Trasila, tapioca e perfume

Publicação: 2019-09-07 00:00:00 | Comentários: 0
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Diógenes da Cunha Lima 
Escritor, advogado e presidente da ANL

Nenhum artista plástico brasileiro teve consagração semelhante à de Tarsila do Amaral (1886 – 1973), em sua recente exposição no Museu de Arte de São Paulo.

Era uma mulher tão charmosa e elegante que, além de ter dado o nome a muitos produtos, virou perfume de “O Boticário”, que aqui nos lembra Antônio Gentil.

O seu destino foi contrário ao que sugere o seu nome, que significa “pouco corajosa” ou “pouco audaciosa”. Fundou sua vida e obra em coragem e audácia.

Seu pai, um poderoso proprietário de muitas fazendas em São Paulo, conhecido como “O Milionário”, criou-a com mimos. Com a professora belga aprendeu a ler, escrever, falar francês, tocar piano e bordar. Depois, foi complementar os estudos em Barcelona.

Casou quatro vezes. O pai teve o prestígio de anular o primeiro casamento, apesar de o casal já ter uma filha.

Artista vocacionada, começou cedo a pintar. Impressionou-se com as exposições vanguardistas de Lasar Sagall (1913), Anita Malfatti (1917) e com o lançamento do livro de Juca Mulato (1917) e Menotti del Picchia. Em Paris, frequentou ateliês de ícones das artes. Fernand Leger sensibilizou-a com o colorido forte, massas uniformes e o cubismo. De volta ao Brasil, incorporou, à sua alma, cores e paisagens de Minas Gerais, onde logrou ampliação do sentimento da natureza tropical.

Participou do “grupo dos cinco” do modernismo com Mário de Andrade, Menotte del Picchia, Anita Malfatti e Oswaldo de Andrade por quem se apaixonou e veio a se casar.

O mestre Câmara Cascudo, amigo de Mário, contou-me ter conhecido Oswald com o qual não simpatizou, mas acrescentou todos os adjetivos de exaltação à beleza e ao fascínio de Tarsila.

Lendo a correspondência do nosso Mestre com Mário de Andrade, encontrei preciosidade, uma carta datada de 10 de abril de 1929, na qual, ele dá notícia de ter sido nomeado diretor do Atheneu e revela poeticamente cores ao paladar: “Descobrimos um novo quitute. Batizei-o ‘Tapioca Tarsila’. Tem um gosto que lembra o azul e o róseo infantis da senhora do poeta Pau Brasil. Tapioca de goma (caroço grosso), coco ralado e leite do mesmo, açúcar e canela, a forno meio quente e 10 minutos para corar em fogão fechado. Maravilhoso!”. Será que Freud explicaria o desejo?

Tarsila apropriou a arte brasileira em arte plástica no movimento antropofágico. O Abaporu teve a intenção de assombrar Oswald. O nome dado para expressar nova tendência de “deglutir” a influência estrangeira para reinventar a nossa cultura.

Por tudo isso, Tarsila é cada vez mais amada.



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