Natal
Traições, rixas políticas e localização de pessoas: o que investigam detetives do RN
Publicado: 00:00:00 - 23/01/2022 Atualizado: 16:35:35 - 23/01/2022
Ícaro Carvalho
Repórter

Quem procura acha. Essa frase sempre dita quando alguém suspeita ou desconfia de algo é praticamente um mantra de uma das profissões mais antigas da história da humanidade. Os detetives particulares, contratados por pessoas que querem descobrir determinadas questões de pessoas próximas, são sujeitos silenciosos, desconhecidos e cheios de disfarces. Em Natal, esses profissionais atuam em casos mais diversos, com preços variados e histórias, em algumas situações, com desfechos surpreendentes. Casos de infidelidade, disputas entre políticos, vigília de filhos e localização de pessoas são os mais comuns na capital potiguar.

Alex Régis
Suspeitas de infidelidade chegam a atingir 90% do total dos serviços contratados de detetives particulares. Agências chegam a ter até nove profissionais

Suspeitas de infidelidade chegam a atingir 90% do total dos serviços contratados de detetives particulares. Agências chegam a ter até nove profissionais


Diferentemente do personagem de Arthur Conan Doyle, Sherlock Holmes, que investigava crimes policiais em sua maioria, os detetives particulares de Natal focam suas atividades em questões estritamente pessoais. As suspeitas de infidelidade chegam a atingir 90% dos trabalhos dos detetives, em alguns casos.

Além disso, há várias ramificações na investigação particular. São casos de localização de pessoas, análise de funcionários de uma determinada empresa, vigílias de filhos ou familiares e investigações solicitadas por políticos, em especial em período eleitoral.

“Eles procuram saber da outra oposição se estão comprando voto e querem na verdade derrubar o outro político. O que a gente tenta fazer é tentar pegar alguma compra, alguma entrega de material”, analisa o diretor da agência Detetive Potiguar, Alexsanderson Almeida, 43 anos, há 25 na investigação particular.

“Temos um trabalho em sistema que é levantamento de dados, de provas para advogados, levantamento de bens, patrimônios. Fazemos investigação defensiva, que seria fazer o dossiê de cada de cada funcionário que estava numa empresa. A rotina é bem agitada tanto em sistema quanto em campo”, acrescenta a detetive Alessandra Lima, 26, que atua há pouco mais de seis anos com investigação particular e é especializada mais na área de dados e informações.

Por sua vez, um detetive não atua sozinho: em alguns casos, agências possuem equipes com 8 ou 9 profissionais, em virtude da alta demanda e da necessidade de se manter os olhos abertos o tempo inteiro para informar o cliente sobre a pessoa vigiada.


Sobre este ponto, os clientes são informados sobre seus suspeitos em tempo real. Há casos de contratantes que pedem para enviar um relatório final. “Até porque você fica em casa ansioso,  ocioso. Fica naquela expectativa”, lembra Alexsanderson Almeida.

Técnicas

Atuando na moita e nas sombras, os detetives possuem uma série de técnicas e procedimentos para não perderem seus suspeitos de vista tampouco serem descobertos. Como entrar num condomínio de luxo e fechado para investigar um caso de infidelidade? Como filmar ou ter um áudio comprovado desse adultério?

“Se o condomínio não for esses de alto luxo e muito caro, para entrarmos e vermos o que se passa lá dentro e documentar isso com filmagem, uma forma é alugar um apartamento num dos blocos. Esse investimento vai ser do cliente”, explica o detetive Osmar Perazzo Maia, 68, fundador da Agência de Investigações Potiguar e atuante na área desde a década de 70.

Entre outras técnicas, há também a propina e a de se passar por entregadores ou prestadores de serviços. Alguns detetives, por sua vez, não entram em condomínios e se limitam a filmar ou fotografar a rotina dos suspeitos.

Muitos detetives utilizam escutas ambientais e telefônicas, câmeras escondidas em botões de camisas, canetas, óculos, entre outros itens. Há ainda os disfarces, que vão desde perucas, vestimentas diferentes, chapéus. No caso das escutas, os clientes combinam com os detetives as horas “oportunas” para se colocar os aparelhos nos locais.

Histórias

Os detetives de Natal lidam com casos dos mais diversos segmentos. Em alguns deles, as confirmações das suspeitas dos clientes têm uma variação de 80 a 90%. Em alguns casos, os desfechos são os mais surpreendentes possíveis. Mantendo o sigilo absoluto, mantra dos detetives, a TN separou algumas das histórias mais curiosas contadas pelos investigadores potiguares ao jornal.

A traição da Vovó

Uma senhora já na terceira idade, mas com disposição para namorar e  conhecer novas pessoas. Dinheiro não era empecilho para ela, que vivia bem com recursos de pensões do ex-marido, falecido. Com dívidas e o dinheiro sumindo rapidamente, a família desconfiou e contratou uma equipe de investigação.

Após semanas de acompanhamento  da rotina e horários, escutas e filmagens, os detetives chegaram à conclusão: a avó estava tendo um caso com um neto adolescente, que em troca, recebia recursos que utilizava para compra de drogas e itens pessoais.

Um câncer de 14 anos

Um casal se conhece pela internet e começa a desenvolver uma relação amorosa, mesmo sem encontros presenciais. O motivo? Um tratamento de um câncer por parte da moça. A história parece ser simples, mas não é. O tratamento do câncer e o relacionamento duraram 14 anos sem que a vítima conhecesse a “namorada”.

A relação era mantida com ligações de áudio, falsas histórias com áudios criados com aplicativos, fingindo ser o pai da moça, por exemplo, e envio de dinheiro para o pai e o filho. A criança, inclusive, também foi vítima, uma vez que chegou a “namorar” com um dos personagens criados pela mulher. Quando se pedia para ver uma foto, a mulher negava e dizia que não queria ser vista em virtude do tratamento do câncer.

Buscando fazer uma surpresa para a amada, o sujeito contratou os serviços de detetive para localizar essa pessoa. Foram buscas por dados, informações, interceptações. Até que num determinado dia, o cliente foi até a casa dela, sem ser visto, e ligou para a mulher, que atendeu: a moça, casada e morando em outra cidade e claro, sem aparentar nenhum tipo de câncer ou enfermidade.

“Ela mandava dinheiro pra ele. Por isso que ele não conseguia desconfiar dela. Porque ele tinha uma despesa mensal alta com o filho”, diz o detetive. “E ele ficou preso nisso, 14 anos da vida dele. Quando ele descobriu, ficou com problemas psicológicos”, completou.

O gringo

Um gringo vendedor de joias, morador do RN e com viagens corriqueiras em sua rotina se viu desconfiado da traição de sua esposa. Encucado com a suspeita, contratou um detetive para descobrir a verdade. O combinado com os agentes foi de colocar equipamentos escondidos no apartamento, onde a esposa receberia um professor de educação física.

Dito e feito. O homem simulou uma viagem à Europa, deixando a esposa sozinha. Ela convidou o professor de educação física para sua casa. O marido, junto com os detetives, monitoravam a situação por trás de um cemitério. Ao ver e escutar as cenas quentes, o gringo não aguentou e desmaiou.

O caso da boate LGBT

Um detetive é contratado por um figurão da alta sociedade de Natal para investigar uma suposta traição de sua amada. A pulga atrás da orelha desse sujeito é de que a sua esposa estivesse o traindo com outras mulheres, em baladas LGBTQI+ e outros espaços.

Após pesquisas de campo, os detetives descobriram o dia e hora da famigerada balada e claro, entraram nela. O detetive foi com seu sócio e no meio da festa, “entraram no clima”. “Fomos pra noite. O empresário tinha contratado a gente e era pra seguir a esposa. Se ela estava se beijando com outra moça, se acariciando. A gente começou a se beijar também”, lembra. Papo vai, papo vem, ficaram amigos da suspeita, chegaram a ir embora da festa juntos para uma praia e fizeram fotos e vídeos comprovando a traição.

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