“Todo e qualquer fanatismo só leva à morte”

Publicação: 2010-09-19 00:00:00
O bispo Magnus Henrique vai celebrar missa em Assu, sua terra natalAgora ordenado bispo, Dom Magnus Henrique Lopes, 45 anos, prepara-se para assumir a sua nova função episcopal, tomando posse como primeiro bispo da Arquidiocese de Salgueiro, no Sertão de Pernambuco, no próximo dia 12 de outubro. Antes disso, ele preside celebrações às 19 horas deste domingo, dia 19, em Assu, sua terra natal e 19:30 desta terça, 21, em Itajá, também no Vale do Açu. Antes, ele falou ao repórter Valdir Julião, da TRIBUNA DO NORTE, reforçando a defesa da Igreja em relação a questões como divórcio, pedofilia, drogas, homossexualismo e o ensino religioso nas escolas. 

O senhor esperava esta nomeação para ser o primeiro bispo da nova paróquia de Salgueiro (PE)?

A nomeação saiu no dia 16 de junho, porém foi uma surpresa, porque poucos dias antes fomos chamados, a Nunciatura nos comunica, pergunta se a gente aceita e pede um tempo para rezar, para pensar, mas isso é questão de dez dias, se faz uma carta dizendo que aceita e naquela data se faz a publicação oficial.

As pessoas leigas, geralmente, acham que nomeação para bispo é só de padre, monsenhor. É comum a nomeação de freis para bispos na Igreja Católica?

Tem muitos, por exemplo, o bispo que vai me ordenar é um frade Capuchinho; o de Caicó, é um Capuchinho também; o de Petrolina é um frade, não é um Capuchinho, mas é um Carmelita.

O que é a Ordem dos Capuchinhos? Como foi a sua origem?

São Francisco segue o Evangelho, seguir Jesus Cristo de uma forma radical, ele nasceu em 1.282 e vem a falecer em 1.326. Então, daí muito jovem, primeiro ele vai para aquelas Cruzadas na esperança de receber títulos de nobre e cavalheiro, depois ele decide seguir um outro caminho. Ele começa a perceber que os leprosos precisavam de alguém para cuidar disso ai. Ele era filho de um grande comerciante e começa a ter um outro estilo de vida, olhar e cuidar dos leprosos, enquanto os leprosos moravam fora da cidade, porque eram excluídos, ele vai em busca dos leprosos, enquanto os leprosos tinham um chocalho para avisar que estavam passando por ali, e os outros se afastarem deles, São Francisco faz o contrário, vai em busca daqueles. São Francisco começa a questionar a sociedade de Assis, a família de São Francisco realmente, o pai dele, fica enlouquecido, porque preparava o jovem para ser um cavalheiro da nobreza, de repente o filho vai cuidar de leprosos. Ele renunciou a toda riqueza da família dos Bernardoni, o pai era um rico comerciante, comprava tecidos da França. Então, ele renuncia tudo e começa a se dedicar aos pobres, e esse estilo de vida dele foi a maior pregação. E foi uma pregação eloqüente, porque ai começam a surgir outros jovens de sua época que passam a ter esse estilo de vida, e ele começa a morar fora dos muros de Assis, de forma simples, e daí dessa intuição de São Francisco nasce a instituição. Então, com passar dos anos esse grupo cresce e se faz necessária a estruturação desses que estão aparecendo. A Ordem Franciscana foi criada e nasceu no berço para cuidar dos pobres, e ainda hoje os nossos conventos estação sempre com as portas abertas para colher os pobres.

Por que o nome dos Capuchinhos?

Pelo capuz pequeno, um grupo de frades que passam para uma observância mais radical da pobreza em 1538, e diminuem o capuz do hábito até pelas necessidades do tecido é diminuído, o capuccino, como  é em italiano. A sandália sempre fez parte da roupa, que é chamada purel, que era a roupa das pessoas pobres. O cordão justamente os pobres pegavam o tecido longo e amarrava a roupa na cintura, como forma de prender o hábito ao corpo e facilitar um pouco a caminhada. As sandálias significam despojamento, no frio de Assis, que chega zero grau, muitos deles, às vezes, não usavam sandálias.

Como o senhor vê a questão do celibato dentro da Igreja Católica, já que existe uma corrente, como os ex-padres, que defendem o fim do casamento dos padres?

O celibato dever perdurar sim, porque quando a pessoa vem para se consagrar, já vem consciente de que celibato existe e vai abraçar o celibato por causa do Reino dos Céus, está lá na Bíblia, que muitos serão eunucos por causa do Reino dos Céus.  Jesus Cristo era celibatário, tantos e tantos outros que seguiram Jesus foram celibatários. Isso não significa que outras pessoas que são leigas, também não possam pregar, na Igreja há espaço para todos, então, você como leigo casado há um grande espaço dentro da Igreja.

E essa questão de que ex-padres defendem a volta à batina para celebrar?

A Igreja diz que não, porque eles fizeram uma opção para o casamento, então o fato de estarem casados, eles podem seguir, fazer o seu trabalho, não necessariamente vai ter que celebrar missas.

E qual é a sua posição com relação ao aborto?

Minha posição é a da Igreja, é sempre a vida, para a Igreja é sempre a vida, ela sempre vai defender a vida.

O senhor vai tomar conta de 400 mil fiéis. O que o senhor falar numa celebração vai repercutir muito. Então, como o senhor analisa hoje a questão das drogas, principalmente entre os jovens?

Esse é um desafio para a sociedade como todo. Como Igreja, nós devemos nos comprometer sempre, como religioso, deveremos nos comprometer também com a dimensão social. A cruz é esta, essa minha ligação com Deus, mas essa ligação minha com o outro. Daí a dimensão vertical e a dimensão horizontal, daí o sentido de nossa fé, que é justamente a busca do caminho da ressurreição. E a Igreja se preocupa, inclusive teve uma Campanha da Fraternidade sobre as drogas, existe um trabalho imenso na Igreja para com os jovens drogados, existe também um trabalho preventivo, não só para aqueles que mergulharam nas drogas, mas também um trabalho preventivo, fazendo a esperança estar aí, para testemunhar essa preocupação da Igreja com as drogas, e com certeza nós como Igreja deveremos sempre arregaçar as mangas em busca desse jovem, que está sendo seduzido, e a gente sabe que existe todo um contexto sócio e econômico por trás disso aí, não é simplesmente o jovem que decidiu, também às vezes de uma família desencontrada.

Então, o senhor acha que houve  uma queda muito aguçada  de valores entre as famílias?

Justamente, a quebra de valores pós-modernidade, ela traz muitas coisas, e dentre elas, se desconsidera muitos valores cristãos e muitos outros valores para a sociedade. E esse desprezar de determinados valores éticos, e tantos e tantos outros, é que começamos a contemplar o mundo de certa forma desmoronando, quando da família que vai desmoronando, vai repercutindo nos filhos. Quantas vezes escutei e sei de jovens que passaram dificuldades, foram abordados por traficantes, para que vendessem drogas, inclusive fora do  país, há poucos dias teve um caso aqui em Natal, eles sairiam daquela situação e disseram que não. Quando retornaram, disseram, eu só me lembrava da minha mãe e do meu pai, o que eu aprendi na minha casa. Quer dizer, se você tem uma estrutura familiar, com certeza já dificulta essa manipulação ideológica, essa abordagem.

Então, a família ainda é a principal base da sociedade, apesar dessa quebra de valores?

Sim, porque é a primeira escola da fé, é a primeira escola da educação, quantas coisas você tem hoje porque trouxe do seu pai e da sua mãe.

Como o senhor avalia o episódio dessa queima agora do Alcorão, da questão do fanatismo religioso?

Todo e qualquer fanatismo, ele só leva à morte. Acho que deve existir aí, tanto barrar o fanatismo, como também deve existir o respeito. Não se respeita mais as religiões, e do jeito que se fez esse confronto com o Alcorão, se faz com qualquer outra religião. Agora, nós cristãos, quantas vezes, temos outra mentalidade, os nossos símbolos são agredidos, e a gente tem uma outra política, e ai entram os valores de respeitar, quantas vezes você foi educado por seu pai e por sua mãe para respeitar a pessoa mais velha.

O Brasil é o maior país católico do mundo. Mas o que o senhor diz do fato do catolicismo vir perdendo fiéis para outras religiões?

Se a gente pegar os dados, que eu não tenho aqui para lhe mostrar, você vai perceber o seguinte: pelo contrário, tem aumentado o número de católicos, agora claro que a população aumenta, tem aumentado o número de evangélicos, por exemplo, mas também tem aumentado o número de católicos.

Qual a sua avaliação dessa nova lei de tornar mais célere e fácil a instituição do divórcio?

A Igreja sempre foi contra o divórcio e vai ser, essa facilidade, ela só vem a trazer muitas vezes, não posso radicalizar, a irresponsabilidade das relações, do mesmo jeito que é fácil casar, é fácil também me separar, eu não penso nas conseqüências de um filho que vai nascer, fruto dessa desunião, eu não penso na minha irresponsabilidade. Com muita facilidade eu descarto um pedaço de papel, com muita facilidade eu descarto as pessoas, com muita facilidade eu descarto as relações.

Aí vem a questão da ruptura da família, que pode trazer problemas mais sérios?

Exatamente, é o que nós estamos vendo hoje aí.

Como o senhor analisa a questão da união de pessoas do mesmo sexo?

A Igreja mostra o seguinte: o homem foi criado para a mulher, está lá na Bíblia, e a mulher criada para o homem. Então não existe a união de pessoas do mesmo sexo, o sacramento do matrimônio entre o homem e a mulher é uma questão natural e divina. A união homossexual não é da lei natural.

E qual o seu posicionamento quanto à existência da pedofilia dentro da Igreja Católica?

A posição minha, é a posição da Igreja. O problema da pedofilia existe, existe, como existe em todas as instituições. A Igreja agora ficou alvo. Nós sabemos que, por dados estatísticos, o maior índice de pedofilia se dá dentro da própria família, a abordagem feita por pais, padrastos, por irmãos mais velhos. Então, o maior índice de pedofilia está na família, no entanto a Igreja está em voga, nós sabemos que existe por trás de tudo disso aí, uma certa perseguição à Igreja, não estou dizendo que não exista, os fatos existem, mas não tanto como está sendo feito. Agora o fato de existir a pedofilia, a posição da Igreja é contra, ele deve ser punido pela justiça, pela lei comum, ela age com misericórdia como o pai qualquer pai agiria com o filho, mas ele deve ser punido.

Desnudar esse problema dentro da Igreja, admitindo que existe isso, não foi importante para o seu crescimento?

Claro, a Igreja como instituição divina e conduzida por mãos humanas, ela sempre vai ter seus limites. Jesus tinha 12, dos 12 um negou, o outro traiu, outro pediu um lugar, quando chegar lá em cima, arranje um lugar à direita, outro à esquerda. Quantos tropeçaram, mas nem por isso aquele outros deixaram de pregar o Evangelho.

Aí todos foram perdoados?

Perdoados, mas é o tipo da coisa: Jesus convida a mudar de vida. Nós temos de ter o cuidado, de dizer assim, perdoado não significa legitimar o problema. Quando Jesus perdoa e desfaz, não tornes a pecar, essa é a linha da Igreja, o perdão que a Igreja fala não significa legitimar o problema, significa convidar à conversão.

Qual a sua posição sobre o ensino religioso dentro das escolas, não como matéria da grade regular e pedagógica?

Você não acha que o ensino religioso vai trazer valores, vai trazer uma chamada de respeito a tantas coisas, isso não vem só vem a colaborar com a instituição sociedade. A proposta do ensino religioso, não é uma proposta de credo, é uma proposta de ensino religioso. Não significa dar um norte de credo, tem de ensinar os valores religiosos.

Como vai ser o trabalho que o senhor pretende imprimir na nova Paróquia de Salgueiro, que o senhor vai assumir dia 12 de outubro, de ajuda aos pobres, por exemplo?

A Igreja sempre teve essa tradição e sempre terá. E em qualquer parte hoje, na sociedade em que vivemos, nós encontraremos espaço para trabalhar com os pobres, é somente querer. Isso não deve ser a preocupação, aonde vou encontrar um lugar para trabalhar com os pobres. Se olhar, a meta é grande e está cheia, tanto o trabalho assistencialista, como o trabalho que vai despertar, fazer com que as pessoas resgatem à dignidade humana, quer dizer que não é só trabalho assistencialista se faz necessário,  mas se faz necessário acima de tudo tirar essas pessoas, para que elas encontrem  o caminho da dignidade humana.