Um conto de encontro V

Publicação: 2020-04-04 00:00:00
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Alex Medeiros
alexmedeiros1959@gmail.com 

Meus calções de tecido simples, costurados numa máquina Elgin, ainda exalavam o perturbável cheiro de ureia quando aquela garota apareceu na minha estreita e íngreme ladeira. Eu tinha pouco mais que 12 anos e até então minhas paixões eram potencializadas nos bonequinhos Toddy, no futebol de caixas de fósforo, nas revistinhas em quadrinhos, nos álbuns de figurinhas, nas peladas com bola Dente de Leite e nas sessões vesperais do Cine São José.

O nome me remetia aos filmes de Tarzan e cada vez que ela surgia na casa do vizinho eu ficava imaginando um primeiro contato, eu uma mini versão raquítica do rei das selvas murmurando pra pequena Jane, “mim Alex”. As imediações das avenidas 10 e 12 eram para mim como as terras britânicas de onde veio a bela garota; e ali, no meu pedaço das Quintas, era a floresta onde eu reinava para oferecer os melhores dias das curtas férias que ela passava com os tios.

Na linha cronológica dos meus amores, a moreninha de cabelos índios foi a primeira a alterar minha pulsação cardíaca, a provocar frios na barriga e tremedeiras labiais quando eu tentava balbuciar as palavras certas ou erradas.

Foi a partir daqueles dias que eu passei a explorar as ruas do vizinho bairro do Alecrim. Caminhava a pé, esforço para experimentar a sensação de vê-la, superar tempo e intervalos dos fins de semana que ela passava na minha rua.

Jane teve um belo impacto cultural e didático na minha formação. Foi por causa dela que passei a frequentar também os cinemas São Luiz e São Sebastião, só para estar no seu bairro, me sentir pertinho da casa dela.

Não perdia um só filme de Tarzan naquele tripé de cinemas com nomes de santos. Curtia as aventuras, mas de olhos grelados nas atrizes Maureen O’Sullivan, Brenda Joyce e Dorothy Hart, todas eram a garota do meu coração.

Lembro bem. Tinha os cabelos longos e cheios de noite. A pele morena com a superfície que lembrava as suculentas frutas de dezembro. Chegava no vizinho nas tardes de sexta ou nas manhãs de sábado, e eu contando as horas.

As casas eram ligadas pela mesma parede, como ainda são as tantas residências dos bairros populares. Tudo que se falava num lado o outro escutava. E eu praticamente pressentia a chegada dela até pelo seu cheiro.

Eu que sempre rejeitava revistas da Disney, cultuava apenas desenhos com formas humanas, como os cowboys, índios super-heróis, passei a ler edições do Mickey e Tio Patinhas, comprados pelo tio dela, ficando assim por perto.

Seu corpo adolescendo a cada semana, dava a ela uma beleza de sacerdotiza grega num biotipo de deusa indígena, nos meus idílios uma versão da virgem dos lábios de mel, que eu acabara de ler durante o último ano do primário. 

Acho que naqueles anos de era uma vez alguns verões, ela não percebeu que havia uma batalha amorosa por sua atenção, entre eu e o garoto da casa da frente, meu saudoso amigo Júnior, que tentava impressioná-la com dindim.

Eu e ele praticávamos traquinagens, mas quando a gatinha aparecia assumíamos postura de guerreiros dos seus caprichos. Até hoje, quando folheio revistas de Tarzan, a menina do Alecrim surge em perfume na parede.

Jogada
Gastar R$ 37 milhões improvisando estádio como hospital de campanha não é mesmo a melhor jogada de combate ao coronavírus. É dinheiro que pode reforçar os hospitais da rede pública que há muito precisam de verbas.

Equipamentos
Como no debaixo da calamidade pública vale levantar grandes somas – sem falar na gorda verba enviada pelo governo federal – é mais que lógico o reforço dos hospitais já existentes. O próprio plano de contingenciamento aponta isso.

Bilhões
No Diário Oficial da União, da última quarta-feira, foi publicada a MP 938 que autoriza o governo federal a liberar R$ 16 bilhões para os fundos de participação dos estados e municípios por um período de quatro meses. 

Um caos
Sabemos que nas guerras todos os outros problemas se apequenam, mas a batalha contra a praga chinesa não pode ser usada para esconder o caos na saúde pública. Por maior seja a herança, Fátima Bezerra tem cumplicidade.

Demissões
Um grupo de grandes marcas do mercado elaborou e lançou o manifesto Não Demita, conclamando todos a evitarem ao máximo alimentar o desemprego. A tal segunda onda já avança pelas cidades brasileiras e é preciso contê-la.

Golpe
O empresário Flávio Azevedo postou dois textos no seu perfil do Facebook denunciando a Credicard por lançar débitos fantasmas no seu cartão e de impor empréstimos compulsórios sem sua autorização. E o golpe tem até juros. 

Eleições
O blogueiro Bruno Giovanni, que aparecia entre os três favoritos nas pesquisas para prefeito, desistiu do projeto político. Pelo andar da carruagem do horror, o day after do coronavírus vai terminar impondo o adiamento da eleição.

Hipocrisia
Aviso às candinhas das redes sociais. Não sofro da hipocrisia do corporativismo para aplaudir tudo que jornalistas nacionais fazem. Quem quer ter preferência política que assuma abertamente e não engane os leitores.

Venezuela
Do procurador-geral dos EUA, William Barr, defendendo intervenção na Vanezuela: “O país está infectado com corrupção e nenhuma instituição funciona, apenas pessoas de alto escalão se beneficiaram nesses 20 anos”.

Venezuela II
Navios da Marinha americana foram enviados por Donald Trump para reforçar o combate ao narcotráfico no Caribe, que é liderado por Nicolás Maduro. Os EUA já indiciaram o ditador e a Casa Branca descobriu nova rota do tráfico na região.