Um Jabuti para Alice Carvalho

Publicação: 2016-11-18 00:00:00 | Comentários: 0
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Carlos Alberto dos Santos
Professor Visitante/Ufersa

Em certo dia do início de 1955, um menino de 8 anos timidamente senta-se em uma carteira dupla na pequena sala de aula no fundo de um quintal em Areia Branca. A proprietária da casa, professora Chiquita do Carmo era diretora do Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra, e fazia daquela pequena sala sua escola particular. A professora da Escola era Alice Carvalho, jovem esbelta, simpática e muito competente. O menino chegava com um ano de atraso. Sua mãe resolvera que ele só iria para a escola sabendo a cartilha e a taboada. Percebendo isso, a professora Alice resolveu que naquele primeiro ano o menino estudaria matérias do segundo ano e a ajudaria a tirar dúvidas dos seus colegas de turma. O menino se viu na condição de monitor no primeiro ano de sua vida escolar.

Aquele ato da professora Alice balizou toda a vida docente daquele menino, desde quando aos 15 anos começou a dar aulas particulares de matemática. Sua desenvoltura nos processos de aprendizagem e coragem no enfrentamento de desafios têm a marca daqueles primeiros anos do curso primário. Aos 16 anos aceitou o desafio de “Seu” Arlindo Castor, vizinho que dirigia a revista de uma associação de esperanto, para resenhar o livro de Bertrand Russell, “ABC da relatividade”. A ousadia beirava a irresponsabilidade juvenil, mas a autoconfiança impregnada pela professora Alice era ratificada pela sensibilidade de “Seu” Arlindo.

Olhando em retrospectiva percebe-se que o caminho estava alinhavado: monitor aos 8 anos de idade, professor aos 15 e escritor aos 16. O curso da vida se fez realidade quando, de aprovação em aprovação o menino se fez homem. Do exame de admissão no Colégio Marista de Natal, ao vestibular na Escola de Engenharia da UFRN, curso que abandonou para se graduar em Física na PUC-RJ; de professor colegial no Atheneu e Churchill a orientador de pós-graduacão (UFRN, UFRGS, UERGS, UNILA, UFERSA) a imagem serena da professora Alice vem lhe acompanhando como um anjo da guarda, o que quer que signifique  esta expressão.

Mais do que cientista durante décadas, foi sempre vocacionado para a docência e a divulgação do seu saber. É na divulgação científica que se vê realizado pelo desafio em transformar complexos conhecimentos em expressões coloquiais, e em compartilhar com a imensa população de não especialistas, os avanços científicos e tecnológicos realizados por poucos.

Quando recebeu a notícia que tinha sido agraciado com o Prêmio Jabuti pela organização do livro Energia e Matéria: da fundamentação conceitual às aplicações tecnológicas, o primeiro pensamento foi dedicar o Prêmio à Professora Alice Carvalho.

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