seu primeiro livro de poesia em 1961, ao lado do marido, foi somente no início da década de 1980, quando já estava diagnosticada com câncer, que ela se dedica de fato à poesia. Antes, sua atuação de destaque era o jornalismo e o magistério.

Myriam faleceu no dia 21 de fevereiro de 1982, um domingo de carnaval. Tinha 55 anos. Seus filhos, Cristiana e Eli, tinham 22 e 21, respectivamente. “Acho a poesia dela densa demais. É uma poesia forte, profunda, enraizada na alma. Difícil sair ileso dessa leitura”, opina Eli. “Myriam era uma pessoa inacreditável. Quem quer que a tenha conhecido sabe disso”.

O que
“Myriam Coeli - Branco & Nanquim: Obra Poética” é a primeira publicação da obra completa da escritora potiguar, cujos livros estavam esgotados há anos. A obra sai pela editora Sol Negro, com capa dura, mais de 400 páginas e tiragem limitada de 500 exemplares. Além de todos os poemas publicados em livro pela autora, “Branco & Nanquim” também traz textos dos professores Humberto Hermenegildo, Wilson Azevedo, do jornalista Franklin Jorge e do professor e filho Eli Celso.

Quem
Myriam Coeli nasceu em Manaus (AM) em 1926, mas ainda bebê veio morar em São José de Mipibu. É apontada como a primeira jornalista formada a atuar em jornais do RN. Escreveu para esta TRIBUNA DO NORTE, Diário de Natal e 'A República. Como professora, lecionou no Atheneu e nas faculdades de Filosofia e de Jornalismo. Na poesia, publicou o primeiro livro em 1961, “Imagem Virtual”, junto com o marido Celso da Silveira. Volta a publicar poemas na década de 80, quando conquista vários prêmio literários no RN, se consolidando um importante nome das letras potiguares. Faleceu em 1982, em decorrência de um câncer.


Colaborou: Cinthia Lopes
Editora






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