Política
Um “radical” solidário
Publicado: 15:43:00 - 21/06/2015 Atualizado: 16:00:50 - 21/06/2015
Para os adversários políticos de antigamente, um radical; para os amigos de sempre uma pessoa solidária, emotiva, de bem com a vida. Em julho de 2007, Agnelo estava preocupado com o estado de saúde do amigo Nélio Dias, deputado federal que o ajudou a se eleger pefeito com votos em Parnamirim e de quem recebeu emendas parlamentares para melhorar a infraestrutura da cidade.

No gabinete da prefeitura, ele pegou o celular e fez uma ligação para o hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Fazia isso desde que o parlamentar, presidente do PP no Rio Grande do Norte, fora internado, após uma parada cardíaca, quando fazia tratamento de radioterapia contra um câncer no pulmão. Naquele dia ele desligou o telefone pensativo, preocupado. O estado de saúde de Nélio tinha se agravado, os médicos já não davam esperança de que ele pudesse sair do coma induzido.

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Logo depois Agnelo manda entrar algumas pessoas que estavam na antessala, aguardando a vez para serem recebidas. Era uma conversa de fim de expediente. Uma delas começou a lembrar episódios protagonizados pelo ex-ministro Aluízio Alves. Histórias como a da vez que Aluízio deu R$ 50 a um flanelinha que trabalhava na Ribeira e veio pedir “as festas de natal” para comemorar com a mulher e a filha, que nascera meses antes. Ou a bronca que AA deu na equipe da TV, nos primórdios da Cabugi, depois de assistir a uma reportagem sobre o leilão de carros usados do governo do Estado. E o motivo da bronca? Numa "passagem" a repórter disse que o lote mais valioso era um Galaxie, "com ar-condicionado", um luxo na época, usado pelo governador Geraldo Melo.

Agnelo tentava disfarçar, mas lágrimas escorriam na face. Fazia pouco mais de um ano da morte de Aluízio. Agnelo nunca se conformou com a morte do irmão. O interlocutor percebeu e encerrou a conversa. Apontando para o chefe de gabinete, o prefeito pediu que ele fizesse um relato sobre o cronograma das obras de urbanização da Mahatma Ghandi, onde as águas abriram uma grande voçoroca, ameaçando as casas construídas no local. A prefeitura tinha o dinheiro, mas não conseguia vencer as barreiras ambientais. E isso o deixava indignado. Nélio morreu dias depois. Agnelo o homenageou. Na Esplanada Deputado Nélio Dias existe hoje um busto do parlamentar.

Lacerdismo

Afastado das brincadeiras e da escola quando menino, perseguido quando começava a despontar para a carreira política, agindo como fugitivo durante a ditadura militar, sofrido com as mortes trágica dos irmãos Expedito Alves (assassinado em Angicos) e José Gobat (vítima de um acidente provocado por um motorista embriagado), Agnelo tinha tudo para ser uma pessoa amargurada. Ao contrário. Era alto astral. Dava gargalhadas ouvindo as histórias que tinha como personagem o jornalista Osni Damásio, especialmente o episódio "O Rei de Jucurutu", que não cansava de ouvir, nem de rir.

Na TV Cabugi foi apresentador do Bom Dia RN, atropelando o Padrão Global, que na época exigia pessoas de boa aparência, com dicção perfeita, sem envolvimento com grupos políticos. No início, todos pensavam que Agnelo seria um pé no freio na filosofia “veículo plural” que o superintendente Francisco Alves e o diretor de Redação, Antônio Melo, começavam a implantar. Vez por outra sugeria, mas nunca vetou nenhum entrevistado.

Era jornalista 24 horas por dia e político 365 dias por ano. Quando estava entediado, entrava no carro e saía vagando pela cidade. Tirava do porta-luvas um CD com o discurso de Carlos Lacerda, proferido na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados em 1957. Agnelo ficava encantado como se estivesse ouvindo pela primeira vez. Gostava do trecho em que Lacerda, com voz firme, citava as manobras da alcateia enfurecida para cassá-lo: “Venho a esta comissão como testemunha de um tempo de subversão de valores, na qual – como na sátira de George Orwell -, fala-se em liberdade para matá-la, em democracia para destruí-la, em legalidade para negá-la na sua própria essência.”

O nome do filho do meio, Carlos Eduardo, é uma homenagem a dois políticos que ele cultuava: Carlos Lacerda e Eduardo Gomes.

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