Terpsícore! Terpsícore!

Publicação: 2019-08-25 00:00:00 | Comentários: 0
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Não duvidem. A primeira musa que conheci - modéstia à parte - foi em Macau. Um dia, ali entre sete e oito anos, e já sabendo ler, como bom aluno na escola de D. Nanu, levado pela mão do meu pai que para mim sabia tudo, li aquele nome estranho, pintado em letras fortes no alto da fachada de um primeiro andar prédio, perto do mercado: Terpsícore.  Meu pai, que para o menino devia saber, respondeu: a deusa da dança, coisa da mitologia. Era o clube da cidade.

Só anos e anos depois, fui descobrir - os olhos curiosos já andavam em Natal - que é uma das nove musas canônicas da mitologia grega, filha de Zeus e Mnemósine. Não sei dessas coisas eruditas, mas nunca mais pude esquecer. Se não bastasse o proparoxítono, a cantar nos ouvidos, ainda tem a magia de uma intimidade que, de alguma forma, pertence só a mim. E não mais perdi de vista o grande mistério das musas, ainda que jamais pudesse tê-las de verdade.

Fiquei, assim, e ainda bem, imprestável para as coisas reais. Talvez convencido de que a realidade cansa. Rouba o fascínio pelo futuro, onde sempre gostei de guardar as coisas irreais e aparentemente impossíveis. Terpsícore! Terpsícore! Repito como se fosse uma chave de todos os segredos dessa busca inenarrável da alegria de viver. E confesso o castigo de Terpsícore: nunca aprendi a dançar. Como se fossem outras as urgências do menino cheio de sonhos. 

Aos poucos, alisando os bancos das escolas e esfregando os olhos nas páginas dos livros que caiam nas mãos, fui descobrindo que lá, no lugar mais íntimo da alma, as coisas acabam, mas não findam. É como se ficassem gravadas nas paredes da alma, feito inscrições rupestres. Vestígios de sensações reais e irreais. Pouco importa se são apenas sensações, se nelas nada é verdadeiro e útil à vida. Marcas que vincam na alma as trilhas por onde os sonhos passaram.

Terpsícore! Terpsícore! Ninguém nunca irá provar que teve oito irmãs, deusas de todas as artes, netas do Oceano. Quando descobri que escrever era a forma possível de lutar contra o desespero que é viver, e como se as palavras, sob o domínio dos dedos, pudessem arrumar o mundo desarrumado que sobrou, foram as musas que salvaram da solidão. Aquela solidão invencível que, escondida no corpo de uma serpente, roubou a doce inocência do pobre Adão.

É impossível viver sem musas. De colos alabastrinos, alvos como a plumagem das garças. Ou cobertas da sensualidade de peles anoitecidas, suavemente amorenadas; ou negras, quando se erguem, sensuais, como deusas da noite. As musas não são namoradas ou amantes. Não são feitas para a fome da carne e os olhos da vida social. É preciso vivê-las, sem tocá-las. Quando a contemplação, nascida do desejo, inventa uma paixão. Por isso é triste não tê-las...

Palco
LUTA - O prefeito Álvaro Dias não confirma, mas já sabe que não terá o apoio do ex-prefeito Carlos Eduardo Alves. Arma seu jogo pelo outro lado e com boa confiança da classe política.

DÚVIDA - Em silêncio, até agora, já o ex-prefeito Carlos Eduardo Alves carrega nos ombros uma dúvida: deve chegar a 2020 com uma derrota em Natal ou seria melhor ter Álvaro Dias?

CONTA - Embora guardado como um segredo, a governadora Fátima Bezerra ainda não tirou da pauta a esperança de reunir os recursos extraordinários e pagar todos os salários em atraso.

ALVO - O gol de placa terá um preço: ficam na gaveta muitos outros débitos de fornecedores com parcelas lentamente amortizadas. A estratégica é calar o grito forte de quem ganha menos.

JABUTI - Pura maldade botar o jabuti liberando o trabalho aos domingos. Já existe, pactuado entre patrões e empregados. Falsa bondade é pior do que a maldade declarada. É a sordidez.

ALIANÇA - É grave a denúncia da revista virtual Crusoé de que há uma aliança de interesses do presidente Jair Bolsonaro com ministros do Supremo mirando o mesmo alvo: a Lava Jato.

COMO - De um lado, a garantia de que não prospera a investigação envolvendo familiares do presidente.  Do outro, nada seria investigado da vida de ministros do Supremo. Glicerina pura.

BOCA - Do profeta do Grande Ponto passando os olhos nos jornais, nas últimas declarações do presidente: “A boca de Bolsonaro é como a boca da noite: não tem no mundo quem feche”.

Camarim
EU- Outro dia, li num desses blogs de Brasília que o presidente Jair Bolsonaro agora resolveu lembrar de vez em quando que quem manda é ele. E é. Ninguém duvida. Com isso, justifica as suas opiniões e decisões, convencido de que, assim, ninguém tem o direito de reclamar nada.

VELHA - Essa mania dos mandatários tem mais de duzentos anos. Muito mais. Basta dizer que Luís XIV, Rei de França, refestelado no luxo e na luxúria do seu castelo, teria entrado no parlamento com seus cães, vestido de caçador, e gritando em tom severo: “L’état c’est moi!”.

QUEDA - Não muitos anos depois, e como o ser humano não vive sem liberdade, veio a Revolução Francesa, em 1789. E mesmo depois da revolução, Robespierre, o ‘incorruptível’, abusou do seu poder e foi levado à guilhotina. O poder é absoluto e absolutamente sem jeito. 



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