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Terra em transe
Publicado: 00:00:00 - 22/09/2021 Atualizado: 22:59:09 - 21/09/2021
Carlos Emerenciano 
Arquiteto e Advogado

Manuel (Geraldo Del Rey) e Rosa (Yoná Magalhães) correm sem parar, após Corisco (Othon Bastos) e sua mulher Dadá (Sônia dos Humildes) terem sido assassinados por Antônio das Mortes (Maurício do Valle).

De repente, a cena do mar encerra  o filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), de Glauber Rocha, como se a antiga profecia de Antônio Conselheiro tivesse se concretizado (o sertão vai virar mar).

Glauber Rocha realizou cinco anos depois a continuação dessa obra: “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”. Porém, em 1967, fez a que é considerada por muitos a sua obra-prima: “Terra em Transe”.

O filme, apesar de não ter nenhuma relação temática com a obra anterior de Glauber Rocha, inicia com a câmera fazendo o caminho inverso que percorreu no final de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. A imagem abre no oceano e se aproxima da terra firme, onde nos será apresentado o país fictício Eldorado e a sua província Alecrim.

Um golpe de estado acabara de ser dado pelo senador Porfírio Diaz (Paulo Autran), político reacionário que se apropria de símbolos como “Deus, Pátria e Família”.

Felipe Vieira (José Lewgoy), governador da província de Alecrim e adversário político de Diaz, discute com seus assessores se deve ou não resistir ao golpe. No centro do debate, Paulo Martins (Jardel Filho), jornalista e poeta, não se conforma com a passividade de Felipe Vieira que desiste de resistir, sob o argumento de que se deve evitar “o derramamento de sangue”.

Paulo Martins e sua companheira Sara (Glauce Rocha) resistem e Paulo é alvejado por balas ao furar um bloqueio policial. O restante do filme é composto pelas recordações do personagem interpretado por Jardel Filho.

Assim, os personagens são apresentados e suas contradições, próprias da condição humana, são reveladas. Porfírio Diaz, o reacionário manipulador e ambicioso; Felipe Vieira, político populista e demagogo, que se equilibra entre o povo e os financiadores de suas campanhas; Júlio Fuentes (Paulo Gracindo), dono de um conglomerado midiático; e Paulo Martins que conta a história em flashback e em transe, momentos antes de morrer.

A obra conseguiu desagradar à época tanto a direita quanto a esquerda. Os militares viram no chamamento de Paulo Martins à resistência armada uma perigosa mensagem subversiva. Os esquerdistas consideraram o filme extremamente confuso e não engoliram bem as críticas que não são poupadas a nenhum espectro político.

Na verdade, o povo é o personagem quase sempre oculto da história que se revela em alguns momentos. Glauber Rocha parece compartilhar da visão de Machado de Assis de que existem dois países: um oficial, caricato e burlesco, representado por todos esses personagens; e um país real que fica à margem. Num determinado momento, uma pessoa comum (Flávio Migliaccio) resolve falar numa manifestação de campanha de Felipe Vieira. Diz: “o povo sou eu que tenho sete filhos e não tenho uma casa para morar”. 

Ou seja, independentemente se de esquerda ou direita, existe um fosso entre a nossa elite (Brasil oficial) e o povo (Brasil real).

Terra em transe. O título me veio à mente em vários momentos ao acompanhar os acontecimentos políticos que se deram entre o final do mês de agosto e os primeiros dias de setembro.

A temperatura política subiu. Personagens amalucados apareceram fazendo ameaças e estabelecendo prazos: Zé Trovão, Sérgio Reis e Roberto Jefferson. O alvo preferencial escolhido foi o Supremo Tribunal Federal e mais particularmente o ministro Alexandre de Moraes.

O próprio presidente foi à praça pública, no dia 7 de setembro, chamou o ministro de canalha e afirmou que daquele momento em diante não mais cumpriria qualquer decisão judicial proferida por ele. Isso tudo para 2 dias depois escrever uma “Carta à Nação”, pedindo desculpas ao ministro, o que deixou os seus apoiadores mais radicais frustrados, pois queriam golpe e ganharam arrego. 

Fico pensando: se algum roteirista tivesse criado essa história, será que iriam considerá-la verossímil? Seria melhor, então, tratar toda essa loucura como pornochanchada e chamar de “terra plana em transe”.

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