Tiago Medeiros: “Confunde-se lucro com o apurado”

Publicação: 2020-09-20 00:00:00
Ricardo Araújo
Editor de Economia


O mercado de consumo mudou com a pandemia do novo coronavírus e tendências projetadas para anos vindouros se tornaram realidade em 2020, num curto e inesperado intervalo de tempo. Os empresários que não se adaptaram a essa nova realidade ficaram para trás e correm o risco de ver ruir seus negócios, caso não se adequem à nova realidade.
   
Uma das necessidades é gerir melhor os sistemas administrativo e financeiro das empresas, gerando resultados positivos, equilíbrio de caixa e satisfação ao cliente. Na entrevista a seguir, o gestor financeiro Tiago Oliveira Medeiros discorre sobre a nova dinâmica empresarial e reforça a necessidade de adaptação às imposições da economia e do cliente. Acompanhe.

Créditos: Alex RégisEspecialista detalha necessidade dos empresários, independente do tamanho do negócio que administrem, se preocuparem com saúde e correta gestão financeira do empreendimentoEspecialista detalha necessidade dos empresários, independente do tamanho do negócio que administrem, se preocuparem com saúde e correta gestão financeira do empreendimento

As pequenas e médias empresas lideram a presença no mercado potiguar, conforme dados do Sebrae/RN. Elas estão bem estruturadas para administrar a parte financeira como um todo? Quais são os erros mais comuns?
De fato, as pequenas e médias empresas lideram aqui em nosso Estado e tem uma parcela muito importante em nossa economia. Mas o padrão que eu identifico em relação aos empresários é que só se tornaram o que são por necessidade, como no momento em que vivemos, ex-funcionários que decidiram abrir um negócio próprio e negócios herdados. No cenário da necessidade, por exemplo, abre-se uma empresa porque é preciso vender algo para por comida em casa, então, pensa-se que coisas que consomem tempo não merecem atenção. Mas é aí que mora o perigo. O que mais esses três tipos de empresários têm em comum é julgar que a parte administrativa não merece tanta atenção, isso inclui a financeira. O dilema que existe é que “eu sou bom naquilo que estou oferecendo, mas não consigo conciliar com a parte administrativa.” Infelizmente, com esse pensamento, o lado que tende a sofrer mais é o administrativo, com foco no que menos se entende, normalmente o financeiro. É muito comum pensar que por ter comprado um produto por X e vendê-lo por 2X obteve-se um lucro de 100% e se contentar com isso. Mas muitos empresários não entendem que se deve calcular o custo do produto, custos diretos e indiretos, que no final das contas supera o valor inicial, ou seja, acabam “pagando para vender”. Relacionado a tudo isso, ocorre algo absurdamente comum, que é confundir os rendimentos da empresa com os pessoais, conhecido como “lucro com o apurado”. O empresário começa a melhorar o seu padrão de vida às custas da empresa e isso em algum momento irá pesar.

Existem riscos, de quais tipos, para os empresários que não conseguem alinhar as finanças por terem preocupações extras na administração da empresa?
Quando os empresários não conseguem conciliar a parte administrativa com a financeira, um dos dois irá decair. Normalmente, a financeira. E a gente só passa a enxergar essa área quando ela já está bem delicada. É preciso ter um olhar mais clínico e atencioso para isso. Um dos maiores riscos é a quantidade de juros que se pode chegar a pagar por não estar olhando para o financeiro, misturar o dinheiro da empresa com o pessoal, não pagar as contas por falta de capital. Com isso, acabam utilizando capitais de terceiros sem planejamento, como empréstimos e cartão de crédito, o que agrava de vez a situação. Não dar a devida atenção a isso pode, literalmente, fechar as portas do seu negócio.

Essas empresas estão procurando outras que prestam serviços especializados na parte financeira? Como você avalia essa dinâmica no mercado local?
A TM Finanças começou a operar em 2014, a fazer a terceirização do financeiro, justamente pela necessidade das empresas de colegas e amigos. Houve um crescimento considerável na terceirização do financeiro nos últimos anos e agora mais do que nunca. As empresas estão começando a se abrir e a ver que terceirizar esse tipo de serviço tem um ótimo custo benefício, com atividades realizadas em tempo hábil e geração de informações para tomada de decisão. Consequentemente, quando as decisões são tomadas de forma mais assertiva e célere sobra mais tempo para o empresário se dedicar naquilo que gera receita. Hoje, nós temos um sistema de gestão financeira com esse objetivo, para facilitar o registro e geração de informações que ajudem a tomada de decisão do empresário. Inclusive, outras empresas que trabalham com terceirização financeira utilizam o sistema para auxiliar em suas atividades.

O que há de positivo na contratação de um especialista na prestação desse serviço?

Acredito que ter alguém que olhe de fora o negócio, ajuda a identificar coisas antes não percebidas, além de gerar informações que ajudem na tomada de decisão. Já me deparei com empresas onde os empresários acreditavam estar bem organizados, mas quando eu checava o setor financeiro, as planilhas utilizadas para registro não ajudavam a chegar a nenhuma conclusão, por exemplo. Após poucas horas organizando alguns processos financeiros, e alguns dias depois, já pode ser observado um crescimento mais rápido. O importante das empresas terceirizarem é, sobretudo, que elas terão um crescimento mais rápido. Os negócios precisam trabalhar com um time mais rápido e objetivo, gerando receitas cada vez maiores, entendendo o que o cliente quer e poder negociar melhor com os fornecedores. Seja um profissional liberal, comerciante ou prestador de serviço, é preciso que dediquem maior atenção a isso, ao que sabem vender. Se há um financeiro operando plenamente, os empresários poderão dedicar maior atenção ao que o cliente quer.

Qual o perfil da sua clientela e como sua empresa tem crescido no Estado?

O nosso perfil mais forte são as prestadoras de serviço, com foco em profissionais liberais: dentistas, advogados, médicos, como também empresas que prestam serviços. Já atendemos todos os segmentos, mas o que a gente mais cresceu foi esse, pelo fato de as prestadoras de serviço demandarem bastante atenção dos donos. Se eu sou um dentista, eu estarei diretamente com o meu cliente. Então, se faz necessário ter alguém capacitado cuidando das demais áreas, o que inclui o financeiro. Muitas vezes, uma secretária, por exemplo, ficará fazendo o seu trabalho, mas eu não terei tempo para supervisionar e analisar o que está acontecendo. Se eu tenho uma oficina, uma clínica de fisioterapia, algum outro serviço, eu também irei precisar de alguém que monitore, analise os resultados e o desempenho das demais áreas do negócio. Principalmente quando alguém de um determinado setor adoece ou é desligado durante um tempo, aquela área sofre consequências. Com tudo isso, nós temos crescido significativamente. Principalmente em 2018, quando crescemos 317% justamente porque passamos a entregar mais resultados para os empresários tomarem mais decisões. E agora na pandemia, decidimos mudar o nosso modelo de negócio. Ao invés de sermos uma empresa prestadora de serviço, passamos a focar em tecnologia. Com isso, pegamos o sistema que utilizamos para organizar a nossa rotina e começamos a fornecer para os empresários para que eles tenham dados para a tomada de decisão. Caso eles não tenham tempo para alimentar o sistema, podem nos contratar para terceirizar isso. E assim, tornamos o negócio mais escalável e a nível nacional.

Diante da pandemia e das mudanças impostas, qual perfil de empresário irá sobreviver no mercado?

Durante diversos eventos dos quais participei, eu sempre falei que os empresários que estão passando por crises financeiras nesse momento já estavam com problemas antes. Para exemplificar, um dono de negócio que consumia o seu fluxo de caixa, basicamente vivia do que entrava na empresa, não se preparava e muito menos tinha uma reserva de emergência. Quando veio a pandemia, que da noite para o dia as empresas ficaram sem faturamento, esses empresários se desesperaram e tomaram várias decisões precipitadas, o que culminou no fechamento de vários negócios. Os que vão sobreviver, são aqueles que irão fazer uma boa gestão de crise e se preparar para ela. Mas como fazer isso? Basicamente, sempre fazer uma reserva. Basta ter a mentalidade de que você e a empresa são sócios, e se o negócio é focado em gerar lucro, ambos têm que ganhar. No caso da empresa, os ganhos tem que estar disponíveis como saldo remanescente para ficar como fluxo de caixa e formar um capital de giro, para quando o negócio tiver uma oscilação no faturamento, ele conseguir arcar com as despesas. O perfil de empresário que irá sobreviver é aquele que sabe ter cautela e é visionário, ter sempre uma reserva para gerar um fluxo de caixa, e quando houver alguma emergência conseguir passar por ela sem muitos danos. Além disso, que sempre pensa no cliente e o que ele quer em determinado cenário. Muitas veze,s se quer apenas vender e não enxergar a necessidade do cliente. Quando atendemos o que o mesmo quer, passamos a fidelizá-lo. O mais importante é ter consumidores satisfeitos.  

O senhor acredita que, com o novo normal no mundo dos negócios, o empresariado se preocupará mais com a gestão financeira dos negócios?
Logo quando começou a pandemia eu vi vários dos meus clientes querendo cada vez mais conversar sobre o financeiro com a gente. Outros, por incrível que pareça, dizendo que o financeiro não era a prioridade naquele momento. Isso só mostra que o brasileiro, no geral, tem uma cultura financeira muito humilde, de que a área não é muito importante, e é isso que é preciso mudar.  Os empresários de agora em diante, nesse “novo normal”, precisam se preocupar com a gestão financeira do negócio, olhar para todos os setores, mas sempre relacionando ao financeiro. Custo de venda, custo da operação, hora de trabalho, o que eu estou entregando para o meu cliente, tudo tem que estar conectado com o financeiro para fazer sentido se é rentável ou não. Sim, as empresas para ter um crescimento muito maior nesse “novo normal” devem sair com aprendizado dessa pandemia, de que esse susto que estamos passando serviu para cultivarmos uma maior maturidade na gestão de um negócio, sobretudo na área financeira, e na vida pessoal também. Entender o que, muitas vezes, traz satisfação em um negócio nem sempre é a venda contínua, mas também a tranquilidade. As pessoas, sejam empresários ou não que tinham uma reserva financeira, estão passando por esse período próximos de seus familiares, reconstruindo laços antes distantes, justamente por ter a tranquilidade do controle financeiro e ter feito uma reserva. Aqueles que não fizeram isso estão tendo desgastes, problemas nos relacionamentos no geral, além de situações mais trágicas. Infelizmente, isso acontece e impacta em diversas áreas emocionais da vida. Por isso, enfatizo tanto que se deve estar preparado para esses momentos. Entenda que um negócio vai além das vendas. Ele irá construir a sua segurança financeira e de sua família. Então, se não pensamos no hoje e no amanhã, consumindo o dinheiro como se isso não existisse, iremos viver sempre uma situação financeira a mercê do mercado e sempre culpar terceiros por nossas próprias decisões.