Tribuna boêmia

Publicação: 2020-04-26 00:00:00
Woden Madruga
[ woden@tribunadonorte.com.br ]

Final de março andei escrevendo aqui sobre os 70 anos da fundação da Tribuna do Norte, contando um pouquinho da história do jornal criado por Aluizio Alves, que circularia pela primeira vez no dia 24 de março de 1950. Duas semanas depois, abril andando, o mote da coluna foi a fundação de um outro jornal, “O Galo”, órgão cultural da Fundação José Augusto, de circulação mensal, lançado em março de 1988.  Editora, a poetisa Marize Castro. O jornal não existe mais, engolido anos depois por um “preá” que também já morreu. Na coluna do dia 5 de abril ressaltei que “O Galo”, durante a sua existência, foi destaque nos meios literários do país e chegou a ser agraciado com o Prêmio Incentivo à Cultura, da União Brasileira de Escritores, entregue em solenidade realizada na Academia Brasileira de Letras.

Nestes dias de “distanciamento social” também carimbado de “isolamento” (ou “confinamento”?) encontrei, entre as brechas das estantes e nas gavetas desarrumadas,  alguns números de “O Galo” daqueles  anos de  1998/2000. No número 2, de abril de 98, na página “Cartas dos Leitores”  constata-se a excelente repercussão que o jornal desfrutava entre os escritores brasileiros. Começo transcrevendo a mensagem de Ignácio Loyola Brandão, jornalista, contista, romancista, dos grandes nomes da literatura brasileira, imortal da Academia Brasileira de Letras:

“Acabei de receber O GALO. Gostei. Está entre os melhores suplementos deste país. Há nele um equilíbrio entre o novo, avançado, e o acadêmico. Acho que as três faces são importantes. Não adianta ser apenas “avançadinho” por ser, como também não adianta ser acadêmico. Estou guardando bem guardadinho o meu O GALO, por se tratar do número 1. Vai ser história.
Ignácio de Loyola Brandão – São Paulo. ”

O que disse o poeta e crítico literário Hildeberto Barbosa Filho, professor de Literatura e membro da Academia de Letras da Paraíba:

“Foi com imensa alegria que eu recebi O GALO. Valeu a lembrança, como valeu sobretudo o contato com pessoas que estão produzindo nordestinadamente, num alto de invenção e criatividade. Queira Deus (ou o Diabo) que a experiência continue, para benefício da própria Fundação José Augusto, da cultura norte-riograndense e, especialmente, para cada um de vocês: poeta, contista, crítico, artista, etc. Parabéns e sucesso.”

O peão da notícia

O terceiro número de O Galo, que saiu em maio de 1988, traz uma crônica do poeta e jornalista Dailor Varela (1945/2012), contando a sua trajetória de jornalista que começou nesta TN nos anos de 1960, daqui para São Paulo (revista Veja, Folha de S.Paulo, etc.). Dailor foi, por estas aldeias potiguares,  um dos pioneiros da Poesia Concreta,  começo dos anos de 1960, aderindo mais adiante ao Poema Processo.  Ilustrado pelo cartunista Cláudio, o seu texto tem como título   “Curtas memórias de um peão de notícias”.  Relendo-o, agora, achei perfeito incluí-lo na agenda das comemorações dos 70 anos da Tribuna do Norte. Transcrevo alguns trechos começando pelo começo:

Na década de 60 – lembra-se Woden Madruga? – o jornalismo em Natal era puro idealismo e devaneio. Como repórter da “Tribuna do Norte” meu salário servia para pagar a conta na “Tenda do Cigano” e comprar alguns livros na Livraria Universitária, onde todo o santo dia à porta, bom mesmo era o papo com Berilo Wanderley. Houve um tempo em que eu assinava uma coluna chamada “POP” que – hoje – acho hilário, como diz aquele personagem do Jô Soares.

É que a coluna era de vanguarda radical, tentava mil lances visuais. Mas o equipamento da TN, aquela época, não ajudava em nada. E ainda tinha os porres de Sebastião Carvalho que às vezes (muitas vezes) diagramava esses lances visuais de cabeça-pra-baixo ou de ponta-a-cabeça, como dizem os paulistas. Eu nem sabia; mas antes de Umberto Eco, a TN estava criando a “Obra Completa”.

Com o precário equipamento da TN, mesmo assim, criou-se naquele jornal da Tavares de Lira, um ambiente cultural-jornalístico dos mais trepidantes: WM, Sanderson Negreiros, as crônicas de Newton Navarro, Luís Carlos Guimarães, João Gualberto. A redação reunia-se mesmo era pelos bares da Tavares de Lyra, de onde, certa noite, Garibaldi Alves teve que tirar Sebastião Carvalho, de porre, para diagramar o jornal. Aliás, acho que Garibaldi cansou, desse gesto noturno. Caso contrário, o jornal não saia.

Eu gostava de esperar o jornal, andando pela madrugada de bar em bar, de zona em zona da Ribeira. Gostava de ver o jornal rodar... quando a máquina não quebrava. Levava para a casa a edição do dia. Minha mãe sempre se preocupava com minhas tantas “horas extras”.

Fiz durante um tempo a “Crônica policial da Cidade”. Ia toda a manhã à Delegacia e fantasiava os casos mais interessantes. Lembro-me de um bandido que entrevistei. Tinha uma rosa tatuada no braço. Por que? Segundo ele, por causa do filme “A Rosa Tatuada”, pelo qual ele tinha grande paixão.

O poeta Nei Leandro de Castro, ou Neil de Castro, como queiram, inventou nessa época, um jeito de beber de graça pelos botecos potyguares. Inventou-se um “Roteiro Lírico dos Bares de Natal”. Cada dia, um de nós escrevia sobre um bar. O dono, naturalmente, nos convidava para um grande porre. Eu escrevi sobre a Galinha de Mãe. Haja porre! ”

Theresa Cesario Alvim
No meio da semana caiu na minha bacia das almas um imeio da jornalista Adriana Zarvos que me deixou todo ancho, feliz da vida, orgulhoso que só.   Foi por conta da nota na coluna de domingo, dia 19, na qual cito o livro de Thereza Cesario Alvim, “A Imprensa disse não”, como uma das minhas releituras nestes tempos de “isolamento social”.  Vai na íntegra:

“Prezado Woden.
Antes de tudo gostaria de me apresentar. Sou Adriana, filha de Theresa Cesario Alvim e recebi sua coluna enviada pelo Prof. Roberto Silva. Fiquei extremamente comovida e fascinada com a sua escolha para atravessar “tempos assustadores”. Mandei seu lindo texto para meus irmãos. Somos cinco! Muito obrigada. Ficamos todos muito tocados e tenho certeza que minha mãe teria adorado ver o seu livro percebido na contemporaneidade.
Não sei se vocês se conheceram apesar de Thereza ser de uma geração mais avançada. A paixão e o conhecimento da história política e social do Brasil foram seus motores de inspiração e o jornalismo sua vocação exercida com muita entrega em tempos também tão complicados.
Fiquei muito sensibilizada com a apresentação que meu “íntimo amigo virtual” Roberto Silva fez de você e por isso tomo a liberdade para fazer este agradecimento em nome dos filhos de Thereza Cesario Alvim.
Abraço muito afetuoso de seus leitores cariocas: Adriana, Nick, Claudia, Beatriz e Guilherme Zarvos.”

Viver
Outro imeio, este agora, vindo daqui mesmo de Natal, assinado por Isaura Saraiva de Medeiros, moradora do Alto da Candelária:

“Woden, sou leitora da Tribuna do Norte há mais de vinte anos. Estou sentindo muito a falta do ‘Caderno Viver’ que desapareceu das páginas do jornal”.

Também estou sentido, Isaura.