Ticiano Duarte

Publicação: 2017-04-21 00:00:00 | Comentários: 0
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Vivo fosse, Ticiano Duarte estaria fazendo hoje 86 anos. Faleceu em 8 de agosto de 2015. Quando de seus oitentanos  escrevi  aqui, tentando traçar o seu perfil ou apresentar um retrato três por quatro de uma das maiores figuras humanas desta aldeia natalense, uma amizade de quase 70 anos: “Jornalista, advogado, professor universitário, escritor, líder maçônico, imortal da Academia Norte-rio-grandense de Letras, excepcional ‘causeur’, dono de memória privilegiada para contar e reviver histórias fantásticas desta aldeia de Poti mais esquecida, mormente quando o tema é política, um de seus doutorados.”

Mais adiante, acrescentei: “Boêmio, ave noturna a sobrevoar as noites da cidade, dando vazão à sensibilidade artística de quem já foi ator de teatro, conviveu e convive com poetas, escritores, pintores, ao lado de todos os movimentos culturais. Poucos na província têm a elegância e o carisma de recitador da obra dos grandes poetas. Que pode acontecer, de repente, numa mesa de bar”.

Ticiano começou no jornalismo ainda adolescente. Em 1954 nos encontramos pela primeira vez numa redação de jornal. Foi no Diário de Natal. Mas já éramos conhecidos nas lutas estudantis, eleições para o Centro Estudantil Potiguar.  Mais adiante, uns quinze anos depois, nos reencontramos nesta Tribuna do Norte aonde insisto no ofício. Aqui ocupou a direção do jornal, enfrentando o tempo sombrio da ditadura militar. Foi uma rica trajetória, uma amizade de irmãos, até aquela noite de 7 de agosto de 2015 quando participamos, na Festa Literária da Praia de Pipa, da mesa sobre os “Cem Anos de Djalma Maranhão”. Foi quando Ticiano saboreou o seu último uísque.

Saudades do velho Tício, que todas as manhãs, pelo telefone, fazia sempre a mesma pergunta: “Alguma novidade, Woden? ” Imagine hoje, diante do cenário de Brasília/Curitiba, quantas vezes ele repetiria a mesma pergunta durante o decorrer do dia e à espera da noite nas esticadas da boemia, arte na qual era mestre com todas as graduações.

Natal de Ticiano

Neste 21 de abril, consagrado a Tiradentes e a Ticiano, presto minha modéstia homenagem ao velho, querido e saudoso amigo, transcrevendo aqui alguns trechos de uma crônica que ele escreveu sobre as comemorações dos 400 anos de Natal, cidade onde nasceu e que amava apaixonadamente. Está no seu livro Anotações do meu Caderno, publicado em 2000. Ticiano faz um passeio por Natal de sua mocidade, concentrando suas lembranças mais ao redor do Grande Ponto, na Cidade Alta, “patrimônio cultural e boêmio da capital do Estado”.  Ticiano vai falando:

- Eu sou xarias. Nasci na fronteira do Grande Ponto, na antiga rua Uruguaiana, que depois se chamou Idaletro de Freitas e hoje guarda o nome de General Osório. Portanto, sou orgulhosamente fronteiriço do “país” do Grande Ponto, onde aprendi, na sua universidade aberta, democrática e transparente, lições de menino, de adulto e de homem maduro. Sonhei muito e fui sempre fiel aos ensinamentos ali recebidos, de amor, perseverança e solidariedade.

- A rua João Pessoa abrigava no carnaval o desfile e o corso de automóveis, de blocos, de sujos, de foliões irreverentes. Ioiô Barros, avô de Lenine Pinto, de reco-reco na mão, cantarolava: “Olhe o cão, olhe o cão Jaraguá”. No sobrado da esquina com a Princesa Isabel, ficava a sede do Santa Cruz; no térreo o “Botijinha”, de Jardelino Lucena, pai.

- A confeitaria “Cisne” começava a ser a triunfal cidadela da boêmia da cidade.  Ali se reuniam as tradicionais figuras de Luizinho Doublinchen, Albimar Marinho, Djalma Cavalcanti, Alcebíades Fernandes, José Pinto Júnior e tantos outros. Políticos e empresário que aos sábados se juntavam para o aperitivo da cervejinha gelada, “Antártica”, casco escuro, e os saborosos pasteis fabricados por Múcio Miranda. Nunca mais houve nada igual.

- Na esquina da Rio Branco, um pouco mais adiante, estava o “Natal Club”, reunindo a elite da cidade, políticos, magistrados, empresários, profissionais liberais. Era o jogo de cartas, gamão, xadrez. Na sua varanda, no primeiro andar do prédio, descortinava-se toda a Avenida Rio Branco, o seu desfile de final da tarde – mulheres bonitas e elegantes, no passeio pelas lojas.”

Os papos da noite e do dia
Ticiano prossegue anotando no seu Caderno:
- À noite, o “papo” e o desfile das moças aos pares, na longa calçada que ia da esquina da Princesa Isabel à esquina da Deodoro. O encontro dos namorados, o desabrochar das primeiras paixões, as conversas que terminavam nos bancos da Praça Pio X, com seu quiosque no centro.

- Intelectuais, estudantes, jornalistas, advogados, médicos, empresários tomavam café no “São Luís” ou no “Maia”. A sorveteria “Cruzeiro”, de Antônio China, era o local permanente de Leonardo Bezerra, Luiz Maranhão, Guaraci Queiroz, João Batista Pinto, Lenine Pinto, Newton Navarro.

- No encerramento do expediente, fim da tarde, a presença dos desportistas, discutindo a rivalidade de América e ABC: Humberto Nesi, João Machado, Sylvio Tavares, Adalberto de Souza, Rui Barreto. Meira Pires convocava Sandoval Wanderley para discutir teatro e de reboque o inesquecível Jaime dos G. Wanderley.

- Walfan Queiroz declamava a sua poesia rebelde, a sua mensagem pessimista, mas inteligente e culta. Gilberto Avelino já derramava o seu lirismo, evocando Macau, seu mundo encantado de menino filho de poeta maior.  Nei Marinho tocava brincadeiras e trotes. Zé Herôncio alfinetava as figuras circunspectas e importantes, com seu humor inteligente e seu jornalzinho carnavalesco, o “Bombo”.

- Doidos, loucos de todos os gêneros povoavam aquele trecho mágico da cidade, com seus mistérios; Maria Mula Manca, o mudo que se vestia como soldado americano e fazia as vezes de guarda de trânsito. Tobiba, o pedinte, com o seu linguajar próprio, a dizer frases e escrever com giz na calçada. Milton Siqueira, poeta, vendendo os seus versos bem feitos, metrificados.

- Eutiquiano Reis, magistrado íntegro e imponente, solteirão e boêmio, postava-se em frente à Casa Vesúvio, do velho Maiorana. Falava pouco e ouvia muito, admirando as mulheres bonitas que por ali transitavam. Reservava uns minutos para deliciar-se na cerveja geladíssima do bar “Cisne”. Albimar Marinho fazia discursos nos bares e aceitava o agradecimento em copos de cerveja.

- Foi um tempo provinciano, mas inteligente. A cidade crescia, modernizava-se. Antes da mídia eletrônica, a revolução do rádio de pilha, na época da redemocratização do país, com a vitória dos “Aliados”, em 45, nos campos da Europa”.


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