Tendência é encerrar o Campeonato Estadual

Publicação: 2020-04-05 00:00:00
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Os dias de paralisação vão se avolumando e, com eles, a esperança da continuidade do Campeonato Estadual vão se acabando. Fora ABC, América e Globo, que ainda estão conseguindo manter os seus elencos, os demais clubes que estavam na disputa já se desfizeram de uma boa parte dos seus profissionais e, os seus representantes, já se mostraram favoráveis ao cancelamento do Estadual. Segundo o presidente da Federação Norte-rio-grandense de Futebol (FNF), José Vanildo, atualmente apenas América e Globo resistem a essa ideia. 

Créditos: Adriano AbreuDos clubes que estavam na disputa do Campeonato Potiguar, apenas ABC, América e o Globo mantém os profissionais sob contratoDos clubes que estavam na disputa do Campeonato Potiguar, apenas ABC, América e o Globo mantém os profissionais sob contrato


Algumas alternativas estão sendo avaliadas para resolver a crise no futebol potiguar, provocada pela paralisação exigida visando o combate a propagação do coronavírus. Como as medidas restritivas no RN foram prorrogadas até o próximo dia 23 de abril, pela governadora Fátima Bezerra, período em que, antes da crise, a FNF já estaria organizando as partidas finais da competição de 2020, o estrangulamento de datas para o término do Estadual ficou evidente. José Vanildo vem acompanhando todas as movimentações e tem conversado com os dirigentes, mas disse se sentir de mãos atadas, uma vez que nada poderá ser resolvido antes da decretação do fim do estado de pandemia mundial. 

“Não temos como resolver nada. O problema atualmente é o coronavírus e essa pandemia, nada que vem sendo dito hoje poderá ser aplicado, pois não sabemos como irá acabar tudo isso. A resolução frente a uma situação dessas terá de vir da Fifa e, assim, sucessivamente até chegar nas federações estaduais. Tudo que for dito agora não estará alicerçado por uma base concreta”, argumentou o dirigente potiguar. 

Lupércio Segundo, presidente do Santa Cruz, revelou que já tomou as medidas consideradas cabíveis para sobreviver frente a situação imposta, negociou e mandou para casa todos os atletas do elenco tricolor, que ainda briga pela terceira colocação no Campeonato Potiguar. Para o clube que não possui mais chances de chegar à final do segundo turno, faltam apenas duas rodadas a cumprir para encerrar a temporada. 

“Quando ocorreu a paralisação do Estadual, resolvemos chamar os atletas do nosso elenco, negociar todas as rescisões contratuais e mandar eles para casa. Mas firmamos um compromisso de, em caso de um possível retorno da disputa do campeonato, fazermos um pacote para que eles pudessem disputar apenas mais esses dois jogos pelo clube. Diferente da condição de ABC e América, que possuem a certeza da disputa da Série D, bem como outros tipos de competições, o Santa Cruz não tinha como segurar o elenco sem sequer poder treinar”, afirmou Lupércio Segundo, um que se mostra favorável ao cancelamento da competição local. 

Créditos: Adriano AbreuPresidente da FNF, José Vanildo, ache prematuro falar agoraPresidente da FNF, José Vanildo, ache prematuro falar agora


A medida foi exatamente a mesma tomada pelos dois integrantes do interior do RN na competição. Potiguar e ASSU também decidiram desmontar seus elencos e se mostram favoráveis ao cancelamento. Enfrentando problemas financeiros graves, os clubes não quiseram correr o risco de aumentar ainda mais o volume de suas dívidas, sem a certeza de uma saída próxima do estado de confinamento da população. 

A questão que deve inviabilizar mesmo o retorno do Estadual, é que para boa parte dos clubes de menor investimento, faltam apenas dois jogos para o fim do certame. Lupércio acredita que esse desnivelamento provocado pelo calendário simultâneo de ABC e América, que são os que ainda possuem mais jogos a realizar, deve ser observado no momento do debate sobre o assunto. 

“Dificilmente conseguiremos retomar. Vamos para mais de um mês de paralisação e, até 23 de abril, não podemos fazer nada devido ao confinamento. Pensando racionalmente, vejo como muito pouco provável o retorno da competição, uma vez que mesmo após a decisão de voltar, os clubes irão necessitar, no mínimo, de 15 dias para trabalhar o elenco e deixar os atletas em condições para disputar as partidas. Neste caso estaríamos invadindo as datas do segundo semestre e com a maior parte dos clubes, tendo de realizar apenas dois jogos, acredito que seja improvável conseguir esse retorno”, destacou Lupércio. 

Também não será tão simples retornar, o dirigente do Santa Cruz prevê que como o mercado do futebol sempre se mostrou muito dinâmico, alguns dos jogadores que realizaram as rescisões contratuais, já vão estar compromissados com outras agremiações, o que irá exigir uma certa maleabilidade das federações e da CBF, em relação a expedir as condições de jogo dos atletas. 

“As entidades organizadoras do futebol nacional terão de ser maleáveis em relação ao BID. Acredito que, optando pela retomada dos Estaduais, elas tenham de fazer uma composição para derrubar o rigor existente atualmente na inscrição dos atletas. Caso contrário, o processo burocrático vai atrapalhar ainda mais o reinício, bem como, envolver custos extras para os clubes, que já estão vindo de uma crise e muitos se encontram sem faturamento algum. Temos de aguardar para ver o que vem de cima para saber se é possível acabar o Campeonato Estadual. No caso do Santa Cruz, fizemos as rescisões, mas deixamos os vínculos registrados e, neste caso, nós conseguiríamos retornar, as demais equipes é que não sei”, reforçou. 

Além do mais o representante do Tricolor natalense chama a atenção para o fato, de que tem de ser realizado um levantamento de custos, para saber se será vantajoso a realização de uma retomada. 

Proposta 
Frente a esse cenário de incertezas, tendo em vista sempre uma saída honrosa para “sinuca de bico” criada para o mundo do futebol de um modo geral, já começam a surgir algumas ideias no sentido de resolver o imbróglio. Uma das quais foi jogada na mesa para os dirigentes do ASSU, para quem a FNF daria as duas primeiras vagas da competição atual para ABC e América e, no caso de retorno, as demais equipes disputariam uma espécie de seletivo no sentido de definir as demais colocações. 

Créditos: Augusto GomesLupércio Segundo acha que deve se pensar no futuro do futebolLupércio Segundo acha que deve se pensar no futuro do futebol


“O momento é de se pensar no futebol do RN como um todo, a alternativa encontrada não pode beneficiar e, muito menos, prejudicar ninguém. Existem grupos de discussão nas redes sociais reunindo vários dirigentes de clubes e, garanto, ninguém sabe o que fazer. Quem vai disputar o Brasileirão, geralmente defende o regresso dos Estaduais, quem não possui mais calendário, quer o fim. Há muita divergência ainda, mas temos de olhar para frente, 2021, porque esse ano nós iremos trabalhar apenas para escapar dessa crise”, ressaltou Lupércio Segundo. 

Também surgiu uma proposta, essa apontada como mais viável pelo representante do Santa Cruz, sugerindo que, frente ao imprensados das datas do calendário, seria mais viável jogar a definição do Campeonato Potiguar de 2020 para o mês de dezembro, tendo em vista que a CBF pode ser obrigada a modificar a fórmula de disputa da Série D, reduzindo o número de jogos de cada equipe e acabando a competição no início de outubro. 

“Neste caso teria de ser realizado um amplo acordo entre clubes, FNF e a CBF, gerando essa excepcionalidade. Mas teria suas vantagens, como a retomada das temporadas no RN está sendo feita a partir de novembro, os clubes obedeceriam a classificação atual e voltariam para disputar os seus jogos. Assim ao invés de realizar amistosos, o período de preparação já começaria com partidas oficiais. A proposta ainda não foi colocada na mesa de discussão, mas acredito que se bem trabalhada pode vingar, se todos realmente estiverem pensando no futuro do futebol potiguar”, argumentou. 

Um consenso para que ninguém saia prejudicado dessa hecatombe no futebol local é que a Federação Norte-rio-grandense de Futebol deve se mostrar sensível em relação ao rebaixamento. De acordo com a classificação geral, ASSU e  Palmeira ainda brigam pelo direito de permanecer na divisão de elite, mas o presidente do Santa Cruz, que também é advogado, acredita que deva haver o bom-senso e se evitar o rebaixamento, até por que ainda não se sabe se a FNF terá condições de promover o Campeonato Potiguar da segunda divisão. Já com relação a definição do campeão, Lupércio Segundo aponta como uma questão mais complexa. 

“Acredito que não deva ocorrer rebaixamento, mas a questão da definição do título é muito complexa, teremos de entrar na seara jurídica. Se o campeonato for tornado nulo, ele deixa de existir, neste caso o posicionamento final das equipes será definido respeitando que tipo de parâmetro? A competição do ano passado? Ou irão realizar a distribuição de vagas para Copa do Nordeste, Copa do Brasil e a Série D obedecendo o ranking mais recente da CBF? Existe ainda a hipótese de ser dar por válido os resultados obtidos pelas equipes, encerrando o Estadual obedecendo a classificação atual dos clubes. Dentro desse panorama, cada um vai brigar pelo que lhe convém. Teremos um clássico entre ABC x América também na esfera jurídica, as demais equipes não têm muito o que discutir”, disse. 

Lupércio Segundo aponta que a postura do presidente da FNF José Vanildo, de aguardar uma decisão superior sobre as questões, está correta. 

“Acho importante se aguardar um posicionamento da Fifa e da CBF. Por que isso? Porque aí não tomaremos decisões na esfera mais baixa desse ordenamento podendo beneficiar equipes A, B ou C. Então devemos aguardar um posicionamento geral para saber se todos os campeonatos serão anulados, se haverá algum tipo de consenso. Se vier a orientação para cada estado resolver a sua questão, neste caso a história será diferente. Na legislação esportiva, há previsão apenas da manutenção do resultado das partidas, que tiverem 70% do seu tempo transcorrido, porém não existe nada orientando sobre o mesmo em relação aos campeonatos. Não conheço nada específico, é uma situação completamente inédita”, argumentou. 








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