TN traz três histórias de pais e filhos, superando desafios em tempos de pandemia

Publicação: 2020-08-09 00:00:00
A+ A-
Mariana Ceci
Repórter

O presente de aniversário de José Nelson Ferreira, conhecido pelos mais próximos como "Zé Pegado", chegou atrasado em 2020. No dia 17 de maio, quando completou 56 anos de vida, o mecânico encontrava-se entubado em um dos leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Municipal de Natal, com covid-19. O tratamento de José começara quase um mês antes, em 24 de abril, e se estenderia por 103 dias, o período mais longo que um paciente ficou internado se tratando da doença no Hospital. No dia 5 de agosto, José e sua família receberam o presente, adiado e muito aguardado: sua volta para casa, a tempo de passar, junto dos dois filhos, o dia dos pais.

Créditos: CedidaJosé Nelson (centro): o dia dos pais, mesmo perto dos filhos, será atípico, focado na recuperaçãoJosé Nelson (centro): o dia dos pais, mesmo perto dos filhos, será atípico, focado na recuperação

"Eu e ele somos muito apegados, desde que eu era criança. Pensar na possibilidade que eu poderia perdê-lo a qualquer momento era uma dor enorme. Eu confesso que fiquei muito desesperada, mas sempre mantendo a fé em Deus.”, conta Ana Helena de Azevedo, de 25 anos, filha de José. 

Enquanto José se tratava, pacientes davam entrada e recebiam alta do Hospital. Ao todo, 180 pessoas passaram pela UTI da unidade durante os 103 dias pelos quais ele permaneceu internado. De acordo com a filha, foi a primeira vez que teve que lidar, de perto, com a possibilidade de perder o pai. "Ele é a alegria em pessoa. Querido por todos, até por quem não conhece ele. Brincalhão, alegre, ativo. Era angustiante vê-lo naquela situação, sem saber como seria o dia de amanhã. Mas mesmo não sabendo como ele acordaria, a gente sabia que ele estava sempre lutando, e isso mantinha a nossa fé".

Apesar de ter recebido alta, a saúde de José ainda é frágil. Ele teve todas as complicações que um paciente pode ter pela doença: pneumonia, lesão por pressão e necessidade de diálise. Além disso, passou 60 dias entubado, e vai necessitar de sessões de fisioterapia para se recuperar. 

O dia dos pais, portanto, mesmo perto dos filhos, será atípico, focado em sua recuperação. "Esse ano vai ser diferente, mas é só uma questão de se acostumar. Ter paciência para ele ganhar mais um pesinho, voltar a caminhar, a andar...", diz Ana. Os papéis, portanto, se invertem: é a vez dos filhos cuidarem do pai, do qual ela diz ter herdado a personalidade e a fisionomia. 

"Eu sou como ele: meio explosiva às vezes, brincalhona e um pouquinho doida. Se pudesse dizer algo a ele nesse dia dos pais, diria para ele não desistir, como não desistiu de lutar pela vida no hospital. O processo de recuperação é lento, mas vamos ter paciência e vai dar certo. Estamos juntos nessa até o fim, e eu o amo demais".

Pais que se curam, filhos que se curam
Enquanto a família de Ana Helena e José Nelson teve como presente a recuperação do pai, para Pedro Raphael, foi a recuperação do filho o presente de dia dos pais em 2020. Aos 3 anos de idade, Pietro Benício foi diagnosticado com um tumor no cérebro, e precisava ir à São Paulo iniciar um tratamento de emergência, no valor de R$ 250 mil. Os pais do menino, Raphael e Francimara, não possuíam a quantia, e iniciaram uma vaquinha online para poder custear o tratamento do filho. Após três dias, a campanha atingiu a meta, e Pietro foi internado no dia 15 de julho no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo para ser operado no dia 18. No dia 5 de agosto, enquanto José Nelson recebia alta do Hospital Municipal de Natal, Pietro Benício também recebia alta do Hospital, após uma cirurgia bem sucedida, e começava o caminho de volta para casa. 

Créditos: CedidaPedro Raphael, sobre Pietro Benício: “A gente vai encontrando forças, vai lutando e se emocionando”Pedro Raphael, sobre Pietro Benício: “A gente vai encontrando forças, vai lutando e se emocionando”

“Foram momentos muito difíceis não só pra mim, como pai, mas para toda família. Na minha visão, o pai era aquela figura protetora, o guerreiro e, de repente, me sentia abalado diante da impotência daquele momento”, conta Raphael. Ao longo do processo, ele conta que teve que aprender como administrar o medo diante da doença do filho com tudo aquilo que poderiam fazer para que ele se recuperasse. “A gente vai encontrando forças, vai lutando e se emocionando a cada processo e recuperação. Cada simples passo e sorriso dele passam a ser gigantescos para nós”, completa.

Os primeiros sintomas de Pietro surgiram de forma sutil. A criança, que até então fora saudável durante toda a vida, começou a apresentar problemas de equilíbrio que chamaram a atenção dos pais, e fizeram com que eles procurassem um especialista. A família, natural de Jardim de Piranhas, no interior do Rio Grande do Norte, veio para a capital em busca de auxílio médico, onde Pietro foi oficialmente diagnosticado com um tumor na região do cérebro. Dos primeiros desequilíbrios ao diagnóstico final, passaram-se três meses.

A cirurgia de Pietro retirou 80% do tumor. O restante, que está em uma parte mais colada ao cérebro, não pôde ser retirada pelas sequelas que poderia trazer à criança. A cada dois meses, os pais farão ressonâncias a fim de identificar a possível necessidade de uma nova cirurgia.

“Hoje, minha sensação é de gratidão. Cada dia tem sido um milagre. Eu sou grato primeiramente a Deus, e a todos que mandaram orações, que fizeram doações sem sequer nos conhecer. É o muito obrigado de um pai emocionado, que não tem palavras para agradecer. Teve gente que doou centavos, e eu sei que foi de coração, porque era tudo que aquela pessoa tinha. Isso me enche de orgulho, é um presente ver que há tantas pessoas tão boas”, diz Raphael. 

De acordo com ele, a lição que vai levar, enquanto pai, de toda a situação, é da importância de dar valor aos momentos com os filhos. “A gente não sabe o dia de amanhã. A gente tem que sim ser criança: sentar, brincar de carrinho, brincar de boneco, de cavalo. O nosso tempo com eles é valioso. A importância de um pai não é só trabalhar e levar comida para a mesa. Nós precisamos dar o nosso amor, o nosso tempo. Precisamos nos doar aos nossos filhos”. 

Além de Pietro, Raphael é pai de outro menino, Pedro, de 9 anos. “Eu aprendi a ser uma pessoa mais amorosa, mais responsável. A mensagem que eu tenho para elas é que eles podem contar comigo. Eu sempre estarei à disposição, sempre estarei cuidando e dando o meu melhor”. 

Além da cura, há também o nascimento
O coronavírus tornou a morte uma presença constante no noticiário e nas conversas. Com quase 100 mil mortos confirmados até a última sexta-feira, 7, o país vive um momento de luto no qual milhares passarão o dia dos pais sem os entes amados. Em meio à dor e à morte, no entanto, ainda há vida. Jussiara Lima e Givanildo Rodrigues são a prova disso. No dia 23 de maio, Jussiara deu a luz a trigêmeos, na Maternidade Escola Januário Cicco, em Natal. Moradores da cidade de João Câmara, a família, que já contava com uma filha de Givanildo e um filho de Jussiara, aumentou para cinco, com a chegada de Nicolas Davi, Enzo Gabriel e João Heitor. 

Créditos: CedidaGivanildo Rodrigues, sobre os trigêmeos: “Apesar do susto inicial, essas vidas são uma benção”Givanildo Rodrigues, sobre os trigêmeos: “Apesar do susto inicial, essas vidas são uma benção”

"A princípio, fiquei um pouco nervoso", conta Givanildo, que trabalha como balconista em um açougue. "Minha esposa engravidou, e a gente achava que era um único bebê. Um dia, ela foi numa consulta e, quando cheguei do trabalho, ela estava carregando um pedaço de papel, um pouco abismada. Me entregou o papel e eu lia, mas sem entender, até que ela disse: estou grávida de trigêmeos". Inicialmente, ele conta que foi tomado pelo nervosismo. "Uma criança já dá trabalho, imagine três. Ela olhou pra mim e perguntou se eu tinha ficado triste. Eu disse que não. Nos abraçamos e seguimos, sabendo que apesar do susto, essas vidas seriam uma benção", completa.

Pouco mais de dois meses após o nascimento dos filhos, Givanildo conta que o nervosismo inicial desapareceu por completo. "Todos os dias, quando saio para o trabalho, agradeço a Deus por eles e peço força e coragem para que possamos cuidá-los da melhor forma possível", conta.

Para ele, a paternidade é, antes de tudo, uma grande responsabilidade. "Ser pai é uma responsabilidade enorme, e que vai durar por toda a vida. Não posso explicar o quanto eu amo ser pai, é impossível. Como pai de tantas crianças, o que eu posso dizer é: vamos ter paciência com os nossos. No fim, tudo dá certo. Cuidando delas com carinho e amor, cuidamos também do nosso futuro. Eles são o meu maior presente".