Thomé Filgueira, entre usinas, rios e sentimentos

Publicação: 2019-04-03 00:00:00 | Comentários: 0
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Yuno Silva
Repórter

Artista plástico dos mais relevantes do Rio Grande do Norte, com várias exposições realizadas nos Estados Unidos na década de 1960 e um dos poucos potiguares – quiçá o único – a integrar a programação oficial da Bienal Internacional de Artes de São Paulo, o natalense Thomé Filgueira (1938-2008) será revisitado durante a exposição “Entre Usinas e Rios”. A mostra entra em cartaz nessa quarta-feira (4) na galeria de arte do Complexo Iguales (Av. Hermes da Fonseca, 1062 – Tirol), com abertura marcada para às 19h.

Curadoria propõe leitura sentimental da obra de Thomé, destacando fases entre 1970 a 1990 com fatos da vida do artista
Curadoria propõe leitura sentimental da obra de Thomé, destacando fases entre 1970 a 1990 com fatos da vida do artista

A proposta da curadoria é possibilitar uma leitura diferente da arte de Thomé, onde o conjunto das 18 telas que ilustram “Entre Usinas e Rios” faz um passeio temporal por fases pontuais da vida do artista. As obras foram divididas em três períodos, anos 1970, 1980 e 1990, e refletem não só experimentações de técnicas, traços e cores, mas revelam o estado de espírito quando foram produzidas: desde as descobertas da paternidade à sobriedade da segurança artística, passando pelos conflitos do divórcio do primeiro casamento.

Tais sentimentos e experiências foram registrados, ainda que de forma implícita, nas paisagens bucólicas, nos engenhos do Vale do Ceará-Mirim, nas igrejas e no cais do porto de Natal – principais inspirações de Filgueira, que além de exercitar a criatividade também era professor de inglês da antiga Escola Técnica (ETFRN), atual Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFRN).

“Thomé tinha uma relação muito íntima e complexa com a arte. Nossa intenção é fazer com que as pessoas entendam o que existia por trás daquelas pinceladas, feitas com mais ou menos contrastes em cada uma de suas fases”, destacou o curador da exposição Cristiano Félix.

Integrante da segunda geração de modernistas no Rio Grande do Norte, ao lado de figuras como Newton Navarro (1928-1992) e Dorian Gray (1930-2017), Thomé Filgueira criou uma linguagem própria dentro das artes visuais do Rio Grande do Norte.

O impressionismo francês, sua maior referência artística, dividiu espaço com a intimidade frente ao realismo e o expressionismo abstrato que Thomé trouxe de volta na bagagem após morar uma temporada nos EUA no final dos anos 1950.

Essa amálgama artística, somada ao exercício do modernismo tupiniquim, deram forma à produção de Filgueira guiada por sua relação com a terra – em especial com o vale do rio Ceará-mirim, onde está a fazenda Entre Rios. Boa parte de seus trabalhos reproduzem cenários daquela região, com a qual sempre teve forte conexão mesmo tendo vivido toda a juventude em Natal.

No Brasil, além de participar da Bienal de São Paulo em 1974, seus trabalhos também tiveram destaque durante exposição na Academia Brasileira de Letras, Rio Janeiro, em 1987; e em 1991, homenageou a poetisa Zila Mamede durante evento em Natal.

Linha do tempo
Dentro do recorte proposto pela exposição, é possível distinguir três fases bem demarcadas do artista. Nos anos de 1970, as telas são mais fluidas, as pinceladas mais longas e há uma suavidade entre as mudanças de tons, principalmente verdes e terrosos. Esse período reflete a paternidade, experienciada por três vezes entre 1966 e 1974.

Obra evidencia a relação de Thomé Filgueira com sua terra
Obra evidencia a relação de Thomé Filgueira com sua terra

Nos anos 1980, a inquietude emocional com o fim do primeiro casamento e início do segundo, dominou suas obras com uma explosão de luz e sombras marcantes; falta harmonia e sobra vivacidade. Nessa época, a veia impressionista tornou-se mais evidente. Já na década de 1990, fica evidente o domínio de Thomé sobre sua arte, consolidado com sua obra e disposto a arriscar e experimentar novos caminhos. As telas dessa fase são marcadas por uma alegria jovial.

“Nos últimos anos de vida, papai fez alguns experimentos absolutamente inusitados. Pintou até o fundo do mar. Essas telas são raras. É uma fase alegre, mesmo ele já sofrendo com os efeitos da depressão”, recorda o filho Fabrício Finizola.

Serviço
Abertura da exposição “Entre Usinas e Rios”, de Thomé Filgueira. Quarta-feira (3), às 19h, na galeria de arte do Complexo Iguales – Av. Hermes da Fonseca, 1062, Tirol.













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