Natal
Tratamento do HUOL reduz Parkinson
Publicado: 00:00:00 - 28/11/2021 Atualizado: 15:49:18 - 27/11/2021
Felipe Salustino
Repórter

O uso de eletrodos para controlar tremores da doença de Parkinson tem sido adotado com sucesso no Hospital Universitário Onofre Lopes (Huol), em Natal. É a chamada Estimulação Cerebral Profunda, procedimento ao qual se submeteram mais de 20 pacientes desde que a técnica foi adotada no Huol, há cinco anos. Graças ao uso dela, os tremores cessaram em mais de 90% na maioria dos pacientes onde o procedimento foi empregado.

Em alguns pacientes, há registros de que os tremores cessaram completamente, mas tudo depende da forma como cada um reage ao tratamento, de acordo com o neurocirurgião Sérgio Dantas, que executa a técnica no Huol. Ele explica que a região do cérebro responsável pelo controle da coordenação dos movimentos em pacientes com Parkinson apresenta uma disfunção, que leva a sintomas como rigidez muscular e tremores. 

Adriano Abreu
Neurocirurgião Sérgio Dantras explica que técnica consiste em implantar eletrodos em áreas específicas do cérebro, relacionadas aos movimentos descoordenados

Neurocirurgião Sérgio Dantras explica que técnica consiste em implantar eletrodos em áreas específicas do cérebro, relacionadas aos movimentos descoordenados


A Estimulação Cerebral Profunda consiste, portanto, em implantar eletrodos (um ou dois, a depender do quadro clínico do paciente) na área específica do cérebro relacionada aos movimentos anormais. O procedimento é indicado para os casos em que não há respostas satisfatórias à principal linha de tratamento, feita à base de medicamentos combinados. 

De acordo com o especialista, a implantação dos eletrodos é feita por meio de incisões, a partir de  um método chamado  estereotaxia. “A estereotaxia é uma espécie de GPS, um aparelho que a gente fixa na cabeça do paciente, com  um software que faz os cálculos  para que o médico vá exatamente na estrutura  determinada dentro do cérebro [para a inserção dos eletrodos]. Com isso, os eletrodos são implantados de forma extremamente precisa”, explica Dantas.

A cirurgia é dividida em duas etapas. A primeira, é destinada ao implante do eletrodo. Para isso, são realizadas incisões na região frontal da cabeça. Essa é considerada a parte mais delicada do procedimento. A seguir, os eletrodos são posicionados e avaliados por meio de  radioscopia, raio-x e tomografia. Depois, na etapa seguinte, o médico faz uma nova incisão, desta vez, abaixo da clavícula, para que os eletrodos sejam conectados a um neuroestimulador (gerador). 

Após a conexão com o gerador, o eletrodo poderá estimular as áreas específicas do cérebro que controlam os movimentos. Cerca de dez dias depois da cirurgia, o gerador é programado. O médico define aí fatores como  frequência, largura de pulso, voltagem e quais polos vão funcionar. Tudo é controlado pelo profissional por meio de um tablet.

Segundo Dantas, para cada paciente, há uma programação própria. “Não existe receita pronta. Cada paciente requer um programa específico. O que nós analisamos é se esse programa  causa algum efeito colateral e se melhora o tremor do paciente”, afirma o especialista.

A cirurgia para a implantação do eletrodo dura em torno de seis a oito horas.  Logo após o fim do procedimento, o paciente é extubado, acordado e encaminhado para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Após 48 horas, no máximo, esse paciente é transferido para a enfermaria. A duração da internação depende do programa de estimulação. Entretanto, em termos cirúrgicos, o paciente já está apto a receber alta em dois ou três dias.

“Existe um período para que o médico possa programar e ligar o aparelho. Por isso, os ajustes inicias podem demorar em torno de cinco dias”, explica Sérgio Dantas. “Pacientes que vêm do interior costumam ficar internados por cerca de duas semanas, até que os ajustes iniciais estejam concluídos”, acrescenta.

Sérgio Dantas destaca que os efeitos do procedimento já podem ser observados mesmo antes de o aparelho ser ligado. “A melhora dos sintomas acontece logo após a cirurgia, apenas  pela presença mecânica dos eletrodos no cérebro. Quando eles são ligados,  o resultado é imediato e o paciente já começa a parar de tremer”, sublinha.

Estimulação pode reduzir uso de medicamentos
Valdemberg Queiroz, de 62 anos está entre os mais de 20 pacientes que receberam a  Estimulação Cerebral Profunda no Hospital Universitário Onfore Lopes, unidade vinculada à Rede Hospitalar Ebserh. Ele passou pela cirurgia de implantação no último dia 16. Na quinta-feira (25), o paciente foi ao Huol para os ajustes.

De acordo com o neurocirurgião Sérgio Dantas, a resposta de Valdemberg ao tratamento tem sido excelente, fator que pode ser comprovado com a alegria do paciente em falar sobre o novo momento.

“Estou muito feliz. Uma vida com Parkinson 'não existe'. Eu vivia em função de remédios”, relata Valdemberg, que convive com a doença há 16 anos.

A estimulação dos eletrodos permite, na grande maioria dos casos, a redução das doses de medicamento utilizadas para o tratamento da doença de Parkinson, segundo o neurocirurgião. Valdemberg, por exemplo, apresentava alguns movimentos de tremor no momento da avaliação, sinal de que é necessário diminuir os remédios.

   “O efeito benéfico da cirurgia faz o medicamento que ele toma agir em excesso e, por isso, é preciso reduzi-lo. Esse movimento, no caso, é um efeito colateral do remédio”, explica Sérgio Dantas.  “Valdemberg está nesta fase de ajustes, que implica em aumentar a estimulação aos poucos e diminuir os medicamentos até chegar numa fase de equilíbrio. Isso pode levar dias”, complementa Dantas.

Após os primeiros ajustes, o controle passa a ser feito em espaços mais longos de tempo. Inicialmente, a cada seis meses. Depois, uma vez por ano. O neurocirurgião chama atenção, contudo, para um ponto: “O objetivo da cirurgia não é curar. É melhorar a performance motora do paciente”, destaca. 

Dantas esclarece que há contraindicações para a cirurgia. “É preciso analisar as condições gerais do paciente, para saber se ele tem doenças associadas. O procedimento é contraindicado para quem tem  alterações psiquiátricas, como demência. Também é fundamental observar se o paciente tem condições cirúrgicas, se faz uso de anticoagulantes ou se possui problema cardíaco”, detalha o especialista.

Sérgio Dantas explica que, após a implantação, o paciente passa a conviver com os eletrodos por toda a vida. Mas é preciso trocar o gerador, conforme a necessidade. “A depender dos parâmetros de estimulação (todos acima de 100 Hertz) definidos para cada, paciente, essa troca é feita a cada dois anos ou cinco anos, no máximo. É uma cirurgia que dura aproximadamente meia hora”, pontua. 

Existe ainda o gerador recarregável, que dura mais e envolve uma maior tecnologia. O paciente fica com um recarregador em casa e com um aparelho onde ele pode observar a carga do gerador, que é restabelecida por aproximação, via telemetria (que permite a comunicação sem fio, a exemplo do que ocorre com as ondas de rádio ou sinais de satélite).

Como envolve o uso de tecnologias, nem todos os pacientes estão aptos a utilizar esse tipo de bateria, por causa das dificuldades de manuseio. 

A Estimulação Cerebral Profunda também é utilizada para o tratamento de doenças como a distonia, distúrbio do movimento onde o paciente tem contraturas mantidas no pescoço e nas mãos, especialmente. Outra indicação é para o tremor essencial, enfermidade de fator hereditário, facilmente confundida com a doença de Parkinson. 

Doença de Parkinson não tem cura
A doença de Parkinson possui natureza neurodegenerativa e afeta a região do cérebro onde estão as células responsáveis pela produção de dopamina, substância que controla os movimentos. A degeneração da área afetada provoca a morte das células e a dopamina deixa de ser produzida. A deficiência da substância provoca, portanto, um desarranjo na região que controla os movimentos. O resultado é o surgimento de sintomas como tremores, rigidez muscular e lentidão dos movimentos. 

“A doença, que não tem cura, deixa os pacientes altamente incapacitados. Eles não  podem se alimentar, fazer a higiene pessoal e, muitas vezes não conseguem se locomover”, descreve Sérgio Dantas, neurocirurgião do Huol. 

Contudo, a doença não causa apenas efeitos relacionados aos sinais motores, conforme alerta o neurocirurgião. “Os pacientes podem ter depressão, demência, alterações gatrointestinais – como constipação – problemas na bexiga (dificuldade para urinar), alterações na pele (seborreia, por exemplo), distúrbio do sono e dor crônica. É um doença sistêmica, capaz de afetar vários órgãos”.

Não existe prevenção para a doença que, segundo estimativas do Ministério da Saúde, afeta atualmente, 200 mil brasileiros. A linha principal de tratamento é constituída à base de uma combinação de medicamentos, que repõe a dopamina ou simula a ação dela. A doença acomete principalmente pessoas a partir dos 60 anos, mas pacientes mais jovens também podem ser afetados.

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