Tradições reinventadas

Publicação: 2020-07-02 00:00:00
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Tádzio França
Repórter      

Museus virtuais, festas juninas caseiras com lives de forró, missas on-line: a pandemia obrigou antigas tradições a se conectarem para continuar atuando e existindo num país em isolamento. O momento de reinvenções e ações emergenciais inspirou a Associação Brasileira de Antropologia  -ABA - a promover o webinar (seminário on-line) “Patrimônios, Museus e Reexistências – As Festas Populares”, nesta quinta-feira, das 15 às 17h, em seu canal do Youtube. O webinar integra o ciclo de eventos organizado pelo Comitê de Patrimônios e Museus da ABA.

Créditos: Canindé SoaresSeminário debate cancelamento de festas populares festa de santanaSeminário debate cancelamento de festas populares festa de santana


A professora Julie Cavignac, do Departamento de Antropologia da UFRN, fará a mediação do seminário virtual, cujo objetivo é promover o diálogo entre pesquisadores e as pessoas que atuam diretamente nos eventos culturais. O foco dessa edição do encontro são as festas populares, que foram diretamente atingidas pela epidemia ao serem canceladas para evitar aglomerações e mais contágio. “É uma forma de dar voz às pessoas que estão mais sofrendo com as conseqüências dessa pandemia”, enfatiza.

O seminário on-line terá participação de representantes das Universidades do Oeste do Pará (UFOPA), da Federal Fluminense (UFF), da Federal de Pernambuco (UFPE) e participantes de festejos populares como Guilla Xukuru, da etnia Xukuru Ororubá, de Pernambuco; Cláudia Regina dos Santos, do Bumba Meu Boi da Liberdade, do Maranhão; e Diego Vale, organizador da Festa de Sant’Ana de Caicó, no Rio Grande do Norte, que é patrimônio cultural e imaterial do estado.

Antropólogos e agentes culturais vão discutir as estratégias encontradas para realização dos eventos populares cancelados ou “alterados” pela pandemia, como os festejos juninos, festas de padroeiros, e outras celebrações tradicionais. Os idealizadores perceberam que muitos deles se reinventam e se tornam importantes centros de articulação local, desenvolvendo diversas práticas de cooperação e ações de solidariedade.

Padroeira on-line
“Saber qual é o papel social desses patrimônios é muito importante porque estamos vendo muitas estratégias criativas, que discutiremos na ocasião. Teremos um debate muito rico”, afirma a antropóloga. Julie Cavignac conta que sugeriu o debate sobre a Festa de Sant’Ana no seminário por entender a importância do evento para o estado. Ela coordenou o grupo de mapeamento das referencias culturais do seridó, em 2007 e 2008, que deu origem ao registro da festa como patrimônio imaterial do RN. A celebração é realizada há 272 anos.

Créditos: Arquivo TNA professora Julie Cavignac fará a mediação do debate online, hojeA professora Julie Cavignac fará a mediação do debate online, hoje


A professora explica a festa como uma ocasião de reconhecimento e congregação da cultura e da fé do Seridó que se liga a diversas questões. “São várias comunidades que se movem e se encontram no evento em torno da religiosidade, mas que também envolve cultura, música, bordados, e principalmente a gastronomia”, diz. A festa para ela tem uma dimensão múltipla que vai ser difícil de ser percebida somente nos eventos virtuais.   

Impossibilitada de ser realizada em 2020, a Festa de Sant’Ana em Caicó será celebrada de 22 de julho a 02 de agosto através de missas on-line e atos simbólicos. A programação acontecerá com as portas da catedral fechadas, porém com transmissões pelas redes sociais. Para tornar a celebração menos impessoal e envolver a comunidade, a paróquia de Caicó lançou a campanha “Uma catedral em cada casa”, que convoca os fiéis a hasteaream uma réplica do estandarte da santa na porta de casa. Será um ato simbólico de que a cidade está em festa, mesmo que sem a presença nas ruas. Em Currais Novas, que celebra Sant’Ana de 16 a 26 de julho, também haverá missas remotas.

“A gente está muito atento e preocupado com o futuro desses patrimônios e museus, sobretudo na conjuntura política atual, que é particularmente arrasadora com os órgãos de cultura”, afirma Julie. Para ela, apesar de as ações virtuais serem interessantes, elas nunca vão substituir os eventos presenciais, sobretudo as festas. “As festas são eventos sociais fundamentais no sentido de reatar tradições, de expressar  sentimentos de pertencer a uma identidade ou cultura”, diz.

O cenário de eventos culturais também possibilitou a visibilidade de minorias que tinha poucas chances de se expressar, segundo a professora e antropóloga. O seminário on-line trará à nota um debate ainda pouco visível, que é o das festividades juninas em contexto indígena, a cargo do estudante Guilla Xukuru, que é da etnia Xukuru Ororubá. “É um dos momentos fortes também da afirmação política daquele grupo, e de renovação identitária”, ressalta.

“Grupos tradicionais como indígenas, quilombolas, pescadores, caiçaras, etc., viram nos últimos dez anos uma forma de se comunicar e de viabilizar sua cultura. A gente vê aqui no RN que há uma economia da cultura muito forte, mas as últimas ações de desmantelamento da área podem prejudicar muito no futuro”, analisa Julie Cavignac. Ela acredita que nesse tipo de debate as pessoas reconhecem que não estão sós: fazem parte de um grupo social com diferenças e diversidade, de diferentes formas de ver o mundo e perceber a cultura.   

Serviço:
Webinar “Patrimônios, Museus e Reexistências – As Festas Populares”. 
Hoje (2), das 15h às 17h, no canal do Youtube