Um ano histórico de brasileiros em Cannes

Publicação: 2019-05-28 00:00:00 | Comentários: 0
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Por Marcio Delgado
Colaborou: Ramon Ribeiro

A 72ª edição do Festival de Cannes – a mais importante mostra de filmes do mundo –, pode ser apontada como histórica para o cinema brasileiro. O país foi o quarto com mais produções participantes (seis no total), atrás somente de França, Estados Unidos e Bélgica. E pela primeira vez em uma única edição saiu com dois importantes prêmios. “Bacurau”, dos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, faturou o Prêmio do Júri (terceiro mais relevante do festival). Já “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, do cearense Karim Aïnouz, foi o vencedor da Mostra Um Certo Olhar (que reúne obras de produção mais arriscada) . Além deles, “The Lighthouse", do norteamericano Robert Eggers com produção do mais internacional dos produtores brasileiros, Rodrigo Teixeira, foi aclamado com o Prêmio da Crítica, de caráter não oficial.

Bacurau tem faroeste e ficção, sem poupar críticas à exploração de comunidades rurais
 “Bacurau” tem faroeste e ficção, sem poupar críticas à exploração de comunidades rurais

Rodado no nordeste brasileiro, “Bacurau” chamou a atenção de público e crítica pela mistura de gêneros, mesclando um pouco de faroeste com ficção, sem poupar críticas à exploração de comunidades rurais, corrupção e a invasão estrangeira no país. O longa é uma colcha de retalho dinâmica, com personagens bem diferentes uns dos outros, incluindo uma transgênero, drones, cangaceiros, ingleses, americanos e até um alemão convivendo de maneira nada pacífica.

Apesar da necessidade de justificar “Bacurau” dentro do cenário político brasileiro, com críticos tentando encontrar referências diretas ao atual presidente Jair Bolsonaro, as indiretas de “Bacurau” estão mais nas entrelinhas, como a menção nos créditos do filme de que a produção, filmada durante dois meses em 2018 no sertão do Rio Grande do Norte, gerou 800 empregos – uma clara alfinetada aos cortes de incentivo à cultura feitos durante os primeiros meses de gestão de Bolsonaro. Outras cenas, no entanto, parecem ter sido coincidências de uma simbiose de vida-que-imita-a-arte-que-imita-a-vida no dia-a-dia do Brasil.

Em recente entrevista à France 24, canal estatal francês, ainda em Cannes, o cineasta Juliano Dornelles reconheceu que o grande desafio foi competir com a realidade brasileira durante o término do roteiro de “Bacurau”: “Nós estávamos escrevendo o roteiro e vendo as notícias na televisão e, vez ou outra, algo que pensamos em colocar na história estava acontecendo de forma ainda mais absurda na vida real”.

A semelhança entre parte do enredo, abordando a insatisfação dos moradores locais ao descobrir que o seu povoado foi apagado dos mapas modernos e já nem aparece mais em ferramentas de busca na internet, com a condenação do atual ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles em 2018, por ter solicitado, quando ainda era secretário estadual do Meio Ambiente de São Paulo, que zonas de conservação em uma mapa fossem apagadas, também pode ser considerada uma crítica através do cinema. Mas é preciso lembrar que o projeto do filme começou há 10 anos, em 2009, bem antes do caso ter vindo à tona e a 3ª Vara da Fazenda Pública da Capital ter condenado Salles por improbidade administrativa.

Talvez a maior semelhança entre realidade e ficção exposta por “Bacurau” seja a forma em que a violência é mostrada no filme, com armas sendo usadas muitas vezes não para a defesa, mas como parte de um jogo que banaliza o valor das vidas dos moradores de um lugar no meio do nada, quase terra de ninguém. O filme “Bacurau” está previsto para estrear no Brasil em agosto.

Um olhar sobre o patriarcado
Se “Bacurau” diz muito sobre o Brasil contemporâneo, o mesmo acontece com “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de  Karim Aïnouz. Mas neste caso, a crítica é voltada para a opressão social imposta às mulheres. O longa é uma adaptação do romance homônimo da escritora pernambucana Martha Batalha e narra a trajetória de duas irmãs, Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler), separadas uma da outra no Rio de Janeiro dos anos 1950.

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão aborda a opressão social imposta às mulheres
“A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” aborda a opressão social imposta às mulheres

Ambas sofrem diante de uma sociedade patriarcal, onde cabe às mulheres um papéis bastantes definidos. Eurídice é uma jovem pianista talentosa que se esforça para trilhar uma carreira de musicista, mas, casada com um marido machista, é forçada a ser dona de casa. Guida se entrega a uma paixão irresponsável, mas ao engravidar é abandonada pelo parceiro. O filme conta com a participação especial da atriz Fernanda Montenegro. A previsão de estreia no Brasil é em novembro.

Crise na Ancine
Além de “Bacurau" e “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, o Brasil esteve representado em Cannes com outros quatro filmes. Na competição principal participou “O Traidor", dirigido pelo italiano Marco Bellocchio, mas com a atriz Maria Fernanda Cândido no elenco e produção dos irmãos paulistas Caio e Fabiano Gullane. Já mostra Um Certo Olhar foi exibida a obra "Port Authority", da norteamericana Danielle Lessovitz com produção do carioca Rodrigo Teixeira, da RT Features, que, aliás, também produziu “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão", vencedor da mostra paralela.

Rodrigo produziu ainda "The Lighthouse", terror do cineasta Robert Eggers (do aclamado “A Bruxa”) exibido na mostra Quinzena dos Realizadores, faturando o Prêmio da Crítica, de caráter não oficial. A Quinzena dos Realizadores também contou com o longa “Sem Seu Sangue", estreia da diretora carioca Alice Furtado.

O destaque do Brasil no Festival de Cannes, entretanto, acontece justamente quando o país vive o que especialistas do segmento consideram como a maior crise no setor audiovisual brasileiro nos últimos 25 anos. Tudo porque a Agência Nacional do Cinema (Ancine) suspendeu o repasse de verbas para a realização de séries e filmes, impactando inclusive os projetos já em produção. Os cortes vieram na esteira da decisão do Tribunal de Contas da União, que vê irregularidades na forma como a Ancine fiscaliza seus projetos.

Escolha
A comissão que definiu os consagrados desta edição do Festival de Cannes foi presidida pelo diretor mexicano Alejandro González Iñárritu (dos premiados “Birdman” e “O Regressos”). A escolha é feita à portas fechadas, em locais que nunca são divulgados e com proteção policial garantida. De acordo com as regras da competição, um filme só pode receber um prêmio - exceto as categorias “Melhor roteiro” e “Prêmio do Júri”, que podem ser associadas a um prêmio de interpretação, desde que com prévia autorização da presidência do festival.

Premiados
Palma de Ouro: “Parasite”, do sul-coreano Bong Joon-ho

Grande Prêmio: “Atlantique”, de Mati Diop

Prêmio do Júri: “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, empatado com “Les Misérables”, de Ladj Ly

Prêmio direção: Jean-Pierre e Luc Dardenne, por “Young Ahmed”

Melhor atriz: Emily Beecham, “Little Joe”

Melhor ator: Antonio Banderas, por “Dor e Glória”

Melhor roteiro: “Portrait of a Lady on Fire”, de Céline Sciamma

Menção especial: Elia Suleiman, por “It Must be Heaven”

Melhor curta-metragem: “The Distance Between Us and the Sky”, de Vasilis Kekatos, com menção especial para “Monstruo Dios”, de Agustina San Martín.

Camera D'Or (melhor filme de estreia): “Nuestras Madres”, de César Díaz

Mostra um certo olhar: “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, de Karim Aïnouz








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