"Trabalhador da cultura precisa ser respeitado", diz Allan Deberton

Publicação: 2020-10-17 00:00:00
Tádzio França
Repórter

Uma bailarina aposentada de uma cidade do interior nordestino  quer mover seu pequeno mundo com a dança. A história dessa heroína desconhecida é contada em “Pacarrete”, destaque na programação deste sábado na segunda noite do projeto Cine Drive-In Natal, na Arena das Dunas. O filme do diretor Allan Deberton foi o mais premiado do Festival de Gramado do ano passado, recebendo oito Kikitos, incluindo melhor filme e melhor atriz para Marcélia Cartaxo, que interpreta a personagem principal. 

Créditos: Divulgação

Pacarrete, a professora de dança, existiu e foi conterrânea do diretor, na cidade de Russas, interior do Ceará. O filme foi filmado no local, com todas as cores, falas e  lembranças de lá. O longa vai estrear no circuito comercial em 26 de novembro, portanto, a exibição em Natal tem clima de pré-estreia. Allan Deberton conversou com a TRIBUNA DO NORTE sobre o filme, a musa inspiradora, e o cinema nacional. Acompanhe:    

- “Pacarrete” é baseado numa história real. O quanto você mesclou de realidade e ficção na trama?
Eu percebi que não sabia nada sobre a Pacarrete da vida real, pois eu a tinha como uma pessoa confusa e desequilibrada e fui percebendo que o inverso poderia fazer mais sentido. Pesquisei, entrevistei pessoas, conversei bastante e, pouco a pouco, fui vendo quão incrível ela era e como sua história é comovente. Foi um projeto movido a uma paixão que só crescia, em função de sua trajetória, inclusive, de artista. Como artista que fui me reconhecendo aos poucos, percebi que precisava falar sobre ela para falar sobre um conjunto. A história dela, se nos espelharmos, tem muito a ver com pessoas que conhecemos, ou, talvez, com nós mesmos. 

- O longa foi filmado na cidade onde você nasceu e onde Pacarrete viveu, um cenário real. Qual o peso disso pra você e pro filme?
O esforço é maior, o preciosismo vem pois você quer que as coisas façam sentido, inclusive, com este universo particular que é o nosso. Como sou conterrâneo de Pacarrete, utilizei minha experiência de ter nascido e vivido em Russas como veículo de memória e afeto na contação desta história. O filme tem sons e cores de cidade do interior, de uma vida que é bem real e íntima do nosso Nordeste. O desafio é não deixar escapar algo importante. Eu ficava querendo aproveitar tudo que aparecia na frente da câmera, inclusive as coisas não planejadas. Tem uma cena que é uma verdadeira beleza que veio de forma quase sobrenatural.  

- Pacarrete vive numa cidade onde as pessoas ignoram a arte que ela tem a oferecer. É um comentário sobre o estado das coisas nos dias de hoje?
Isso mesmo. É um assunto bastante atual e, mais do que nunca, precisamos discutir a respeito. Não desejo que ninguém passe pelo que Pacarrete passou em vida. O trabalhador da cultura precisa ser respeitado e valorizado. É como um médico que quer se manter médico ou um padeiro que tem orgulho de seus pães. Pacarrete, como bailarina talentosa que foi, só desejava ter palco para sua dança. 

- Como foi trabalhar com Marcélia Cartaxo? O que ela precisou captar de Pacarrete, a professora sonhadora de dança?
Marcélia é incrível, temos uma relação de amor e acreditamos no mesmo tipo de cinema. Ela logo percebeu como era desafiador viver esta personagem. Precisou interpretar uma senhora quase vinte anos mais velha, que dança, canta e toca piano. Marcélia nunca fez isso antes e se dedicou bastante nesta composição da personagem. Teve dor, muito cansaço, mas tenho certeza que ficou orgulhosa com o resultado. Foi uma das atrizes mais premiadas do ano e acho bastante merecedor. Ela é exemplo de resistência. 

-  Como é ter o seu primeiro longa-metragem já como o mais premiado do festival de Gramado do ano passado? O que encanta as pessoas em “Pacarrete”?
Fico pensando que a boa acolhida em Gramado, com tantos prêmios, foi o resultado de um esforço coletivo para fazer o melhor filme possível e, principalmente, fazer jus a esta artista, uma vez que é inspirado numa história real. Todo este cuidado está impresso em tela e passa muita verdade. E, quando assistem o filme, é fácil de se identificar com a cidade, com a história, com os personagens, pois é uma realidade bem universal. O filme é tanto engraçado, como faz a gente querer dançar  e se mover, fazer coisas... Também ele emociona e tira lágrimas. 

- O filme também deve concorrer a uma indicação ao Oscar, junto a outros pesos pesados como “Bacurau”. Quais tuas expectativas?
"Pacarrete" tenta uma vaga para representar o Brasil no Oscar, na categoria Filme Internacional. "Bacarau" não concorre mais nesta categoria mas poderá concorrer a outros prêmios. Adoro "Bacurau", torcerei bastante para que consiga ser indicado em diversos prêmios. Independente de qualquer coisa, o valor de nosso cinema é incontestável. Gosto da idéia do filme brasileiro circulando mais e sendo visto, elogiado, assistido. Acreditado e, também, incentivado. Precisamos de um Governo que continue uma política de construção e incentivo, pois se trata de uma indústria que emprega milhares, que internacionaliza nossas histórias e nossa gente. Cinema é patrimônio cultural. Viva a Cinemateca!

 - Acredita que o sucesso de filmes como o seu e “Bacurau” pode contribuir para que a produção cinematográfica nordestina derrube barreiras no circuito nacional?
As pessoas consomem obras brasileiras. "Minha mãe  é uma peça", "Cine Rolliúde", "Bacurau" são todos exemplos de sucesso.  A dificuldade é a pouca disponibilidade de salas, o cinema que não conseguiu ainda chegar ou se manter Brasil adentro. Há pouco espaço para tantos filmes e é difícil de competir.  Ao mesmo tempo, o streaming cresce e surge como oportunidade, inclusive como primeira janela. As pessoas consomem cada vez mais no celular. E também percebo que as pessoas estão mais interessadas em pagar para baixar um filme. Estamos vivendo novos tempos e penso que o que precisa ser feito agora é a retomada urgente do incentivo à produção de mais obras. O público é vasto e diverso e essa diversidade, o cinema que vem do Norte ao Sul do país é bastante rico e fala de diversos brasis. É o maior valor de nossa produção.