Um homem com o sertão dentro de si

Publicação: 2019-08-27 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter


O escritor e sertanista Oswaldo Lamartine de Faria era um bicho-do-mato, mato seco, um e setenta e dois de altura, corpo franzino, um caboclo, mas um caboclo erudito, sabedor como ninguém das coisas do sertão, da fauna e flora aos costumes e tradições. Seu olhar para aquele ambiente ia longe e profundo, via e ouvia de tudo, e sabia como ninguém narrar aquele mundo, e como sabia!, certamente porque plantara o sertão dentro de si, e não importa o destino, carregava esse mundo para onde fosse.

Dos raros e últimos registros de Oswaldo Lamartine na Fazenda Acauã. O ensaio fotográfico de Candinha Bezerra registra a caminhada pelo seu chão de brotar livros
Dos raros e últimos registros de Oswaldo Lamartine na Fazenda Acauã. O ensaio fotográfico de Candinha Bezerra registra a caminhada pelo seu chão de brotar livros

Açudes, abelhas, a caça no Seridó, a conservação de alimentos, até a faca de ponta, temas tão específicos que ganharam com Oswaldo uma abordagem sem igual, literária e atraente, conquistadora de qualquer tipo de leitor. Gente do quilate de Gilberto Freyre, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz estavam entre seus admiradores, Rachel, inclusive, contou com a consultoria do potiguar para escrever “Memorial de Maria Moura” (1992), e a Globo, na adaptação do livro para a TV, fez o mesmo.

Em 2007, já bastante adoentado, recluso em seu apartamento no 12º andar do Potengi Flat, em Petrópolis, distante léguas e léguas do chão rachado “de onde fez brotar livros” (como certa vez disse o jornalista e amigo Vicente Serejo), Oswaldo decidiu o próprio destino com um tiro no peito. Despedia-se deste mundo, mas deixando uma obra inesgotável de legado.

Próximo dos 100 anos de seu nascimento, a serem completados no dia 15 em novembro, o VIVER aproveita para lembrar aqui e agora a vida e obra deste que é um dos intelectuais mais fascinantes da cultura potiguar.

“Sem diminuir a contribuição de Cascudo, Oswaldo foi quem melhor contou a história da civilização sertaneja. Falou de tudo, da fome ao sexo. De 'Os Sertões' de Euclides da Cunha pra cá, conhecia a bibliografia do Nordeste toda. Foi sem dúvida o grande observador do Sertão”, conta Serejo, que tinha Oswaldo como mentor intelectual. “Oswaldo defendia que a estética do sertão era a seca. O verde, tudo bem, é uma ideia universal, mas a caatinga cinzenta, era uma estética própria do Nordeste”.

Serejo tem colaborado com o sebista Abimael Silva (Sebo Vermelho) na tarefa de reeditar os livros de Oswaldo, missão que vem sendo feita desde meados dos ano 90. Segundo Abimael, a obra do sertanista tem ganhado uma fama cult. “Tenho recebido cada vez mais jovens atrás de seus livros. É um dos autores mais originais da nossa literatura. Era tão danado que num livro sobre construção de açudes ele descrevia com detalhes todo o ambiente em que estavam os trabalhadores dessas obras, a vegetação local, os animais”, diz o sebista. “Uma pessoa que andou procurando livros de Oswaldo recentemente foi Jessier Quirino. Comprou pra ele e pra dar de presente”.

Quem também conviveu com Oswaldo foi o jornalista Woden Madruga. Para ele, o Oswaldo era sobretudo um apaixonado pela sua terra. “Oswaldo era um fidalgo, gentil, homem muito generoso, culto, de conversa sempre agradável. Trabalhou um tempo numa fazenda no Maranhão, também morou no Rio de Janeiro, lá costumava se confessar com o Padre João Medeiros Filho, até que resolveu voltar para sua terra e viver na sua fazenda [Acauã, em Riachuelo]. Mesmo longe manteve-se fiel as suas raízes. Era um homem do sertão”, define o jornalista.

Woden e Serejo vão dividir uma mesa sobre Oswaldo na Feira de Livros e Quadrinhos de Natal (FLIQ), que acontece entre os dias 12 e 15 de setembro. Quanto a Abimael e seu Sebo Vermelho, ele adianta que está preparando dois livros para lançar até o final do ano. Um de Oswaldo, que preferiu manter em segredo, e outro de artigos sobre o escritor. E quando for mais perto da data do centenário ele pretende fazer no Sebo um dia de programação.

A poesia: ‘O livro do O’ e alguns fesceninos
A prosa de Oswaldo Lamartine também inspirou poetas, como é o caso de Zila Mamede, Sanderson Negreiros e, recentemente, Adriano de Sousa. Prestes a lançar “Livro de O”, Adriano entrega que o título já faz uma alusão velada ao sertanista. “Escrevi algumas ligadas ao sertão, com referência ao aboio, ao ferro de marcar gado,  ao cachorro de Oswaldo, o Parrudo. Sou um grande admirador da obra dele”, diz o poeta. O lançamento do seu livro será na quinta-feira (29), a parti das 19h, no Abayomi (Tirol). “Independente de não ser ficcionista, Oswaldo é um dos grandes estilistas da prosa do estado”.

Oswaldo Lamartine também enveredou pela poesia como é possível constatar na obra particular “Uns Fesceninos”, editada pelo autor e que posteriormente ganhou uma edição pela Funcarte, em 2008.

Algumas obras de destaque publicadas
“Notas sobre a pescaria de Açudes no Seridó” (1950)

“A caça nos sertões do Seridó” (1961)

“A.B.C da pescaria de açudes no Seridó” (1961)

“Algumas abelhas dos sertões” (1964)

“Conservação de alimentos nos sertões do Seridó” (1965)

“Vocabulário do Criatório Norte-Rio-Grandense” (1966), com Guilherme de Azevedo.

“Encouramento e arreio do vaqueiro do Seridó” (1969)

“Açudes dos sertões do Seridó” (1978)

“Ferros de Ribeiras do RN” (1984)

“Apontamentos sobre a faca de ponta” (1988)

“Uns Fesceninos” (Poesia)

Estudos recentes sobre Oswaldo aguardam publicação
A vida e obra de Oswaldo Lamartine rendeu várias estudos. Dois em especial abordaram com vastidão o universo do intelectual. E são trabalhos recentes e que aguardam por publicação em livro impresso. Trata-se de “Areia sob os pés da alma” (2015), tese de doutorado da jornalista e poeta Marize Castro,  e “O sertão de Oswaldo Lamartine de Faria – a biografia de uma obra”, do jornalista e pesquisador Gustavo Sobral (disponível no site do autor).

Em sua pesquisa, Gustavo foi até o Rio de Janeiro para tentar descobrir na correspondência de Rachel de Queiroz algo revelador sobre Oswaldo, uma vez que a  cearense e o potiguar trocaram cartas durante o processo de escrita de Rachel em “Memorial de Maria Moura”. Segundo o jornalista, esse papel de consultor revela a biblioteca do sertão que Oswaldo era. Em um dos documentos encontrados, a escritora cearense é taxativa: “No Brasil, ninguém entende mais do sertão e do Nordeste do que Oswaldo”.

Mas Gustavo alerta para algo grave. A obra completa de Oswaldo praticamente não é possível de ser encontrada no Rio Grande do Norte. “Nenhuma instituição pública do RN possui a obra toda. É um fato lamentável. Mas seus livros estão espalhados pelo mundo, encontramos livros até em bibliotecas nos Estados Unidos. O Sebo Vermelho reeditou inúmeros títulos. Enquanto existirem os livros, há esperança”, relata o pesquisador. “Meu trabalho foi biografar sua obra. Na ausência da obra completa no RN, quis mostrar que Oswaldo Lamartine tem uma vasta publicação, desconhecida do público maior e não especializado, e que precisa ser registrada e, é claro, lida”.

Já o trabalho de Marize aprofunda a obra de Oswaldo em aspecto biográfico. E, falar do sertão oswaldiano é, segundo a jornalista, lembrar alguns trabalhadores simples, sertanejos que trazem em si o saber prático herdado de várias e várias gerações atrás. “Cinco mestres de ofício ensinaram a Oswaldo tudo do sertão, como selar, fazer barragens, caçar abelhas, pescar em açudes e rastrear. Pedro Ourives, o seleiro; Zé Lourenço, o fazedor de barragens; Chico Julião, o caçador de abelhas; Bonato Liberato Dantas, o pescador; e Olintho Ignacio, o rastejador e vaqueiro-maior das ribeiras de Camaragibe”, cita a escritora. Ela também conta que alguns livros de Oswaldo realmente servem de consulta para antropólogos, sociólogos e pesquisadores em geral, mas até mesmo esses “possuem a escrita límpida e inteligente”. Nas suas palavras: “a linguagem de Oswaldo é certeira, concisa, genuína”.

Quanto à dimensão de Oswaldo na cultura potiguar, Marize lembra de algo que Cascudo proclamava, que era “a importância da ligação do ser humano com o lugar onde nasce, dizendo que quem não tiver debaixo dos pés da alma, a areia de sua terra, não resiste aos atritos da sua viagem na vida, acaba incolor, inodoro e insípido, parecido com todos”, conta a pesquisadora. “Isso, definitivamente, não ocorreu com Oswaldo Lamartine. Sempre que ele mais se distanciava geograficamente de sua terra, mais ela o permeava emocionalmente. No Rio de Janeiro, onde viveu décadas de sua longa vida, o Seridó, no interior do Rio Grande do Norte, permanecia a bússola que o guiava e fazia com que ele escrevesse livros definitivos sobre a cultura do homem desse sertão”.

Plaquete
De conteúdo inédito, está para sair a plaquete “Abraço”,  constando bilhetes trocados entre Oswaldo e o amigo Helio Galvão. Organizado por Dácio Galvão, o material encontra-se em tratamento digital.



Colaborou: Cinthia Lopes, Editora


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