Um lugar no paraíso

Publicação: 2017-08-06 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

É rodeada pelo pela imensidão do Oceano Atlântico, há mais de 267 km de distância da costa potiguar, que a natalense Zélia Brito se sente em casa. Mais precisamente, no Atol das Rocas, reserva biológica marinha a qual Zélia tem se dedicado há 26 anos. Foi lá, naquela ilha de corais em formato de anel, com cerca de 360 km² de extensão, vivenciando a solidão humana em suas variáveis, que ela encontrou a força enfrentar um de seus maiores dramas: o alcoolismo.

Se por um lado ela estava distante da civilização, por outro ela se viu abraçada pela natureza selvagem, banhando-se em piscinas de águas cristalinas, lidando de perto com espécies variadas de tartarugas, aves e outros animais. Desde 1991 atuando no local, Zélia se tornou chefe da reserva em 1995. São tantos anos de atuação que dá para dizer que ela é uma legítima atolense, algo para poucos, já que o acesso ao Atol das Rocas é permitido a somente 70 pessoas por ano.
Zélia já chegou a passar 70 dias isolada no Atol
Zélia já chegou a passar 70 dias isolada no Atol

Além de proteger o espaço, Zélia desenvolve pesquisas com os ambientes e as espécies nativas e visitantes, estuda a qualidade do ar, as mudanças climáticas, além de fazer o monitoramento ecológico. Ao TN Família ela falou sobre a vivência no Atol, dando detalhes dos percalços e as belezas, lembrando dos medos e dos momentos de graça. “O atol é tudo para mim: minha inspiração profissional, o lugar que eu escolhi para cuidar, é tudo que me fortalece, é o amor da minha vida. eu sinto que temos uma afeição recíproca, conheço os bichos e alguns deles me reconhecem”, afirma.

Quais foram as suas primeiras reações ao chegar no Atol das Rocas?

De medo do desconhecido daquele mar oceânico e de encantamento por todas as lindezas que eu estava vendo no céu, no mar e nas ilhas. Foi mais que amor à primeira vista, foi desejo de estar. Mas no início foi bem tenso. Tinha muitos barcos de pesca na área, eu sentia medo , mas não deixava que tomassem conta de mim. Se eu fraquejasse, não voltaria, esse é meu mantra até hoje.

Qual foi o seu maior tempo de permanência na ilha?

Eu sou a que restou trabalhando no Atol desde os tempos em que a gente acampava em barracas. Já fiquei quase 70 dias sem comunicação com o mundo, sem energia elétrica, sem muitas condições. Era raiz, não era Nutella não. Eu chorava quase todos os dias para me fortalecer. Não podia deixar as emoções tomarem conta de mim porque não tinha para onde correr. Era se sentir um naufrago ou uma xerife do mar, então optei pela segunda opção e busquei sobreviver as intempéries, os riscos, as ameaças de pescadores que agiam ilegalmente dentro e fora do atol, além das saudades continentais.

Como você descreveria o lugar?

O Atol é um dos ambientes marinhos mais bonitos do Brasil. É um local voltado para a proteção integral da fauna e flora, não tem uso comercial e por isso não é agredido pelo homem, Então a paisagem é de um ambiente selvagem no meio do oceano, quase ao natural.

O que mais lhe marcou durante todos esses anos de vivência no lugar?

O Atol é um ser marcante, tudo de bom ou de ruim que acontece marca muito porque o isolamento contínuo faz com que as situações e os sentimentos sejam canalizados ao extremo. Mas, o que mais me marcou foi ter tido a oportunidade de ajudar a salvar pessoas que naufragaram ou que estavam à deriva, todos resgatados com vida, pescadores e velejadores. Eu sempre digo que trabalho arduamente pela preservação do Atol, mas principalmente com amor ao próximo.

Como é essa experiência do isolamento?

Eu trabalho em equipe, mas gosto de estar só quando os trabalhos se encerram. São até cinco pessoas que ficam na estação por um mês, é uma relação muito próxima e direta. Gosto muito de andar sozinha por horas, de poder decorar tudo ao meu redor, adoro cantar e conversar com os bichos. O ser humano é adaptável, o isolamento não quer dizer solidão. Mas o Atol exige força mental, física e espiritual, quem não tiver essa vibe, não consegue ficar bem.
Zélia Brito se sente em casa no Atol das Rocas, onde trabalha há 26 anos
Zélia Brito se sente em casa no Atol das Rocas, onde trabalha há 26 anos

Qual foi seu maior medo no Atol?

Eu sou movida a medos, por isso as coisas dão certo. Não gosto de arriscar o que tem potencial para dar errado. Geograficamente estamos isolados, o acesso é apenas marítimo e as menores distâncias são Fernando de Noronha (148 km) e Natal (266 km). Temos que trabalhar com segurança máxima, tentando cada vez mais diminuir os riscos. Se o mar está bravo, cancela o mergulho. Se tem barco ilegal, permanece perto do rádio e do acesso a internet para comunicar em tempo real a equipe do Icmbio/Natal e a Marinha. Se tem temporal, evitar sair além da cobertura por causa dos raios. Tudo tem que ser pensado, são os medos que me mantém viva e que me deixam em alerta sempre.

A experiência no Atol das Rocas foi importante na sua recuperação do alcoolismo?

Quando estava fora do Atol,  eu me transformava em  um ser alcoólico e isso passou a me dominar. Resolvi dar um ponto final e ser apenas a Zelinha do Atol. Não bebo nada alcoólico há 18 anos e devo isso a força do meu amor pelo Atol, que me fez olhar para mim. Eu não podia e nem posso fraquejar, aquele lugar carece de cuidados eternos, eu não podia arriscar não poder voltar. Já perdi amigos por causa do vício, morrer assim nunca fez parte de mim.

O que mais mudou no Atol desde o início do teu trabalho, em 1991?

O lugar era bastante ameaçado e explorado pela pesca ilegal. As populações de peixes, crustáceos, moluscos vem crescendo cada vez mais. É maravilhoso acompanhar a recuperação de um lugar que já foi tão castigado. Também mudou o local em que vivemos, pois o Icmbio e a Fundação SOS Mata Atlântica fecharam uma parceria e hoje a nossa moradia é uma casa de madeira com três quartos, uma cozinha, energia solar, internet via satélite. Temos melhores condições de trabalho e apoios externos que garantem o patrulhamento e o desenvolvimento de novas pesquisas. O Atol está em evolução e é gratificante saber que colaboramos com essas mudanças positivas.

Quais as suas maiores preocupações?

A exploração indevida de seus recursos naturais, o lixo marinho que chega nas correntes marítimas e a presença de embarcações ilegais, além do risco de contaminantes por estar perto de uma rota de navios de grande porte. A legislação ampara muito bem a unidade de conservação, mas temos que estar sempre lutando para não deixar que ela seja burlada.

Como fazer os brasileiros se interessarem mais pela conservação do Atol das Rocas?

As pessoas tem que entender que muitos dos mares já não estão para peixes, tartarugas, baleias, lagostas, golfinhos, etc. O Atol é um santuário de milhares de vidas e tudo isso se deve a não exploração antrópica. É um lugar bastante sensível e qualquer uso que não seja voltado a conservação, irá colocar em risco um dos poucos ambientes livres de tudo aquilo que o ser humano necessita para sobreviver.

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