Um mulato pernóstico

Publicação: 2020-12-05 00:00:00
Ivan Maciel de Andrade                                                                                                            
Procurador de Justiça e professor da UFRN (inativo)

Existe hoje um sentimento generalizado, na maioria dos países, não só de condenação como de repulsa a qualquer manifestação de racismo. Por isso mesmo, projetando-se o olhar para o passado, torna-se quase inacreditável o ataque racista sofrido por Machado de Assis no auge de sua carreira literária. Seu algoz foi Sílvio Romero, um erudito e brilhante crítico e historiador literário. Tudo começou quando Romero publicou a sua “História da Literatura Brasileira” (1888) e dela excluiu Machado de Assis. Nessa época, Machado já tinha publicado cinco romances, entre eles “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1880-1881), e quatro livros de contos (dois deles, “Papéis Avulsos” e “Histórias sem data”, recheados de imortais obras-primas). Além de vários livros de poesia e algumas peças teatrais. 

Romero desancava habitualmente Machado através da imprensa. Mas resolveu concentrar as suas diatribes num livro: “Machado de Assis – Estudo comparativo de literatura brasileira” (1897). A essa altura, Machado já publicara o romance “Quincas Borba” (1891). Hélio de Seixas Guimarães registra que Machado de Assis foi descrito por Romero “como pobre, pouco escolarizado, tímido, gago, mulato e sua obra sem qualquer traço explícito de engajamento patriótico, parco talento descritivo e baixo investimento na pintura da natureza local”. A artilharia pesada era, contudo, de ordem pessoal.

Romero chamava a atenção para “o fato de Machado de Assis não possuir diploma, ter instrução limitada, ‘de princípio demasiado parca’, numa referência à origem pobre do escritor, o que teria feito dele um funcionário mediano, para não dizer medíocre”. Incomodava Romero que Machado, considerado por ele “genuíno representante da sub-raça brasileira cruzada”, não se submetesse “à sua condição de mestiço” (sic). Romero interpretava essa posição literária sobranceira de Machado “como afetação, quase impostura, o que teria repercussões na obra, a seu ver marcada pelo artificialismo”.

Tentava enquadrar Machado, então, num estereótipo depreciativo, burlesco, de caráter racista: “mulato pernóstico, de modos afetados, afrancesados”. 
Como discerne Hélio de Seixas, Romero não se conformava mesmo era “com o fato de Machado ter escrito o que escreveu sendo mulato, sem se curvar ao que chama de ‘moléstia da cor’, ‘nostalgia da alvura’, ‘despeito contra os que gozam da superioridade da branquidade’”. Um mulato, vivendo em período escravagista, sobrepor-se a todos os literatos com quem convivia construindo uma obra que se tornou pelo talento atemporal e universal? 

O ódio de Sílvio Romero a Machado de Assis era movido por um profundo ressentimento. Machado escreveu, em 1879, um ensaio intitulado “A nova geração”. Nele, analisa os jovens poetas que estavam surgindo. Entre eles, Sílvio Romero. A avaliação de Machado sobre a poética de Romero é de uma contundência demolitória: “No livro do sr. Romero achamos essa luta entre o pensamento que busca romper o cérebro e a forma que não lhe acode ou só lhe acode reversa e obscura: o que dá a impressão de um estrangeiro que apenas balbucia a língua nacional”. Ou seja, o mulato pernóstico desprezou qualquer atitude de conveniência e proferiu um julgamento corajoso, isento e devastador.    









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