Um Conto de Encontro XXV

Publicação: 2020-09-03 00:00:00
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Alex Medeiros
alexmedeiros1959@gmail.com

Foi um ano de virada na minha jovem vida aquele de 1983, quando deliberadamente resolvi mudar o azimute e me afastar da militância política, pelo menos no contexto coletivo e partidário, já que mantive articulações pessoais com figuras mais experientes, em especial o sociólogo Lincoln Moraes e o jornalista Miranda Sá. Contribuíram imersões literárias anarquistas e as notícias do jornal Movimento sobre a repressão comunista lá na Polônia.

Além desses aspectos eminentemente políticos, surgiram também as percepções filosóficas a desconectar meu gosto pelas artes da velhaca visão rasa das ideologias de igrejinhas. Cada vez eu priorizava mais os movimentos poéticos e as incursões musicais através das letras. No meio do ano, planejei com Jorginho Macedo (Jorge Banda) um rolé para Belo Horizonte com visita ao Festival de Inverno de Diamantina, além de uma parada em Sete Lagoas.

Partimos em julho, num ônibus da viação São Geraldo. Eu vestia uma camisa com a logomarca do “Solidarnosc”, numa estampa impressa por Venâncio Pinheiro. Foi pra camisa que a garota apontou, sorrindo, quando eu me sentei.

Sua poltrona era na frente da nossa; ela viajava com uma moça tipo irmã mais velha. Jorginho pegou a janela, eu fiquei na paralela com ela, e antes do ônibus dar partida já estávamos os quatro tagarelando, tomando cerveja e fumando.

Quando a noite caiu sobre a estrada meu amigo tirou o violão da bagageira e viagem ganhou trilha sonora com as quatro vozes quase bêbadas cantando qualquer coisa da MPB, de Fagner a Rita Lee, de Milton a Alceu Valença.

O fuzuê que fizemos no carro foi uma antítese do clima tétrico do navio do filme “E La Nave Va”, que Fellini lançaria no final do ano e que eu veria com ela no escurinho do Cine Rio Grande, aninhados do jeitinho que iniciou na viagem.

Os cabelos extremamente negros e lisos, cortados ao estilo de Glória Pires, que na época fazia sucesso na novela Louco Amor, fazendo par com Fábio Junior. Eu estava com 22 anos, ela com 19, e juntos fumávamos pelos quatro.

Depois das primeiras esfregadas e dos primeiros beijos no silêncio da madrugada móvel, debaixo de toalhas, tivemos o primeiro café da manhã juntos, num restaurante de estrada, acho que em território pernambucano.

Jorginho também aproveitou a escuridão para uma convergência carnal com a acompanhante, ele que não era afeito a discursos amorosos, mas tinha uma coleção de gírias para distribuir afeto. E aí viramos quase uma banda em turnê.

Eu carregava nas canções da trilha da novela de Glória Pires, onde se destacavam “Nosso Louco Amor”, da Gang 90; “Dom de Iludir”, com Gal Costa; “Eu Te Amo”, de Chico Buarque; e “Só de Você”, de Rita Lee. Ela se derretia.

Sua aparição na rodoviária de Natal foi um unguento curativo para as dores que eu tinha de uma ausência, distante em São Paulo, e que prometera ir a Belo Horizonte me reencontrar. E aquele encontro iria me deixar restabelecido.

Na gíria da época, aquele idílio juvenil foi uma puta viagem, uma overdose de prazer literalmente sem parar, sobre quatro rodas. Nos separamos no Terminal de BH, na Praça Rio Branco, num beijo diante de um outdoor da TV Manchete.

O canal dos Bloch havia sido inaugurado no mês anterior e a vinheta com o som do filme “Contatos Imediatos de Terceiro Grau” ficou rebatendo no meu ouvido como um sinal da presença dela durante toda a permanência em Minas.

O talento virtuoso de Jorginho o levou a dar aulas na escola do Clube da Esquina e a tocar nas noites mineiras e após Diamantina voltei para Natal. Reencontrei minha “Glória Graúna” e depois de Fellini tivemos dias de doce vida, até desaparecermos um do outro. 

Créditos: Divulgacao


Prova-panfleto
Vazia, insossa e escorregadia a nota do Marista tentando explicar o panfleto esquerdista travestido de teste. Os icônicos irmãos Ludovico, Canon e Ambrósio estarão pensando que a escola se chamará Companheiros Marista.

Remake
Com o despejo de Wilson Witzel e a prisão do Pastor Everaldo, o PSC vai repetir a dose jurídica na eleição municipal, escolhendo a ex-juíza Glória Heloiza como candidata à prefeitura do Rio. Apoiada por Witzel e Everaldo.

Maconha
A CNBB anunciou sua oposição ao PL 399/2015 que autoriza plantio de maconha em casa e pede que Rodrigo Maia tire de pauta. Há teses de que óleos à base de “cânhamo” foram usados por Jesus para curar os enfermos.

Máscara
O cânhamo é anagrama de maconha e muitas vezes citado na Bíblia. E Gutenberg, o inventor da imprensa, imprimiu dezenas de bíblias em 1455 com papel de cânhamo. Dizem que no Apocalipse “a máscara é a marca da besta”.

Há 8 anos
Nota que publiquei em 2012: “Acendeu a luz amarela na campanha. O voto do povão parece não demonstrar fôlego para a fase crucial. O alto índice de rejeição na classe média e o apoio acanhado ao PMDB puxam para baixo”.

E hoje
A nota reescrita agora seria assim: “Acendeu a luz amarela na campanha. O voto do povão parece não demonstrar fôlego para a fase crucial. O alto índice de rejeição na classe média e o apoio acanhado ao PT puxam para baixo”.

Cine Henfil
A cidade carioca de Maricá inaugurou em 29 de junho um cinema com o nome do cartunista. A pandemia não permitiu uma festa apropriada e ainda impôs o fechamento da casa. Mas no último dia 14 o Cine Henfil reabriu normalmente.

Aldir Blanc
Vem aí o Fest Alter, um evento virtual com música e cinema com foco na Amazônia e em tributo ao compositor Aldir Blanc, reunindo nomes como Mirabô, João Bosco, Capinam, Dori Caymmi, Thiago de Melo, Menescal e Wagner Tiso.




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