Um lugar especial no Chile

Publicação: 2017-12-03 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Aos 80 anos, Diógenes da Cunha Lima tem em seu currículo duas notáveis trajetórias:  uma no campo jurídico e outra literária. Escritor, advogado e presidente da Academia Norte-rio-grandense de Letras, ele rodou o mundo em busca de aperfeiçoamento profissional e por prazer. Nascido em Nova Cruz, esse potiguar é um cidadão do mundo.

E do mundo, um lugar é especial para Diógenes: o Chile. O país andino aparece em sua vida nas mais diversas formas. Além de destino para ampliar horizontes, o lugar é representativo por ser terra de um de seus poetas prediletos, Pablo Neruda, a quem travou uma espécie de conversa imaginária na obra “O Livro das Respostas”, em resposta ao “O Libro de las Perguntas”, do autor chileno.
Rua Chile
Um charmoso imóvel, em formato de sobradinho na rua Chile, foi adquirido e restaurado pelo escritor

Por essa forte relação com o pais sulamericano, Diógenes acabou se tornando cônsul honorário do Chile em Natal, função que assumiu por 10 anos. E em Natal, o escritor potiguar misturou seu interesse pelo país de Neruda ao carinho pelo bairro da Ribeira, local onde viveu suas desventuras boêmicas durante a juventude.

Antes chamada Rua do Comércio, a hoje Rua Chile – embora não tenha nada de relação com o país de lá, a não ser o nome – é onde Diógenes empreendeu seus ideias de recuperação do patrimônio histórico da cidade. Em meio a um movimento de revitalização da Ribeira, ele adquiriu na rua Chile a casa onde viveu o poeta potiguar Ferreira Itajubá e restaurou o imóvel com fins de transformar em espaço cultural. O local já foi o famoso Jatobar, com perfil literário, e atualmente vem ganhando ares artísticos, sob os cuidados do artista visual Novenil de Barros.

Nessa entrevista a TRIBUNA DO NORTE, Diógenes detalha sua relação com esse território abstrato que supera o desenhos geográficos, que vai do Chile a rua Chile, partindo da via rente o rio Potengi, até chegar ao cume da Ribeira, tropeçando em versos, figuras do passado, perguntas e respostas.

O livro das respostas

Veríssimo de Melo sabendo do meu interesse por Neruda um dia me procurou para falar de “O Libro de las Perguntas”, publicado postumamente pelo autor e que até então eu não conhecia. Veríssimo me desafia a responder algumas daquelas questões do livro já que Neruda dizia que as perguntas eram irrespondíveis. Comecei a responder, fui me encantando e cheguei a 311 respostas. Fiz umas oito versões até me contentar com a última, a que publiquei “O livro das Respostas”. Foi uma questão de espiritismo. Neruda tinha baixado para conversar comigo. Tem duas edições e várias tentativas de publicações, inclusive no Chile, com traduções em espanhol e alemão.

Pergunta mais difícil

Tinha uma pergunta que eu não conseguia responder. Neruda perguntava de que servia a melancia quando a estão assassinando. Respondi, com humor negro, “A boca vermelha da melancia constata: o seu sorriso foi feito a golpe de faca”.

Cônsul do Chile em Natal

Meu entusiasmo por Neruda talvez tenha me levado a isso. Ele também foi cônsul do Chile, embaixador. Foi uma figura apaixonada pelas coisas de seu país. Comigo houve uma indicação de José Agripino a seu irmão embaixador Oto Maia e assim eu fui convidado. Participei de encontros nacionais de cônsules. Tive que resolver problemas também. Como não havia na cônsul na Paraíba, atendia pessoas que vinham de lá também. Foram mais de 10 anos como cônsul do Chile, tendo na porta do meu escritório o escudo do país.

Chuva de poesia no Chile

Uma vez fui com Nilson Patriota e Geraldo Batista para uma reunião em Santiago, de poetas do mundo. Era uma espécie de cimeira da poesia universal. De frente ao Palácio de la Moneda, havia poetas recitando sob holofotes de várias direções e de um helicóptero que jogava pequenos cartões. Foi a primeira vez que vi uma chuva de poesia.

Arte chilena em Natal

Também no Chile tive um encontro com Ida González, diretora da Fundação Pablo Neruda e uma das maiores pintoras do Chile. Lembro que ela esteve em Natal quando eu tinha fundado com Paulo de Tarso Correia de Melo uma galeria de arte, talvez a primeira de Natal, ficava na praça João Maria. Fizemos uma exposição de Ida aqui, ela ainda mocinha.

Rua Chile

A Rua do Comércio (hoje Rua Chile) me chamou a atenção logo de cara porque foi lá que morou Câmara Cascudo, se não me engano, na casa de nº 6. Também tinha a casa onde nasceu e viveu o poeta Ferreira Itajubá. Fiquei encantado pela art nouveau da fachada, comprida, alta. Passei por lá e vi que estava caindo. Funcionava uma oficina no lugar. O teto estava arriando, as paredes estavam carcomidas. Tentei que a prefeitura ou Estado desapropriasse o prédio, mas não consegui. Então comprei. Não foi barato. E restaurei. Pedi ao arquiteto Paulo Eider que fizesse a mostra da restauração.

Primeiro carro alegórico de Natal

Ferreira Itajubá não só teve uma poesia de grandeza no RN como teve uma vida fantástica. Professor que resolve participar de um circo, vai para o interior, aprende todas as funções, desde ser mágico, equilibrista, palhaço. Fez tudo que tinha direito nessa vida. Encantava as mulheres de alto nível da cidade, até as prostitutas da Ribeira. Era uma figura notável. Fez o primeiro carro alegórico de Natal e colocou Cascudo, rapaizinho, como deus apolo.

Itajubá em Touros

Nilson Patriota escreveu um trabalho interessante. No mundo todo o lugar que tinha mais importância pra ele era a cidade de Touros, que era o umbigo do universo. Mas num de seus livros ele deslocou Ferreira Itajubá pra lá, como nascido em Touros. Morreu dizendo isso.

Itajubar

Depois de restaurado o prédio, implantou-se lá o meu querido amigo José Augusto Vale, que fez, com o meu apoio, um bar, chamado Itajubar. Esse bar também era literário. Por lá recebi o presidente da Academia Brasileira de Letras, poetas de fora, como o cearense Virgílio Maia e muitos outros. Depois existiram tentativas de aluguel com coisas que não me agradavam e hoje está novamente sob a liderança de José Augusto Vale, que mantém o perfil cultural do espaço.

Beira de cais

Penso que a Rua Chile é lugar de boemia como toda beira de cais no mundo. De Nova Iorque a Lisboa, você verá alternativos e vida cultural nesses locais de história. Em Natal, a Ribeira não seria diferente.

Poema sobre a Ribeira

Minha relação é com a Ribeira como um todo. No bairro vivi um bom período da minha boemia. Me formei na Faculdade de Direito da Ribeira e lá comecei a ensinar, como professor. Eu gostava do Teatro (Alberto Maranhão), tinha encantamento por ele. Fiz muitos amigos. Vivi a noite de lá, nos bares e cabarés. Fiz um poema dedicado ao bairro em meu primeiro livro. Cascudo fez o prefácio e sabia uns versos decorados: “Porque na Ribeira, Só o que passa, Permanece”. Minha paixão só aumenta com o passar do tempo com as lembranças da minha juventude.

Canguleiro notáveis

Não devemos esquecer que tivemos um canguleiro, que eram os habitantes da Ribeira, como presidente da República: Café Filho. Além dele, passaram pela Ribeira pessoas com anedotário fantástico, como Zé Areia. Havia outra figura notável na cidade, o “Conde de Miramonte” João Alfredo Pegado Cortez. Ele dizia que o coração de Natal era o Beco da Quarentena.

Fachadas coloridas

Uma das primeira coisas a se fazer para melhorar a Rua Chile é cuidar da limpeza, depois da iluminação, de modo a valorizar as fachadas dos melhores prédios. A iluminação também ajudaria da segurança, que é o terceiro ponto a ser levado em conta. O poder público também deveria restaurar e melhorar alguns prédios com colorido vivo. Essa é uma questão de governo que não pode deixar de ser feita. Natal é, do Brasil, a cidade turística do futuro.

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