"Treinar aqui no Estado é um risco"

Publicação: 2017-11-12 00:00:00
Miriam Araújo, ciclista de 32 anos possui quatorze anos na prática do esporte. Atual campeão brasileira, está de olho em marcas que podem levá-la cada vez mais longe na modalidade na qual se destaca na categoria Elite Feminina.
Créditos: DivulgaçãoMiriam AraújoMiriam Araújo

Entre os títulos da norte-rio-grandense, que, por falta de apoio tem que vestir a camisa da Paraíba estão: 2010 – Campeã dos Jogos Regionais em São Paulo; 2011 – Vice Campeã dos Jogos Regionais novamente em SP; 1º lugar na competição do Ranking Brasileiro, realizada em Natal no dia 13 de março de 2011, campeã no Circuito de Fortaleza, em abril (2011), e campeã do Circuito Norte/Nordeste de ciclismo de agosto do mesmo ano realizado em Sergipe.

Em conversa com a Tribuna do Norte, Miriam revelou seus sonhos, falou sobre o início da carreira e criticou a falta de apoio local e os riscos constantes que os atletas da modalidade sofrem, seja devido ao trânsito selvagem da cidade, ou a falta de segurança nos locais de treinamento.

Como começou no ciclismo?
O ciclismo ajuda a gente a manter a forma e mudou praticamente tudo na minha vida. Para mim significa tudo. Batalhei muito para chegar onde cheguei. Depois de 20 anos que pedalo por essas estradas perigosas eu posso dizer com muito orgulho que sou campeã brasileira.

Como foi sua primeira competição?
Fui convidada em Ponta negra para participar de uma prova. Eu disse que minha bicicleta só servia para ir à padaria. Mas diante da insistência eu fui. Na minha primeira competição caí (risos), levantei, terminei a prova em último, mas é isso mesmo. A vida de um atleta é isso mesmo. Comecei numa bicicletinha razoável e hoje posso dizer que eu tenho um equipamento bom , graças a Deus, porque para conseguir os resultados você tem que ter o equipamento muito bom. Hoje você tem que ter equipamento bom, mas também tem que ter o treinamento adequado. Se você quer ir para uma olimpíada não é fácil, você tem que passar por várias dificuldades, inclusive de patrocínios. Levei muitos “nãos”, mas nunca desisti.

E o ciclismo no RN?
Está crescendo, principalmente o feminino, pena que não tem muita competição. Então a gente tem que viajar e aí é mais complicado.

Você falou em pedalar por estradas perigosas. Esse é um dos desafios?
Com certeza. Hoje aqui no estado a gente não tem segurança para pedalar. Primeiro lugar, carros, motos e ônibus não respeitam a gente. Além disso, estamos sendo assaltados. A gente treinar  é um risco grande. Muitos que treinam à noite, por trabalharem durante o dia, ou os grupos estão sofrendo. A gente sai para treinar, mas não sabe se volta vivo ou sem o equipamento. Tem que ter muito cuidado.

E em relação aos recursos para treinar?
Graças a Deus hoje eu tenho dois apoios, que me apoiam com passagens e equipamentos. Sem eles não estaria aqui para contar minha história. Tenho a Natal Card e o Shopping Cidade Jardim que investem em mim e posso pagar passagens, alimentação, hospedagem e equipamento que é muito caro, além da suplementação que é fundamental. Para manter uma bicicleta hoje, no nível da que eu tenho, o custo é muito alto. Se surgir mais, melhor ainda. Para me preparar para o Brasileiro eu investi muito. Tudo a gente gasta, não é fácil.

Como foi a conquista do Brasileiro?
O Brasileiro foi em João Pessoa, em julho. Eu fui a única atleta que não tinha treinador. Fui só eu e Deus, que não tem treinador melhor. Sem nenhum apoio, além dos patrocinadores e da família. Fiquei numa tenda da Federação da Paraíba, pois hoje não represento o Rio Grande do Norte porque não tenho nenhum apoio do Rio Grande do Norte. Eu corro pela Paraíba, é uma vergonha, porque eles me apóiam, apesar de ser campeã brasileira. Foi debaixo de chuva, sem ninguém para me dar uma água, mas deu certo. Foram 60km, com 1h10 de prova e 17 concorrentes.

E as próximas competições?
Será agora em novembro, de 17 a 21, que são os Jogos Abertos  de São Paulo, que é a última prova do ano, para poder descansar um pouquinho, cerca de 10 dias, porque não posso parar totalmente. E aí continua para próximo ano, que correrei o Pan-Americano, Mundial e vou correr atrás do índice para as Olimpíadas, além de defender minha camisa de campeã brasileira.