Um brinde às oportunidades

Publicação: 2019-08-11 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Tádzio França
Repórter

Apesar de ser uma das bebidas mais consumidas no mundo, o vinho ganhou uma aura de glamour que costuma afastar muita gente que deseja conhecer mais sobre ele. Degustar e entender as qualidades dessa bebida parecia algo destinado a alguns poucos privilegiados. O sommelier Kenedy Barbosa Santos está tentando reverter essa lógica elitizada através do projeto “Vinho na Periferia”, uma iniciativa que visa aproximar mais pessoas dessa cultura, através de aulas gratuitas. A ideia é difundir a informação em lugares fora da rota habitual do vinho. Um brinde às oportunidades.
Kenedy Barbosa despertou para uma visão mais aberta do vinho no período em que passou na Escuela Argentina de Sommeliers (EAS): ver enólogos bebendo vinho numa caneca de madeira, sem cerimônia, pompa e circunstância, levou-o a pensar que vinho também harmoniza com simplicidade
Kenedy Barbosa despertou para uma visão mais aberta do vinho no período em que passou na Escuela Argentina de Sommeliers (EAS): ver enólogos bebendo vinho numa caneca de madeira, sem cerimônia, pompa e circunstância, levou-o a pensar que vinho também harmoniza com simplicidade

“A ideia que se passa do vinho na maioria das vezes é de algo muito sofisticado, para poucos. Eu mesmo pensava assim no começo. Mas vi que a realidade poderia ser diferente”, afirma Kenedy, que chegou ao mundo do vinho através de um curso de garçom no Senac/Barreira Roxa em 2008. Graças a isso ele passou por disciplinas básicas como introdução à enologia e harmonização enogastronômica. Aos poucos foi se especializando na área até se tornar um profissional.

Vinho na caneca

O lampejo de uma visão mais aberta do vinho aconteceu durante o período que Kenedy passou na Escuela Argentina de Sommeliers (EAS): ver enólogos bebendo vinho numa caneca de madeira, sem cerimônia, pompa e circunstância, levou o jovem aprendiz a pensar que vinho também harmoniza com simplicidade. “Aquilo me fez pensar que qualquer pessoa pode entender de vinho. Não só quem tem grana pra viajar e beber vinhos caros em taças de cristal”, afirma. Aquilo ficou na cabeça do sommelier, até ele ter condições de lançar uma ação que traduzisse essa ideia.

O projeto “Vinho na Periferia” foi divulgado nas redes sociais de Kenedy, e a recepção foi surpreendente. “Achei que no máximo umas 20 pessoas iriam se interessar, mas 75 se pré-inscreveram. Foi incrível. Mesmo assim, só foi possível formar uma turma com 30 pessoas”, conta. A preferência também foi dada às pessoas que  moram nas Rocas, bairro onde Kenedy foi criado e reside até hoje.  80% da turma é formada por moradores do local.

O curso é composto por cinco módulos de aulas. O primeiro já foi realizado no fim de julho, no IFRN das Rocas, com conteúdo introdutório todo teórico. O segundo módulo será dado no dia 13 de agosto, no restaurante Temaki Lounge. Desta vez a teoria vai se juntar à prática, com taças, garrafas e rótulos a postos. A aula também terá palestra do comerciante Marcelo Chianca, proprietário da Magazzino Vinhos & Cozinha, pioneira na difusão da cultura enóloga na cidade. O restante dos módulos serão aplicados até novembro deste ano.

“Vinho na Periferia” não é a priori um curso de formação de sommeliers, mas de informação e introdução, ressalta Kenedy. Os participantes, segundo ele, têm variadas expectativas. “Há gente que vem por curiosidade, por querer refinar seu gosto por vinho, e também aqueles que pensam nisso como uma profissão e querem conhecer o terreno”, diz. No perfil dessa primeira turma de participantes a maioria tem em média 30 anos de idade. Boa parte está sem emprego, e visa algo no futuro.

Kenedy ressalta que o projeto também visa aproximar os participantes de parceiros como  restaurantes e adegas. No futuro, ele pretende que o “Vinho na Periferia” chegue a outras paragens. “Escolhi as Rocas por ser meu território, mas quero ir para outros espaços em 2020. Mas sempre em lugares cuja realidade está distante da cultura do vinho como se difunde hoje”, diz. A ideia é que o curso não só informe, mas passe a formar também. “É difícil para alguém que está desempregado investir às cegas num curso do gênero. Quero que o projeto funcione como um incentivo para quem deseja encarar a profissão, e sinta que isso também é possível para ela”, afirma.

De garçom a sommelier

A própria trajetória de Kenedy pode ser tomada como uma inspiração aos pretendentes a sommeliers. Para fazer o curso de garçom no Senac/Barreira Roxa, trabalhava de meia-noite às 10h numa lavanderia. Ia para o curso à tarde, após umas poucas horas de sono. Depois foi trabalhar no restaurante do hotel Sehrs, na Via Costeira, onde ficou mais próximo dos vinhos. Três anos depois, foi para o La Brasserie de La Mer, restaurante com a grife do chef Eric Jacquin; em alguns meses foi promovido a maître da casa – um dos mais jovens de Natal na ocasião. Dois anos e meio depois foi para a importadora Grand Cru. Passou cerca de dois anos estudando na Argentina. Atualmente, é consultor e sommelier da Adega Perlage, e do restaurante Temaki Lounge.

O sommelier lamenta que o meio do vinho de qualidade ainda se mantenha bastante elitizado. “Às vezes o próprio segmento coopera para reforçar essa visão”, diz. Em suas aulas ele procura desfazer certos mitos, como por exemplo a de que todo vinho bom é caro. A linguagem que os conhecedores usam também não facilita. Muita coisa é desnecessária. Eu procuro simplificar, para tornar o vinho mais próximo das pessoas”, diz. Segundo ele, a reação das pessoas na primeira aula do curso provou que a iniciativa é promissora.

Refinando o paladar

O assessor executivo Rafael Lopes não pensou duas vezes quando soube do projeto tocado por Kenedy no Instagram. “Vi que era uma oportunidade de ouro. O Kenedy é um sommelier que já tem nome na cidade, portanto, ter aulas gratuitas com alguém do nível dele é um privilégio – ainda mais sendo de nossa área”, diz ele, que é nascido e criado nas Rocas. Rafael afirma que se identificou com a proposta de desmistificar o consumo de vinho, de que conhecer a essência de um bom vinho é algo que qualquer um pode fazer – principalmente quem está fora do circuito de badalação habitual.

Rafael adquiriu o gosto por vinho através dos pais, que sempre gostaram de dar um golinho na bebida entre as refeições. A curiosidade foi natural quando ele se tornou adulto. Mas a coisa pode ir além do paladar, ele tem planos. “Tenho o desejo de abrir um negócio com vinhos futuramente. Por isso quero saber o que estou fazendo, ter um certo conhecimento sobre o assunto antes de poder dar esse passo. Acredito que esse curso pode ser uma excelente introdução a isso”, conclui.


continuar lendo


Deixe seu comentário!

Comentários