Natal
Tratamento precoce contra covid-19 não tem eficácia, dizem infectologistas da UFRN
Publicado: 15:01:00 - 29/03/2021 Atualizado: 15:54:51 - 29/03/2021
Felipe Salustino
Repórter


Infectologistas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) reuniram a imprensa no final da manhã desta segunda-feira (29) para apresentar dados científicos sobre o chamado “tratamento precoce” contra a covid-19. No encontro, os especialistas reforçaram que, cientificamente, não há eficácia comprovada para o uso de medicamentos como hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina. Esse último fármaco é distribuído pela Prefeitura do Natal nos centros de atendimento que recebem pacientes infectados pela doença na capital.

No encontro, o professor do Departamento de Infectologia (DNIF) da UFRN, o infectologista Ion Mascarenhas de Andrade, apresentou dados sobre os índices de letalidade da doença no Estado. Segundo os números apontados pelo professor, Natal tem uma taxa de letalidade de 2,97, a mais alta dentre os cenários apresentados. Para efeitos de comparação, o índice de letalidade no Brasil é de 2,42 e do RN é 2,1, conforme os números indicados pelo infectologistas. Levando-se em conta o Estado sem a capital, o índice cai para 1,82. Os cálculos feitos pelo professor levam em conta os números da pandemia no Brasil e no Rio Grande do Norte, contabilizados até a última sexta-feira (26).

Agência Brasil
Pesquisadores analisaram resultados do uso de medicamentos usados no "tratamento precoce" contra a doença

Pesquisadores analisaram resultados do uso de medicamentos usados no "tratamento precoce" contra a doença



Leia Mais

Segundo ele, os resultados demonstram que o tratamento precoce não tem se mostrado eficaz no combate à doença. “Os dados mostram que o que nós esperaríamos em termos de números melhores em função do uso amplo de terapêuticas do tratamento precoce não se constatam na epidemiologia. Inclusive, os números da capital são mais preocupantes do que os índices do restante do Estado. Não dá para dizer se são os medicamentos usados para tratamento precoce que estão provocando o aumento desses números. Mas o que eu quero dizer é que, quando se utiliza uma terapêutica que funciona, esse fator deve ecoar na epidemiologia como uma melhora do contexto geral e isso não acontecendo”, explica Ion Mascarenhas.

Outro infectologista que participou do encontro nesta segunda, o professor do DNIF, Henio Lacerda, destacou a falta de consenso existente no Brasil sobre as formas de tratamento à covid-19 e relatou como esse cenário está impactando a evolução da doença em pacientes no Rio Grande do Norte.

“Em nenhum país do mundo há recomendação de tratamento precoce contra a covid-19, porque não há comprovação científica para isso. Mas o que a gente percebe é: praticamente todos os pacientes que nós estamos recebendo nas unidades hospitalares para internação e que evoluem para quadros graves e óbitos, fizeram uso de medicamentos de forma preventiva ou tratamento precoce”, afirma Henio Lacerda.

Durante as discussões desta segunda, Lacerda apresentou o resultado de análises feitas por institutos de Saúde dos Estados Unidos e de países da Europa que contraindicam o uso desses medicamentos como forma de tratamento precoce da infecção. Dentre os trabalhos citados pelo infectologista, estão pesquisas do National Institute Health (NIH), nos EUA.

Henio Lacerda frisa que as medidas de saúde adotadas pela União Europeia e pelos Estados Unidos por meio de comprovação científica sempre serviram de referência para o Brasil, o que não vem acontecendo no caso da pandemia do novo coronavírus, já que nessas regiões o tratamento precoce não é indicado pelos órgãos de Saúde.

“Na Europa e nos EUA já existe consenso sobre as recomendações. Para pacientes que não precisam ser internados, o tratamento é padrão, com medicamentos apenas para controlar sintomas como febre e dor de cabeça, por exemplo. Aqui no Brasil e em algumas partes do mundo e que não são utilizadas como referência nossa é que essas recomendações destoam. E, coincidentemente ou não, nós somos um dos poucos países que está com a pandemia fora de controle”, aponta.





Leia também