Um ícone

Publicação: 2020-01-17 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br


Créditos: Divulgaçãocolunacoluna


Ainda bem que ninguém até hoje desejou ser dono do Grande Hotel. Por isso ainda se mantém como traço marcante da fisionomia urbana da Ribeira, testemunha fiel e feérica do esplendor, e hoje, silenciosa e triste de sua longa e injusta agonia. Não caiu sobre as próprias ruínas, mas caminha numa morte lenta diante dos olhos frios e indiferentes dos poderes executivo e judiciário que usam como depósito de papéis mortos, inservíveis para a glória.

Não se sabe até quanto suporta o abandono e se dura para um dia merecer ser tratado como é, ou seja, um ícone. O melhor catalizador da sempre anunciada, e nunca feita, ação de revitalização da Ribeira. Não para ser museu - só sabemos fazer museus sem vida - nem para ser repartição, mas para aquilo que é - um hotel. Subsidiado, quem sabe, com isenção fiscal, para receber turistas, principalmente os mais interessados em pequenas temporadas históricas.

Não quero que vejam este cronista como um delirante, mas Natal conta a história do mundo por já ter nascido como cidade desde os velhos mapas coloniais. Das navegações marítimas, sem esquecer a tese de que o Brasil foi descoberto em Touros, às travessias aéreas do Atlântico. E não perder de vista que a Latécoère começou aqui o correio aéreo francês, e dela nasceu a Air France, com toda presença dos pioneiros da história da aviação comercial.

Das travessias marítimas, com os sonhos da França Antártica e da New Amsterdã, aos portugueses com a Fortaleza da Barra do Rio Grande, passamos a outros pioneirismos, com a mesma força histórica. Das travessias marítimas para as travessias aéreas comerciais. Veio, depois, a Segunda Guerra Mundial e Natal foi o maior teatro de operações militares das forças norte-americanas fora dos EUA, com o encontro de Franklin Roosevelt e Getúlio Vargas.

Ali, vizinho, o Teatro Alberto Maranhão, onde Oliveira Lima, a convite de Henrique Castriciano, fez a conferência sobre Nísia Floresta. A casa-museu de Câmara Cascudo, o maior estudioso do Brasil e do brasileiro. Cidade Baixa e Cidade Alta ligadas pela Av. Junqueira Aires, Praça 7 de Setembro, onde o primeiro sino saudou as trindades do anoitecer, quando todos rezavam esperando a noite. E ao lado o Padre João Maria, o santo da cidade.

O Grande Hotel poderia ser um hotel diferente, no qual o hóspede tivesse incluído no valor de sua temporada, em convênio com instituições financiadoras e apoiadoras, o direito a uma equipe de guias formados para o turismo cultural de verdade. Do jeito que vai, entregue aos seus próprios fantasmas, aquele ícone vai acabar noutra ópera fantasmagórica, certamente em nome da modernidade. É que só uma falsa modernidade exclui a história de um lugar... 

PRAÇA - Com a nova Conviv’art, ao lado da Biblioteca Central Zila Mamede, o espaço, no Centro de Convivência, será destinado a uma praça de alimentação com obras de adaptação. 

JANELA -Vai começar o espetáculo do troca-troca de partido que mais uma vez, antes pelas portas e agora pelas janelas, adia sem data prevista a reforma política que ninguém quer fazer.

ALIÁS - O Palácio do Planalto não pode entrar no jogo por ser uma interferência indevida no Poder Legislativo. E ao Legislativo, por sua vez, não interessa moralizar o mercado das siglas.

PIOR - Com a engorda anual do Fundo Partidário, seja ou não ano de eleição, o partido virou, antes de tudo, um bom lugar para ter verbas públicas nos dozes meses do ano e sem controle.

GESTO - O escritor Gutemberg Costa resolveu abrir toda sua biblioteca particular, em Nísia Floresta, onde hoje reside depois de aposentado, para consultas de estudantes e de leitores.

GRAVE - A Polícia Civil do RN ocupa apenas mil e trezentos dos cinco mil cargos criados por lei. O déficit é de três mil e setecentos e distribuídos entre delegados, agentes e escrivães. 

HISTÓRIA - Esta coluna errou. Ramon Ribeiro, desta TN, não reúne apenas depoimentos de gauleses sobre a Bandagália. Ele está escrevendo a sua história. O Estado devia esse registro.

TIRO - Do ex-ministro Hélio Beltrão, na Folha, sobre censura que até agrada a alguns tolos: “O único controle da mídia necessário e o controle remoto; não gostou, troque de programa”.

AVANÇO - Fortes sinais de avanço, na Redinha Velha, do lado do mar. Proprietários erguem proteções com pedras contendo a força das marés que parece te ficado bem mais intensa com a construção da Linha de Corrente, o quebra-mar que evita o assoreamento do canal do porto.

GOVERNOS - Praticamente prontos - em fase de revisão final - os textos sobre os governos do Rio Grande depois de Rafael Fernandes e até Rosalba Ciarlini. Será o segundo volume que continua o primeiro, publicado por Câmara Cascudo em 1939. Volumes sairão ainda este ano.

DÚVIDAS - Um leitor desta Cena Urbana corrige a coluna: o prefeito Álvaro Dias não sofre apenas o silêncio do presidente do MDB, Walter Alves. Também é silenciosa até agora a boca do ex-prefeito Carlos Eduardo Alves, presidente do PDT. Silêncio pode ser contra ou a favor.