Um gênio para sempre

Publicação: 2020-11-26 00:00:00
Alex Medeiros
alexmedeiros1959@gmail.com

Aprendi cedo a entender como se formata a História, da imprescindibilidade de um fato ter que contar com a visão de uma testemunha. Sem o olho humano não há acontecimento, não há fato, se perde em si mesmo, como o parto de um polvo em fossas abissais. Certa vez, numa tarde qualquer de 1973, um garoto pequenino vestiu a camisa 10 da equipe infantil do Argentinos Juniors e entrou em campo para enfrentar seus coleguinhas do River Plate.
 
Era apenas um jogo de garotos, um evento lúdico. Naquela mesma tarde, milhões de outros meninos também corriam atrás de bolas nas peladas espalhadas pelos cinco continentes. No Brasil, doía a notícia do assassinato de Almir Pernambuquinho, o craque neurastênico, enquanto o rádio tocava Ouro de Tolo e Sangue Latino, com Raul Seixas e Secos & Molhados. E lá na escuridão dos oceanos, polvos pariam seus filhotes longe do olhar humano.
 
No campinho de Buenos Aires, o garoto pequenino iniciava a história da partida, dando arrancadas com a bola presa aos pés. Quando o primeiro polvinho nasceu nas profundezas do Pacífico, ele driblou o primeiro adversário.

A turminha do River Plate sabia que era questão de honra não perder a peleja para os rivais do “Cebollitas”, o apelido dos meninos do Argentinos Juniors. Assim, um pelotão especial partiu para cima do pequeno e afoito driblador.

Um ataque em bloco sempre resolve qualquer parada, dizem os especialistas em caça ao matador. Todos juntos como tentáculos de um ser único. Mas o moleque deu um drible da vaca em um, jogou entre as pernas de outro.

Depois girou o corpinho na corrida e driblou o terceiro com o calcanhar. Deixou todos na poeira da História e seguiu em frente, passando pelo meio de mais dois. Nas ruas do mundo, outras peladas aconteciam com outros meninos.

O pequenino anteviu a chegada dos dois últimos combatentes, entroncados zagueiros que partiram para frear sua corrida. Num dueto de pés, fez a bola dançar entre suas pernas; os adversários paralisados na entrada da área. 

Foi um balé com pouquíssimas testemunhas adultas. E ele com a língua de fora, uma marca particular quando dava um pique, concluiu o passeio e a travessia do campo com um leve toque na saída do goleiro. Tinha doze anos. 

Aquele foi um gol para sempre, mesmo ali não sendo a História, apenas uma partida de meninos, onde todos diziam jogar por diversão. O baixinho dizia que jogar por dinheiro matava as estrelas, pois ele trazia o egoísmo e a inveja.

A bola era apenas a companheira que o rei Pelé tanto enaltecia. E o menino dormia abraçado com ela, e gostava de chutar com a canhota se imaginando Rivellino. Aquele gol marcou os 100 jogos invictos dos “Cebollitas”. 

E como quem escreve a História são adultos, tiveram os meninos que crescer para contar a maravilha daquela tarde perdida de 1973. Todos já eram rapazes quando na Copa de 1986, Maradona driblou metade da seleção inglesa. 

A mágica trajetória culminou num gol para a eternidade. O mundo inteiro boquiaberto, mas o craque – só ele e seus coleguinhas – sabia que aquele gol já estava no seu repertório há 13 anos. Cópia daquele contra o River Plate.

De todos os grandes feitos geniais do craque argentino, um provavelmente jamais será repetido por ninguém. Na Copa de 1990, na Itália, a Argentina encarou a dona da casa com metade do estádio torcendo por Diego Maradona.

Ídolo maior de toda a história do Nápoli, time da cidade homônima que sempre teve problemas étnicos e políticos com o resto do país, o craque atraiu parte das arquibancadas lotadas de italianos, e que abdicaram do orgulho pátrio.

Polvos continuarão parindo polvinhos nas escuridões das águas, mas o futebol vai precisar do desejo dos deuses para trazer à luz dos gramados outros gênios como Maradona, que ontem deu seu último pique, na direção do infinito.

Créditos: Divulgação

Los amigos
Maradona e Fidel Castro ficaram amigos em 1987. Na última ida do craque à Havana, em 2016, o ditador perguntou “viestes se despedir de mim?”. Ele disse “não, mestre”. Castro morreu em 25/11, e agora Diego se vai no mesmo dia. 

Caretão
O careta sempre foi uma figura abjeta, uma carcaça de ossos e vísceras, sem alma, única espécie que habita todas as classes sociais e navega cinicamente no lodo político da direita e da esquerda. Seu moralismo oco é sua máscara.

Drogas
Há quem use a droga para o crime e quem use pra o prazer íntimo, mesmo que seja uma ilusão. Mas conheço a história de muitos consumidores de drogas que fizeram mais pela civilização do que as religiões e o mercado financeiro.

Censura
O Twitter e o Facebook estão censurando postagens que contestem a inviolabilidade do sistema eleitoral no Brasil e nos EUA. No dia da eleição aqui, um pivete português invadiu a central do TSE com um celular de preço popular.

Música
Já em pré-venda o livro “Jards Macalé – Eu só Faço o que Quero”, um ensaio biográfico de Fred Coelho que narra o lançamento do insultuoso disco “Aprender a Nadar”, na barca da Cantareira, em 1974. Saiu pela Numa Editora.

Figurinhas
Informação boa para os fãs das figurinhas de futebol. A editora Panini lançará no começo de 2021 o algum definitivo da Copa América, mas seguirá até lá fornecendo os cromos do álbum “preview” que circula desde o mês de junho.








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