Tristes tempos...

Publicação: 2019-12-08 00:00:00 | Comentários: 0
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Andam feios os tempos nestes tristes trópicos, para repetir a expressão de Claude Lévi-Strauss. Já temos jornalistas virando bruxos, vendendo felicidade e prosperidade. Milagrosos, como as velhas pílulas de vida do Doutor Rossi. Anda tão feia a coisa que até os papangus que nos antigos carnavais espalhavam medo nas ruas, hoje são figuras ingênuas e inofensivas, se comparadas com os mascarados que escondem os seus rostos marcados pela feiura da alma.

Foi-se o tempo que as assombrações vinham nas visões e abusões do imaginário popular vistas no Recife velho por Gilberto Freyre em livro saborosamente humano.  Ou, nossos outros assombros, reunidos por Raimundo Nonato em dois pequenos volumes. Sou desse mundo que tinha medo do demônio. Hoje elaboramos o mal com toda sem-cerimônia e não acreditamos na antiga certeza bíblica de que a bondade vence o mal, como pregava o grande apóstolo Paulo.
A viver malfadado pela ambição, prefiro as cartomantes. Como a que outro dia registrei aqui. Li seus anúncios pregados nos postes da cidade: “Prometo devolver em quinze dias um grande amor perdido”. Mentira? Não. É bom reencontrar um amor. Basta vencer a soberba. É uma verdade cartesiana - quem ama é feliz. E mais feliz ainda é ser amado. Não precisa temer a fortuna. A sábia filosofia de para-choque de caminhão já ensinava que liseu acaba até amor.

A fragilidade é uma esperança, mesmo tênue. Eça de Queiroz acreditava que a nudez forte da verdade há de ser coberta pelo manto diáfano da fantasia. São palavras suas, escavadas no monumento que os portugueses erigiram em Lisboa, inaugurado com um belo discurso de Ramalho Ortigão. Como negar o diáfano, se para tê-lo basta não deixar que cresçam na alma as ervas daninhas, e se a vida surpreende a todos - ricos e pobres - em doses de dor e prazer?

Sabemos - negamos, mas sabemos - o homem é dado a cativar ambições. É da sua pobre fragilidade. E sabemos também que o filósofo Jean Galard tem razão quando avisa - “O gesto é a poesia do ato”. Não é fácil, mas é possível discernir o ato do gesto. Basta não confundir os ideais grandes com os estreitos, como ele ensinava em meados dos anos oitenta ao surpreender a certeza dos que pensavam que a bondade está nos ato, quando nasce do gesto. É diferente.

E se digo assim, trocando em miúdos, é por consciência da alma precária nascida sem a percepção filosófica. O perto demais dos olhos é, justa e contraditoriamente, o mais difícil de enxergar. É assim, numa interpretação livre do latim, que está no ex-libri de Câmara Cascudo, nosso grande humanista, cercando o peixe que lhe deu o nome: quem espera tem esperança. O apóstolo Paulo tem razão: a cruz pode ser a grande transfiguração da glória. Então, esperemos.

Palco

LUTA - A Prefeitura tapou todos os buracos ao longo das avenidas Hermes da Fonseca e Salgado Filho, sem marcar o dia de começar o recapeamento do asfalto. Não é coisa para este dezembro que escorre.

PRESENÇA -
Quem vive os dias verânicos, em Upanema, entre as alvas areias da costa branca, é Luiz Resende Puech, criador e fundador da Casa do Livro Azul, a bela livraria-antiquária de Pinheiros, SP.

ELOGIO -
Amigo generoso, desde os anos oitenta, faz elogio encantador ao cronista que, se por acaso transcrito aqui, assanharia as figurinhas provincianas que não suportam quem vive de bem com a vida.

VIVER -
Puech, alguns anos depois, fechou a livraria, voltou a viajar pelo mundo e passou um tempo em Areia Branca. Hoje é um investidor, mas agora já disposto a aplicar também na grande arte de viver. 

EXPO - Ninguém pode deixar de por os olhos na exposição de Erasmo Andrade, na Galeria Virtual da livraria do Campus, na UFRN. É o menino de São Tomé, com os seus grandes azuis tingidos de ébano.

TETAS –
De um jovem deputado que corre pelo aceiro, longe do tapete vermelho da governadoria, mas vendo o pantim artificial do colega de plenário: “Está tão apojado nas tetas do governo que até dorme”.

REPÚBLICA -
Nas livrarias, o ‘Dicionário da República’, edição Companhia das Letras, organizado por Lilian Schwarcz e Heloísa Starling. Reúne 51 longos ensaios na ordem cronológica dos seus temas. 

FRUTO - De Nino, o filósofo do Beco da Lama, na sua filosofia caseira, nascida na vulgaridade dos botequins: “A intolerância nunca amadurece”. E, impávido, arrematou: “Passa da verdura ao azedume”.

Camarim

BAHÚ - O editor Abimael Silva cuida, silenciosa e discretamente, de promover uma edição fac-similar de um livro com edição única em 1932 e que é uma das maiores, ou a maior joia da pequena bibliografia do humor literário do Rio Grande do Norte e escrito por Pedro Lopes Cardoso Júnior: “Bahú de Turco”.

PIERRE -
Usando o pseudônimo de Pierre no jornalismo natalense, ele é o pai de Everaldo Lopes, do ‘Cartão Amarelo’, portanto, avô de Cinthia Lopes, editora de cultura desta TN. “Bahú de Turco”, assim grafado,  foi publicado no Recife, quando deixou Natal, e é assinado com o pseudônimo de “Sá Poty”.

HUMOR -
Alegre, sem deixar de ser cáustico e lascivo, tem detalhes que revelam sua singularidade e a ironia bem humorada: começa na terceira edição, pela certeza do sucesso; com apresentação em turco; e gritando forte, para rasgar a mesmice provinciana, o lema de Phoudhon: “A propriedade é um roubo”.

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