Um arquiteto em pleno voo

Publicação: 2019-08-04 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Os anos em que Carlos Ribeiro Dantas viveu em Brasília provavelmente foram determinantes para que ele, ao retornar à Natal, sua terra de origem, enveredasse pela arquitetura, tornando-se um dos grandes arquitetos da cidade. Em 40 anos de carreira, ele realizou mais de 500 projetos, muitos deles estão por ai, dando à Natal uma beleza que vai além da paisagem natural de dunas e mar.

Dentre suas obras estão a ampliação do Centro de Convenções, o Hotel Pestana, a Escola do Governo (Centro Administrativo), a agência do Banco do Nordeste (esquina da Prudente de Morais com a Jundiaí), além de vários edifícios de traços particulares.

O Memorial do Aviador representa a parte moderna do completo Rampa. Abaixo, o prédio do BNB, um dos projetos do arquiteto
O Memorial do Aviador representa a parte moderna do completo Rampa. Abaixo, o prédio do BNB, um dos projetos do arquiteto

Mas um dos mais recentes trabalhos de Carlos Ribeiro Dantas, que ainda não está devidamente concluído, não apenas o aproximou de uma parte importante da história de Natal, como o instigou a conhecê-la mais profundamente. O projeto é o do Complexo Cultural da Rampa, no bairro de Santos Reis, à beira do Rio Potengi. O espaço abrange o Museu da Rampa, no prédio restaurado da antiga base da Pan Air, e um prédio novo, que expressa o traço particular do arquiteto, o Memorial do Aviador. O primeiro contará a história da participação de Natal na 2ª Guerra. O segundo, é voltado para a história de Natal como ponto estratégico para a consolidação do Correio Aéreo da América do Sul, interligando Europa, África e América Latina ali por volta dos anos 20.

Nesta entrevista concedida no Complexo Cultural da Rampa, Carlos Ribeiro Dantas falou um pouco sobre o projeto, sobre seu interesse pelo tema da aviação e sobre o desenho arquitetônico da de Natal.

A Rampa
Esse prédio da Rampa foi o primeiro aeroporto de Natal, foi da Pan Am, depois da Pan Air do Brasil. Era onde os hidroaviões pousavam. Os arcos eram dessa época. Depois o espaço foi utilizado como Base Americana durante a 2ª Guerra. A marinha quando ganhou esse espaço, doou essa parte onde tem o prédio da Rampa para se fazer o museu. Mas quando recebi a planta do terreno notei que a rampa dos aviões ficou do lado da Marinha. Precisávamos da rampa porque era o que dava sentido ao projeto. Eles cederam e fizemos uma adaptação no terreno. Para o projeto do Centro Cultural, restauramos o prédio da Rampa e construímos esse outro prédio, o Memorial do Aviador.

História da aviação
Natal serviu de base militar americana na 2ª Guerra, tudo bem, sei que há um interesse muito grande sobre esse tema, mas a cidade já tinha uma importância internacional antes disso devido ao seu posicionamento estratégico para a consolidação do correio aéreo. Franceses, alemães e italianos já passavam por Natal antes da guerra. Jean Mermoz, que foi sepultado como herói na França, era um cara que estava sempre por aqui. Já fui no museu do correios, em Alsácia e Lorena, e vi foto de Natal pra todo canto. E também temos Augusto Severo, outro pioneiro da aviação. Precisamos mostrar para o mundo todo o quanto fomos importante nesse assunto. 

Projeto do Memorial do Aviador
Fui muito criticado por ter feito o prédio do Memorial do Aviador. Mas minha intenção era justamente contar a história do início de tudo isso aqui. Sei que existe um certo radicalismo com relação a isso [a diferença arquitetônica entre os dois prédios, um antigo e outro moderno]. Mas penso diferente. Tem que preservar o que precisa ser preservado, mas é preciso também oferecer algo novo que atenda as novas necessidades. Precisávamos de um auditório e da parte administrativa, além da área de museu. E na concepção procurei fazer algo que não interferisse no outro prédio. Quem chega já vê logo a Rampa, fiz numa forma geométrica limpa. Um prédio não interfere no outro.

Interesse internacional
Já recebemos cônsules e embaixadores aqui. Eles se surpreendem demais. Porque a história da aviação é interessante. E tem os americanos também, que se interessam pela história da guerra, dos descendentes deles que estiveram aqui. Cônsules, embaixadores, todo esse povo que vem aqui eu aproveito pra pedir um avião antigo. Não precisa voar, só queremos que fique em exposição. Já entramos em contato com embaixadas para conseguir acervo e o pessoal está interessado.

A coluna capitolina
A Coluna Capitolina, que está no Instituto Histórico e Geográfico do RN, acho que ela devia vir pra cá. Porque ela está relacionada a história da aviação. O presidente italiano, o Mussolini, deu de presente como forma de agradecimento ao povo potiguar por termos acolhido bem os aviadores italianos [Carlo del Prete e Arturo Ferrarin] que chegaram na praia de Touros. A coluna já passou por diversos cantos de Natal, acho que, com o museu funcionando, deveria vir pra cá.

Por mais acesso ao Rio Potengi
Natal precisa ter um espaço na beira do rio. A cidade perdeu totalmente isso. Trabalho na Secretaria de Turismo e falo há muito tempo de se fazer um calçadão que viesse do Forte dos Reis Magos, passasse por debaixo da Ponte e chegasse no Canto do Mangue. Um espaço controlado, que não fosse aquela coisa cheia de barraquinhas, não, teria que ser um lugar tranquilo, pra se levar o filho, de repente pescar. Eu acredito que esse acesso ao rio Potengi valorizaria bastante toda essa área.

Por uma Natal mais gostosa
Natal é uma cidade pequena e muito gostosa. Temos ruas bastante largas, isso é bom. Mas as calçadas são ridículas, cheias de problema, cada morador faz do jeito que quiser, de modo desencontrado. E tem outros problemas. Acho que Natal precisa de umas mudanças. A parte antiga está sendo trabalhada, mas as praias estão desvalorizadas. Muita gente fala das outras praias do Nordeste, mas não dá pra comparar. A topografia de Natal é muito diferente das outras cidades. Temos dunas e inclinação muito forte. O que precisamos aqui é um verdadeiro projeto, grande, algo com conhecimento profundo que finalmente arrumasse nossas praias. Claro, não será construído todo de uma vez porque é caro, mas que tivesse continuidade entre os sucessivos prefeitos. 









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