Um disco de quase 50 anos renovado

Publicação: 2018-11-02 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Entre os anos 1970 e 1971, o cantor e compositor potiguar Leno, então com 21 anos, gravou no Rio de Janeiro um álbum conceitual de rock, ao estilo setentista, chamado “Vida e Obra de Johnny McCartney”. Dentre as participações, nomes como Marcos Valle, integrantes das bandas Renato & Seus Blue Caps e Golden Boys, além de um tal de Raulzito Seixas – ele mesmo, o Maluco Beleza, só que antes da fama –, parceiro em seis músicas. O trabalho destoava bastante da imagem de garoto romântico da Jovem Guarda que Leno tinha por causa da dupla com Lílian. Dessa forma, a gravadora CBS não se animou pra lançar o disco, ainda mais que cinco das 12 faixas foram censuradas pela Ditadura Militar. Consequência: o álbum foi engavetado.

Na sala de seu apartamento, em Natal, Leno Azevedo curte o LP recém-saído do forno numa parceria Record Collector e Selo 180
Na sala de seu apartamento, em Natal, Leno Azevedo curte o LP recém-saído do forno numa parceria Record Collector e Selo 180

Eis que em 1995 as fitas daquela gravação foram encontradas, permitindo que “Vida e Obra de Johnny McCartney” fosse lançado na íntegra no formato CD, de modo independente, pelo selo Natal Records, do próprio Leno. A tiragem foi pequena, mas o boca a boca transformou o trabalho numa peça cult.

No início de outubro de 2018, quase cinco décadas depois da gravação original, “Vida e Obra de Johnny McCartney” volta a ganhar destaque com o seu lançamento pela primeira vez em LP, em edição especial limitada e numerada, viabilizada através de parceria entre a Record Collector Brasil e o selo 180, que estão vendendo o álbum nos seus sites. A obra está disponível nas versões em vinil branco e vinil preto, trazendo capa e encarte duplo, contendo fotos, entrevista e texto com detalhe sobre os bastidores da produção.

“Fiquei feliz demais com o interesse do pessoal em lançar a obra em vinil. A ideia original era essa, né. E ainda pude participar da produção. Mandei fotos raras para serem usadas no encarte”, conta o Leno à reportagem do VIVER.

“É um disco de rock conceitual, pesado. Gira em torno de um personagem, o Johnny McCartney do título. Em termos de som, antecipou muitas tendências do rock brasileiro dos anos 70 e 80”.

Na época que gravou o disco, Leno era produtor da CBS. Por essa função, ele tinha passe livre para transitar pela empresa, inclusive para testar novos equipamentos. “Cara, confesso que eu era chato. Eu ficava enchendo o saco dos produtores, pedindo para botar mais peso no trabalho dos outros. Então o pessoal me deixou produzir um trabalho meu do jeito que eu queria”, lembra o artista, que correu para o estúdio com uma turma boa de músicos.

“Convidei a banda A Bolha, de rock pesado, para a base. Experimentamos muitas ideias no estúdio. Teve música que precisou de uma grande produção, como 'Lady Baby', gravada em três sessões, uma com a Orquestra do Municipal do Rio, outra com banda de rock e a terceira com uma bandinha de coreto. O disco foi o primeiro na CBS gravado com tecnologia de oito canais. Hoje não é nada, mas pra época fazia uma grande diferença. Até então no Brasil só se gravava com dois e três canais”, recorda o potiguar. Sobre a parceria com Raul Seixas, ele afirma que foi pela afinidade. “Durante aquele trabalho ele foi mostrando o artista que viria a se tornar. Virou o Raul, o personagem que todo mundo conhece”.

Na época que o disco foi gravado a Ditadura Militar censurou cinco músicas do repertório, cada uma por motivo diferente. “O pessoal era muito paranóico. Em 'Sentado no Arco Íris' acharam que a gente estava criticando a religião e pregando a reforma agrária, quando na verdade nos referíamos aos exilados da guerra. Em 'Pobre do Rei' a censura foi dupla. Os militares disseram que o Rei era uma crítica ao general Médici. E a CBS acho que estávamos ironizando o Roberto Carlos, e a gravadora não queriam problemas com quem mais vendia discos na época”, explica o músico.

Leno conta que apenas em três oportunidades subiu num palco para tocar o repertório de “Vida e Obra de Johnny McCartney”. Uma delas foi em 2009, na Virada Cultural de São Paulo. “Fiquei preocupado. Não imaginava como seria a repercussão, porque são músicas que as pessoas não conhecem. Não iria tocar nenhum dos sucessos dos outros disco”, comenta o artista. “Agora quero montar uma banda para fazer uma turnê com esse repertório. Já tenho algo marcado para janeiro em São Paulo”.

Serviço
“Vida e Obra de Johnny McCartney” em LP, em edição especial limitada e numerada. Onde comprar: Record Collector Brasil  e o selo 180.



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