Transporte: rotina do tempo perdido

Publicação: 2014-02-02 00:00:00
Igor Jácome
Repórter

Chuva, sol, paradas sem cobertura, muita espera e pouco espaço dentro dos ônibus. Todos os dias, os usuários do transporte coletivo de Natal enfrentam uma saga dantesca para chegar ao trabalho ou às escolas e universidades da cidade. Os problemas não são novos ou desconhecidos - já se tornaram cena comum à rotina urbana. Entretanto, as soluções apontadas pelas empresas operadoras do sistema e  estudadas pelo poder público não parecem tão próximas.

Durante esta semana,  TRIBUNA DO NORTE acompanhou o dia a dia dos passageiros natalenses e percorreu rotas importantes da cidade para registrar os já conhecidos problemas do transporte coletivo, principais gargalos e  quanto tempo o natalense gasta para chegar ao seu destino diariamente. Encontrou pessoas que passam o equivalente a dois dias por mês em uma condução para ir e voltar do trabalho.

A reportagem também comparou quanto tempo um cidadão leva para ir das zonas Zorte, Sul e Oeste para os bairros de maior movimento comercial, na zona Leste da capital, nos horários de pico. A viagem foi feita tanto de ônibus como de carro particular.   

Saga diária

“Eu já nem sei o que mata mais. Se o trânsito, a fome ou a guerra”. O rádio de pilha do cobrador Francisco Sales, que trabalha na linha Eucaliptos, de Nova Parnamirim, tocava a música ‘Milho aos Pombos’, de Geraldo Azevedo, enquanto o motorista Joelson Guedes vencia poucos metros da Avenida Salgado Filho a cada minuto. Às 7h20, o tráfego fora prejudicado por uma lagoa formada no meio da via. A lentidão começou ainda na altura da Arena das Dunas, na BR-101. “Há dez anos a gente fazia a viagem em 80 minutos. Hoje, a empresa dá 95, mas sempre acaba atrasando”, conta Sales.

Os passageiros, em pé, espremidos no corredor estreito do veículo ou na escada de entrada (local de permanência proibida) relatam  que a cena é “normal”. Mesmo com pessoas esperando aparecer algum espaço para passar a roleta, a empresária Raquel Santos, de 21, anos, diz que existem dias nos quais a linha 38 está mais cheia. “Tem um ponto que o motorista não consegue mais colocar gente dentro. Ai, a gente tem que esperar mais uma hora”,afirma.

Idosos

O desrespeito aos idosos é uma das principais reclamações. “Os velhinhos mostram a carteira e eles passam direto, fingem que não vêem”, diz a vendedora Jaciara de Oliveira, que usa a linha 14, na zona Norte.

Muitas paradas sem abrigo, em todas as regiões visitadas, não têm sequer placas de identificação. “A gente sabe porque passa todo dia. Quando tem árvore, a gente para um pouco afastado e as motos passam do lado direito, atropelando os passageiros”, explica o motorista Willian de Souza.