Trilogia sob o sol e um pé de laranja lima

Publicação: 2019-05-09 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Zé é um jovem inquieto que busca dar um rumo a sua vida. Na Natal dos anos 40, ele se vê mergulhado num mar de incertezas que vai de seguir os passos do padrinho e se tornar médico ou largar a Faculdade de Medicina e se lançar no mundo. Zé é a versão um pouco mais velha de Zezé, um pré-adolescente sensível que se apóia na imaginação para enfrentar seus conflitos internos na Natal dos anos 30, cidade em que acabara de chegar vindo do Rio de Janeiro. Dois momentos de um personagem que ficou consagrado na literatura brasileira a partir da obra de José Mauro de Vasconcelos, em sua fase anterior a essa, quando Zezé era apenas um garotinho de seis anos, tão endiabrado quanto meigo, que encontrou num pequeno pé de laranja lima um grande amigo para o ajudar a lidar com a dura realidade que o cercava na periferia do Rio de Janeiro.

José Mauro de Vasconcelos e sua mais famosa obra ‘Meu Pé de Laranja Lima’, cuja história traz forte inspiração de Natal
José Mauro de Vasconcelos e sua mais famosa obra ‘Meu Pé de Laranja Lima’, cuja história traz forte inspiração de Natal

Obra que se tornou um sucesso estrondoso de vendas, encantando várias gerações, “Meu Pé de Laranja Lima” (1968) ganhou uma edição comemorativa em 2018 por ocasião do aniversário de 50 anos de seu primeiro lançamento. A edição é acrescida de um suplemento de leitura produzido pelo escritor e mestre em literatura brasileira, ganhador de dois prêmios Jabuti, Luiz Antônio Aguiar.

Com a boa repercussão da publicação, a editora Melhoramentos, detentora dos diretos de publicação de toda a obra de José Mauro de Vasconcelos (1920-1984), relançou há poucas semanas  edições especiais de mais dois livros, que, junto a “Meu pé de laranja lima”, formam a trilogia autobiográfica infanto-juvenil do autor. São eles: “Vamos aquecer o Sol” (1974), com Zezé pré-adolescente morando em Natal com a família de seu padrinho médico; e “Doidão” (1963), com Zezé, agora apenas Zé, no início da juventude e completamente seduzido pelo lado paradisíaco da vida.

Segundo a editora executiva da Melhoramentos, Leila Bortolazzi, as obras nunca haviam saído de catálogo, mas a empresa achou por bem dar destaque. “Aqui temos a memória de um dos grandes autores do país, alguém que levou o nome da editora e do Brasil para o exterior. Seus livros são adotados em escolas. Sentimos a necessidade de relança-los trazendo notas informativas sobre os livros”, diz a editora.

“Vamos aquecer o Sol” e “Doidão” se referem à infância e adolescência do autor em Natal. Assim como Zezé, José Mauro nasceu no Rio de Janeiro e sua família sofria com profundas dificuldades financeiras. Quando a situação piorou, o menino precisou ir morar em Natal na casa de padrinhos ricos. Segundo artigo publicado nesta TRIBUNA DO NORTE pelo saudoso advogado e jornalista potiguar Ticiano Duarte, José Mauro veio morar na casa do médico Ricardo Paes Barreto, filho de Juvino Barreto. Na capital potiguar estudou em boas escolas, tornou-se atleta de natação (inclusive disputando competições no Rio Potengi) e ingressou na faculdade de Medicina, abandonando depois de dois anos. Ele queria correr o mundo. Então parte de Natal a bordo de um cargueiro em direção ao Rio de Janeiro. A partir dai sua vida toma rumos inimagináveis.

“O período de José Mauro em Natal teve um significado muito grande em sua obra. O padrinho queria fazer dele médico, então o menino sempre estudou muito, lia de tudo em casa e isso influiu na sua formação como escritor”, conta Bortolazzi.

Depois de Natal, para se virar, José Mauro foi de tudo um pouco. Garçom, pescador, estivador, treinador de boxe. Devido a seu porte atlético também foi ator de filmes e novelas, além de modelo vivo para artistas – o Monumento à Juventude, esculpido pelo famoso escultor Bruno Giorgi no jardim do antigo Ministério da Educação, no Rio de Janeiro, foi feito tendo José Mauro como referência. Mas Leila Bortolazzi atenta para outras desventuras da vida do escritor que foram determinantes para a sua literatura. “José Mauro foi muito amigo dos irmãos Villas-Boas. Viajou o Brasil todo com eles. Teve contato com indígenas e seringueiros. Sua obra é um retrato do Brasil interior”.

A possível fase adulta
Na vasta obra de José Mauro outros livros contém um pouquinho das memórias do autor. Mas em se tratando de fortes linhas autobiográficas, como o são “Meu Pé de Laranja Lima”, “Vamos Aquecer o Sol” e “O Doidão”, algo semelhante é possível ser visto somente em “Confissões do Frei Abóbora” (1966), que tem proximidade com a vida adulta do escritor. No livro o protagonista (que de frei não tem nada) faz bicos como modelo para estudantes de arte. Mas depois de uma desilusão amorosa ele parte para o Norte em expedições indígenas. Não é raro alguns leitores verem no personagem a fase adulta do menino Zezé. A obra rendeu José Mauro Vasconcelos o prêmio Jabuti de Melhor Romance.

Câmara Cascudo, Macau e outros Histórias
A Melhoramentos tem outras obras de José Mauro Vasconcelos no prelo. Até o final de 2020 serão lançados: “Banana Brava” (1942), primeiro livro do autor, cujo prefácio é de Câmara Cascudo; “Barro Blanco” (1948), que se passa em Macau, no Rio Grande do Norte; “Longe da Terra” (1949); e “Arara Vermelha” (1953).

Meu Pé de Laranja Lima

A primeira Edição

Zezé é um menino de seis anos  que mora na periferia do Rio de Janeiro. Ele viaja com sua imaginação, brinca, explora, descobre, responde aos adultos, mete-se em confusões, causa pequenos desastres. Entre a alegria e a tristeza, ele jamais se conformar com as limitações que o mundo lhe impõe.

Vamos Aquecer o Sol

Vamos Aquecer o Sol

Zezé agora mora em Natal, com a família de seu padrinho, um médico. Ele não é mais submetido às surras, como no romance anterior nem passa as necessidades que a vida com sua família de origem lhe impunha. Estuda em boa escola e, aos poucos, progride intelectual e fisicamente. Mas é um menino triste porque a dor das perdas que sofreu pesa demais nele. Nesse sentido, ele usa a imaginação como tática de sobrevivência.

O Doidão

O Doidão

O livro foi lançado cinco anos antes de “Meu Pé de Laranja Lima”. A obra conta o início da juventude de Zé, ou Zezé. Inconformado com o destino traçado para ele, o jovem é seduzido pelo lado paradisíaco da vida – o mar, o não fazer nada sem culpas, correr riscos, cometer seus próprios erros.











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