Trançando palavras: documentário conta trajetória da rapper Preta Soul

Publicação: 2020-08-12 00:00:00
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Tádzio França
Repórter

Jéssica Mayara, a rapper Pretta Soul, trança cabelos e palavras com a mesma desenvoltura. Na sua vida, são duas artes que se complementam: as tranças afro como sustento e identidade, e o rap como expressão e mensagem. Os fios dessa trajetória foram entrelaçados no documentário “Rap de Pretta, Rap de Mulher – A Trajetória de Jéssica Mayara no Hip Hop”, que conta o início da história de uma das jovens artistas mais articuladas da cena musical natalense. O filme foi realizado a partir do edital "Tô em Casa, Tô na Rede'', e já está disponível no Youtube.

Créditos: DivulgaçãoJéssica Mayara - Pretta Soul - conta que desejou mostrar no filme como o hip hop pode mudar a vida de alguém. Documentário tem a produção de Marcelo VeniJéssica Mayara - Pretta Soul - conta que desejou mostrar no filme como o hip hop pode mudar a vida de alguém. Documentário tem a produção de Marcelo Veni


O documentário foi gravado no final de junho, respeitando as limitações impostas pela pandemia, entre os bairros das Rocas e da Cidade Alta, onde Jéssica nasceu e trabalha, respectivamente. “No meio de tantas lives a gente escolheu fazer um filme. Escolhemos a magia do audiovisual para contar uma trajetória ilustrada de lembranças que valorizam cada etapa vivida e cada desafio superado por uma jovem artista do rap”, disse o produtor Marcelo Veni que, junto com Pretta, escreveu o roteiro e o argumento do filme.

Jéssica conta que desejou mostrar no filme como o hip hop pode mudar a vida de alguém. “É o movimento social que mais resgata vidas dentro das favelas e comunidades. Uma cena ativista, antiracista e antifascista que forma DJs, rappers, grafiteiros e dançarinos”, enfatiza. Ela ressalta que o apoio do pai e da mãe foi essencial nessa caminhada. “Os pais precisam ver que o apoio da família na vida de uma criança ou adolescente faz toda diferença. Eu respiro hip hop”.

“Rap de Pretta, Rap de Mulher” tem 25 minutos de duração, e oferece um resumo leve e ágil do despertar artístico de uma menina negra e periférica de Natal. Em 2020 Jéssica completa 30 anos, sendo que mais da metade destes foi dedicado às atividades que ela pratica hoje. Desde os 14 anos ela trança cabelos. A curiosidade pela profissão capilar, por incrível que pareça, nasceu no rap. No filme, ela conta que ficava deslumbrada pelos penteados que via nos clipes de artistas como Snoop Dogg e Sean Paul. Queria aprender a fazer igual. As amigas do bairro foram as primeiras “cobaias”.

Do forró ao rap
Jéssica é nascida e criada nas Rocas. Apesar de ser um dos bairros mais tradicionais de Natal, ainda sofre com estigmas preconceituosos de pobreza e violência. Mas a letra de Jéssica é outra. “Eu tive a sorte de nascer nas Rocas. Um lugar rico de cultura, com as danças do Araruna, é o berço do samba natalense, e tem festas de São João históricas”, conta. A dança e a música foram seus grandes condutores ao hip hop. Uma porta de entrada.

A futura rapper era dançarina de quadrilha junina quando descobriu o ‘break dancing’. Explica-se: enquanto o forró não começava, alguns garotos do grupo usavam os passos do funk e do soul para se aquecer.  Logo, ela também caiu nessa dança e virou um b-girl. ‘’Aos 11 anos eu estava conhecendo o break, um dos elementos do hip-hop que representa a dança. Eu apresentava passos, desenvoltura corporal e atitudes a cada apresentação. Os passos na dança já me ensinavam a ter firmeza na minha caminhada”, conta.

O movimento ela já tinha. O dom da palavra também já estava lá, mas só foi despertado a partir de um convite feito pelo rapper Preto Bronx (ex-Agregados FDR), que convocou Jéssica para participar do projeto Dandaras, o primeiro grupo feminino de rap em Natal. No fim da adolescência, Jéssica engravidou. “Minha arte fala de conquistas, de perseverança. Ser mãe aos 17 anos não me fez parar no meio caminho, minha família me apoiou, e a mulher e o rap dentro de mim não parou de crescer”, afirmou.

A rapper emplacou outro projeto com garotas, o Caboclas, mas não demorou a mostrar a que veio em sua carreira solo. Dona de um ‘flow’ (a cadência verbal dos rappers) exemplar, e de letras afiadas sobre as vivências de ser mulher, mãe, negra e periférica num cotidiano racista e machista, a MC das Rocas foi ganhando respeito e prestígio. Após 15 anos de estrada, em 2019, recebeu o Prêmio Hangar na categoria “Linguagens Urbanas”.

O documentário mostra o apoio do pai e da mãe, e depoimentos como Marília Negra Flor, da Nação Zambêracatu, e Ricardo Nelson, do espaço cultural Bardallos. Aliás, a rapper ressalta que o seu momento favorito do filme é justamente este. “A parte que mais gostei foi ver mainha e painho falando orgulhosamente da pessoa que me tornei, ou seja, eles apostaram no certo. Sou muito grata a eles dois”, diz.

Rap e machismo
A trajetória de Pretta Soul prova também como a presença masculina no rap ainda é dominante. Consequentemente, o machismo dá as caras com mais facilidade. Algo que ela encara com naturalidade, apesar de achar que hoje é menor que antes. “A cena já foi muito machista nas décadas de 80/90, mas como tudo se atualizou, os ensinamentos também se atualizam. Ou seja, ainda não acabou,mas agora eu posso dizer que é menor. A visão sobre a potencialidades das mulheres no hip hop já foi enxergada”, diz.

O hip hop, além de música, também é um movimento social, e as mulheres não poderiam ficar de fora dele, atesta a rapper. “É tipo aquele ditado: atura ou surta. Somos capazes de fazer bem mais do que eles imaginam, só o que nos falta é visibilidade assim como dão a eles.  O mundo não gira em torno deles, gira em torno de todos, então o hip hop pertence a todos sem exclusão de nenhum gênero”, conclui.   

Serviço:
Documentário “Rap de Pretta, Rap de Mulher – A Trajetória de Jéssica Mayara no Hip Hop”. 
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