Tradição

Publicação: 2020-12-02 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Constatemos, afinal a sinceridade não nos diminui. Pelo contrário, nos conscientiza: nos falta o bom patamar da tradição. Se quinhentos anos de história não nos bastaram para erguê-lo solidamente, então precisamos de mais um pouco. Um dia tomaremos ciência dessa verdade diante da qual a sabedoria do mundo não duvida - a pluralidade das ideias. E então saberemos que a política, mesmo com suas distorções, é a única saída. E que fora dela não há salvação.

Nós herdamos um modelo de convivência mitigado pelo mando vertical. Do donatário da Capitania, amigo do rei que vivia na corte, mas senhor da colônia; ao imperador que morava aqui, mas dono do império. Não mudamos muito com a Proclamação da República. Menos pelo fato do proclamador ser um marechal, e muito mais pela elite que logo se formou em torno do poder público - oportunista e sócia do dinheiro que enchia as burras com impostos escorchantes.

Foi no ritmo dessa toada, sabida e interesseira, um pouco mais ou um pouco menos, que chegamos até aqui e montamos o que está em cartaz: uma falsa alternância de esquerda e direita quando ambas, se não se parecem na desonestidade, se assemelham no que há de pior que é o poder pelo poder. E quando um quadro assim se ergue diante do eleitor quem pode impor uma reflexão é a urna. E foi a urna que falou mais alto nas eleições municipais deste pestilento 2020.

Quem for além do apenas superficial verá que o bolsonarismo foi punido, Perdeu quase tudo, todas as grandes capitais. Como o petismo. Embora não tenham desaparecido, a não ser do olho dos sectários. E, se venceu o Centrão, então ninguém venceu. Mas, a tradição política ocupou os maiores centros e o bolsonarismo, como plataforma de lançamento do militarismo político-partidário, fracassou. Militar é carreira de estado. Militar pedindo voto é carreirismo.

Não há outro destino para um país continental, nascido do amálgama de várias culturas, a não ser a pluralidade. Tem nos centros urbanos maiores e economicamente mais ricos, a mais intensa diversificação formada pela contribuição de várias etnias. Querer vesti-lo com fardas para uniformizar suas ideias numa ordem unida, é só demonstrar uma absoluta e jejuna falta de solidez intelectual que só os néscios e fronteiriços imaginam possível numa sociedade plural. 

É natural que o gráfico mostre o balanço das siglas, votos e espaços. Por isso revelou uma convergência: o autoritarismo foi o grande derrotado. O voto provou que a nova política é uma fraude. O governo nunca gastou tanto com uma peste e nunca foi tão vítima do seu próprio vírus pela falta de um líder. Um chefe, mesmo cercado dos generais e seus obuses, não é um líder. É um chefe. E um chefe, como as rosas de Malherbe, vive apenas o tempo de uma manhã. 

ORDEM - A governadora Fatima Bezerra quer inaugurar, se possível antes da sucessão, em 2022, o saneamento de Natal. Ela sabe que será um pedal maior do que pôr os salários em dia.

CAIXA - Dizia ontem, no café da manhã, fonte do País de Mossoró: ‘Nem todas as informações filtradas pela Prefeitura serão completas. Depois da posse Alysson descobrirá algumas coisas’.   

SAÍDA - A fonte defende que o prefeito submeta a gestão passada a uma auditoria de natureza independente, revele o relatório e encerre o remelexo no passado. ‘Do contrário não governa’.

VELÓRIO - Foi de velório o final da jornada dos partidos-penduricalhos nascidos e nutridos nas tetas do fenômeno Bolsonaro. Em política, todo fenômeno é sempre pessoal e intransferível. 

ALIÁS - São partidos de ocasião nas mãos de sabidos. Como, no caso recente, o Partido Social Cristão (PSC), nas mãos de Wilson Witzel. Social? Cristão? Nem uma coisa nem outra. Sabido.  

MEDO - O que é aquilo que estão fazendo ao lado da igreja dos veranistas, na Redinha? Fere a harmonia na paisagem diante do rio que banha a cidade. Seria, por acaso, estripulia do capeta? 

CABRAL - Já nas livrarias do Brasil a edição da poesia completa de João Cabral de Melo Neto incluindo 52 poemas inéditos, os últimos. Organização e introdução de Antônio Carlos Secchin. 

POESIA - Olha a pegada do poeta Armando Freitas Filho no poema ‘Breu/Branco’ do seu novo livro - “Arremate”, da Companhia das Letras, nas livrarias ainda este mês: “A dor não dorme”.

UMA... - Sentindo leves sintomas que poderiam indicar contaminação por Covid, sai na direção do Palácio dos Esportes. Fui barrado. Exigiram comprovação de residência em Natal. Minha cidadania não bastou. Eu só valeria anexado a recibo de energia, água, taxa de lixo. E fracassei.  

VIA... -  Fui a um laboratório particular. Lá pediram o cartão da Unimed. Apresentei. Em dia. Não valeu por falta de autorização da própria Unimed. Velho repórter, já com cinquenta anos no meio do mundo, perguntei, macio, que tipo de documentação para fazer um teste particular.

CRUCIS - O rapaz, educado, registre-se, olhou pra mim do outro lado do vidro, e respondeu, como lhe foi dito a quem, por caso, perguntar: ‘Basta o senhor pagar R$ 400 reais’. Paguei. Fui atendido sem demora. O cartão de crédito derrotou o cidadão e o sócio da Unimed. Fazer o quê? 









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