Thompson Marinho: Do Paço da Pátria para os EUA

Publicação: 2019-11-17 00:00:00 | Comentários: 0
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Anthony Medeiros
Repórter


Inspiração. O sentido da palavra geralmente vem ligado à experiência, e no caso de Thompson Marinho é algo que ele convive desde os 15 anos. Ele se acostumou a ser exemplo para outros jovens que, assim como ele, sonham em deixar a realidade humilde e buscam viver através da educação. Hoje, aluno da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, sua história vencedora de alfabetização e projeção intelectual foi inspiração para o projeto Leia para uma Criança, promovido pela Fundação Itaú Social que, pela primeira vez, se motivou em uma história real para inspirar crianças e adolescentes de todo o país a seguirem o exemplo de Thompson e sua mãe, dona Rosângela, que contribuiu diretamente para o sucesso acadêmico que o filho alcançou.

Atualmente estudando nos Estados Unidos, Thompson Marinho, fala sobre suas conquistas
Atualmente estudando nos Estados Unidos, Thompson Marinho, fala sobre suas conquistas

“A lembrança da minha infância e adolescência me fortalece muito hoje em dia. Sei o que sou atualmente e sei que isso se deu pela luta da minha mãe na minha infância. Acredito muito que a mensagem dela era verdadeira”, comenta Thompson à TRIBUNA DO NORTE através de uma plataforma de mensagens. A entrevista aconteceu após um dia inteiro do adolescente natalense, de 19 anos, na Universidade de Rochester, instituição, na qual estuda, com mais de 150 anos de história. A universidade está localizada na cidade homônima de mais de 200 mil habitantes, no estado de Nova York , no Norte do país.

A campanha à qual dona Rosângela e Thompson participaram é anual e foi criada pela DPZ&T, uma das principais agências de publicidade do Brasil. Na narrativa, atores representam mãe e filho e contam toda a luta de ambos contra as condições econômicas e sociais adversas, que permitiu que o garoto se alfabetizasse regularmente e desenvolvesse mais assuntos em casa com o auxílio dos livros que a mãe buscava em sua atividade de catadora de lixo. O resultado foi a criação de dois vídeos de dois minutos cada. No primeiro, "Busca do filho", mostra o deslumbre de Thompson, ainda criança, em seus primeiros contatos com a literatura, que aconteceu com os livros que sua mãe apanhava enquanto trabalhava. Já o outro, de nome "Busca da mãe", se concentra nos esforços da mãe em possibilitar que seu filho aprendesse a ler, mesmo com as condições difíceis que tinham que lidar. Ambos os vídeos foram produzidos pela produtora Saigon e dirigidos por Vellas na cidade de São Paulo, ao som de um cover da canção “Dirty Paws” do Of Monsters and Men. Além dos comerciais – que devem ser exibidos na programação da rede Globo em horário nobre – a DPZ&T afirma que também foram produzidos conteúdos relacionados, incluindo entrevistas com Thompson Vitor e Rosângela Marinho. “Foi uma campanha muito linda, pena que eu não estava no Brasil para acompanhar o lançamento. Espero que eu possa ter mudado a perspectiva de muitas pessoas”, comenta Thompson.

Foco nos estudos para crescer ainda mais
Nascido na comunidade do Paço da Pátria, às margens do Rio Potengi, Thompson nunca teve nada fácil. Sua mãe, Rosângela, trabalhou na reciclagem do lixo urbano por 15 anos e por suas coletas selecionava alguns exemplares de livros para que seu filho mais novo tivesse acesso à educação de qualidade que seus recursos financeiros não conseguiam proporcionar. Esse foi o pontapé inicial para que o adolescente pudesse galgar sonhos fora da comunidade da zona Leste. Mas os Estados Unidos não foram o primeiro destino longe da capital potiguar.

Rosângela inspirou filho a ler levando livros do lixo para casa
Rosângela inspirou filho a ler levando livros do lixo para casa

Em 2015, recebeu um convite para estudar, com tudo pago, no Colégio Farias Brito, em Fortaleza, no Ceará. Em seguida, foi selecionado em primeiro lugar no estado inteiro no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE). No segundo ano do ensino médio, descobriu o movimento United World Colleges (UWC), uma rede de 18 colégios internacionais com missão bem definida: fazer da educação uma força para unir povos, culturas e nações pela paz e por um futuro sustentável. “Eu então decidi aplicar como um candidato a uma das vagas oferecidas pelo comitê nacional da UWC. Depois de um longo processo seletivo, que contou com uma prova acadêmica, uma entrevista, e uma fase presencial com outros 21 candidatos, eu fui selecionado como um dos bolsistas da geração UWC 2017-2019 para ir estudar no Pearson College UWC, no Canadá”, conta.

Antes de ir ao extremo norte da América, teve sua primeira experiência fora do país. O garoto foi selecionado para participar de um curso de verão na Universidade de Yale - única instituição a formar cinco presidentes norte-americanos: William Howard Taft (1878), Gerald Ford (1941), George Bush (1948), Bill Clinton (1973) e George W. Bush (1968). Naquela altura, se valeu de uma campanha para um um financiamento coletivo para garantir sua passagem de ida e custear o visto para os Estados Unidos. A TRIBUNA DO NORTE ouviu o garoto na época, e já falava sobre a importância da educação em sua vida. “Eu fiquei sabendo do programa por dois colegas aqui do colégio. Fiquei curioso e fui pesquisar, e vi que era muito interessante, aí eu pensei: próximo ano eu vou tentar. É um processo bem competitivo, tem vários requisitos para preencher, tive que mandar várias redações em inglês que contassem um pouco sobre meu perfil de estudante, de aluno... Também tive que fazer alguns testes de lógica e inglês, além de uma série de detalhes específicos que eu tive que mandar pra ele, como medalhas em olimpíadas, vestibulares prestados... Eles levam tudo isso em consideração, porque é um concurso muito disputado. E, no final de abril, desse ano fiquei sabendo que tinha sido aprovado, foi incrível”, falou, em 2017, ao jornal TRIBUNA DO NORTE.

Voltando ao Canadá, experiência ao qual o jovem classifica como “a mais impactante de sua vida”, aprendeu a apreciar a diversidade, e se sentiu “mais consciente dos problemas que permeiam o mundo contemporâneo e o meu próprio país”. 

Ao final do período no Canadá, recebeu uma proposta para fazer o  ensino superior na Universidade de Rochester. No entanto, a bolsa que recebeu não incluía os custos de visto e da viagem, que foram parcialmente custeados com uma nova campanha de financiamento coletivo. O restante foi custeado por um empréstimo entre o jovem e a própria instituição. “Passei em outras universidades também. Minhas opções eram instituições na Flórida e em Oklahoma. Escolhi Rochester por causa do foco que eles têm em ciência, em pesquisa, em tecnologia”, explica o jovem.

Em seu primeiro semestre na instituição, Thompson está cursando cinco disciplinas. Nos Estados Unidos, o formato de graduação é diferente. Você não comunica à universidade seu curso já no início, isso é feito em um segundo momento. No entanto, o jovem afirmou que deve escolher seu “major” (em português, principal) em química e o “minor” (em português, algo acerca de secundário) em religião. “As pessoas estão sempre em confronto. Por isso estou estudando. Amo a ciência e religião. No momento não existe uma área específica que eu imagino que eu vá trabalhar, visto que a ciência é muito grande. Existe uma possibilidade de mesclar biologia e química. Ciência é uma coisa pela qual sou apaixonado. Então, como eu te disse, sonhos eu tive muitos a estar vivendo esse momento e hoje, graças a Deus, esses sonhos estão se cumprindo”, confidencia o adolescente.

Thompson afirma que sente saudades do arroz e feijão da mãe, porém explica o que sente mais falta: “Aconchego. O contato a gente mantém por redes sociais, pelo canal do YouTube da minha mãe, mas nada se compara à falta do aconchego da família, do lar, de estar junto”, explica,

Futuro
Com previsão para acabar o curso apenas em 2023, Thompson afirma que espera estar trabalhando com a área de pesquisa científica neste período. Sem especificar qual área deseja enveredar na ciência, algo mais claro é apontado pelo adolescente: a vontade de mudar o mundo através da educação. “Penso que existem várias portas abertas pra mim. Talvez eu volte ao Brasil no futuro, para mudar um pouco da bagunça que existe em nosso país. Mostrar que educação é importante e que gastar dinheiro em educação não é gasto, é investimento”, explica o jovem, que acrescenta. “Não sei como, mas gostaria [de voltar]. Talvez na política, talvez na educação como professor em escola pública, universidade, o que quer que seja. Eu não tenho essa carreira toda traçada em minha mente, mas posso dizer que me vejo terminando os meus estudos, indo pra área de pesquisa e, a partir daí, crescer ainda mais intelectualmente. É esse contato com outras pessoas abre minha mente, que faz eu aprender cada vez mais”, comenta.





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