Um homem entre paixões, dissabores e ideias

Publicação: 2017-08-11 00:00:00 | Comentários: 0
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Sheyla Azevedo
Especial para o Viver

Quando se lê uma autobiografia é como se o autor estivesse abrindo a porta de sua casa, nos convidando para sentar na sala de estar, onde ficamos bastante confortáveis. Mas alguns autores vão além. Em Conexões da Vida – Uma Antropologia da Experiência, temos um anfitrião que nos convida a adentrar por outros cômodos dessa casa íntima e experimentarmos outras sensações, além do prazer de ler. Em alguns momentos, até mesmo nos leva à janela para que possamos vislumbrar a paisagem histórica que circundou essa casa. Edgard de Assis Carvalho está de volta a Natal para lançar seu mais recente livro, neste sábado (12), no restaurante Flor de Sálvia, a partir das 19h, na Avenida Afonso Pena, 507, em Petrópolis.

Professor da PUC, Edgard de Assis Carvalho é figura constante nos corredores e salas de aula da UFRN, pela sua ligação com o Grupo de Estudos da Complexidade (Grecom) e também de laços afetivos com algumas pessoas, em especial a professora Conceição Almeida. Segundo ele mesmo explica, Conexões da Vida começou em 2004, ano em que sofreu um sério atropelamento, causando-lhe diversas fraturas. Mas naquela época ele escreveu Virado do Avesso uma espécie de “ajuste de contas parcial” consigo mesmo. “O relato foi um pretexto para falar da minha subjetividade (o atual). Sou um outro homem desde então. Meus 35 anos de análise são fundamentais para essa empreitada.

Edgard de Assis Carvalho: Confissões íntimas do homem e pensador
Edgard de Assis Carvalho: Confissões íntimas do homem e pensador

A matéria-prima do Conexões foi o conjunto dos meus diários nos quais registro sonhos, decepções, amores. E claro, minha vida acadêmica, a Universidade, os dissabores com a fragmentação. Finalmente consegui entrelaçar vida e ideias, essa sábia recomendação de Edgar Morin, que carrego comigo como um talismã”.

Foram quatro anos para escrever esse livro, cujos capítulos são divididos assim: Sombras, Simetrias, Descontinuidades e Ardores, prefaciado pelas amigas Norma Telles e Conceição Almeida, em cujo trecho dizem: “Contrário à patologia da ordem, compartilha com o leitor desordens e escolhas da vida, metamorfoses e circunstâncias que lhe permitem viver”. Também para elas, Edgar é um homem sem meias palavras e que se recusa a “autocretinização acadêmica”, expressão de Edgar Morin, com quem conviveu em Paris, durante seu pós-doutorado. O livro é cheio de confissões:

 “É assim que me sinto hoje: com várias faces obscuras, lunares, mas com vontade de resistir à barbárie do pensamento que se espalhou pelos quatro cantos da Terra. Trata-se de um dilema subjetivo que esta narrativa interior, cujo caráter confessional é evidente, pretende expor, revivenciar, recuperar. Não é uma autobiografia linear, nem um diário íntimo, mas uma vida narrada sem anteparos, censuras, ressentimentos. (p. 69).”

 Aliás, o autor está longe de querer mostrar apenas um memorial frio que recheia um homem como se ele fosse apenas os livros que leu, os artigos que escreveu e as teorias que lhes dão lastro. Prova disso é que a brilhante carreira acadêmica está diluída entre os mais diversos acontecimentos de sua vida. Talvez muita gente não saiba, mas o professor pós-doutor em Antropologia poderia ter sido um grande acordeonista, instrumento que tocava com muita desenvoltura na adolescência. Belo e extremamente inteligente, passou uma época de sua vida desfrutando das dores e delícias da noite carioca, namorando mulheres e também homens. Enfrentando a angústia de uma sexualidade dúbia entre um pai truculento e alcoolista e uma mãe – que tem nome no livro, Josephina – que ora fingia não saber, ora era somente cuidados e acolhimento. Como por exemplo, em 1987, ele perdeu um grande amor, acometido pelo vírus HIV, e uma noite antes da fatídica notícia, ela lhe preparou um sofisticado jantar e celebraram a cumplicidade e o acolhimento que só mãe e filho podem experimentar num momento de dor, regados a espumante e vinho do porto.

Editado a quatro mãos por Marize Castro e Helton Rubiano, o livro traz ilustrações botânicas sofisticadas de Carl Ludwig Blume

 “Batia a cabeça pelos longos corredores e me perguntava porque aquilo tudo tinha que acontecer comigo. Cheguei a pensar na homossexualidade como um crime e na AIDS como castigo. Logo depois afastei esse espectro de culpa e sofrimento (...). Vi-o pela última vez em 29 de outubro de 1987, um dia antes de sua morte: tinha emagrecido mais ainda, estava praticamente cego, os sarcomas aumentando e espalhavam-se pelo corpo. (...) Não conseguia pronunciar nenhuma palavra. Olhei seu corpo inerte, peguei na sua mão, e logo fui instado a sair de lá, pois minha presença não era bem-vinda e tinha que ser breve. Contive o choro naquele triste apartamento familiar, mas logo sucumbi às lágrimas.”

Quando indagado sobre a coragem e dignidade de falar sobre sua sexualidade, e de não fazer dessas revelações algo constrangedor para si ou para os outros, Edgard respondeu: “Eximir a sexualidade da narrativa não seria honesto de minha parte. De coração aberto, falei de minhas experiências sem nenhuma ponta de censura. Meus amores – felizes ou infelizes, vivos ou mortos – me ensinaram a viver, mesmo que a tragédia da AIDS tenha dizimado um deles, talvez o mais intenso de todos. Minha reputação – sem aspas – é algo consolidado a duras penas. Não foi fácil bater de frente na fragmentação, imaginar uma Universidade polifônica,  aberta a fluxos desejantes. Por isso, dedico o livro a meus amores passados presentes e futuros.

Em 1969 Edgar de Assis Carvalho, simplesmente por distribuir um jornal de universitário chamado “Resistência”, foi preso pela Ditadura. Embora não descreva a estadia no cárcere, os interrogatórios e as torturas que viveu como uma ferida aberta – se comparando a outras histórias de que ele ouviu falar de outros presos políticos – não foi um episódio facilmente palatável. “Minha prisão em 1969 foi algo traumático. Imaginei que minha vida chegara ao fim. Depois dos julgamentos, me senti animado a resistir mais ainda. Talvez por isso, tenha decidido fazer o pos-doc em Paris em 1979. Talvez por isso, em 1980, conheci Edgar Morin pela primeira vez. Isso está no livro também. Ditaduras militares são sempre regressivas. Estados populistas também. Não sou pessimista, daí porque ainda permaneça na Universidade, mas não sei até quando. Com meus orientandos estabeleço um diálogo de reconhecimento e não um monólogo de autoridade de um suposto saber. Falta humanidade na Academia, observância cultural, como afirmava Wittgenstein ao se referir aos processos culturais. Minha sensibilidade advém das artes em geral, pois os imaginários estéticos são mais livres do que a linguagem fria das teorias e conceitos”, diz ele, sempre num tom afável, como quem sabe das coisas e que as coisas devem ser ditas.

De resto, melhor o leitor ir atrás. A leitura é uma antropologia de um homem, mas também de seu tempo, das teorias vigentes, e de grandes pensadores que passaram por sua vida.

SERVIÇO
Lançamento: Conexões da Vida - Dia: 12 de agosto (Sábado).
Hora: 19h. Local: Restaurante Flor de Sálvia, Avenida Afonso Pena, 507, Petrópolis.

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