Um museu para nossas memórias afetivas

Publicação: 2018-05-18 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Uma cidade pode ser vivenciada em cheiros, cores, sabores, sons, paisagens, em encontros e desencontros, em descobertas imprevistas no meio da rua. Essas experiências deixam marcas que ficam registradas na memória de cada um. Em Natal, um novo projeto pretende promover o compartilhamento dessas lembranças individuais, de modo a compor uma narrativa nunca vista antes da capital potiguar. Trata-se do Museu da Memória Afetiva da Cidade do Natal (Mmac), um museu virtual com acervo construído a partir de relatos em texto, áudio ou vídeo, além de fotos, disponibilizados pelas pessoas sobra sua relação com a cidade.

Da igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos se tem uma bonita visão do rio Potengi. E ambos são fontes de memória, patrimônio e meio-ambiente, por isso a escolha do local para o Seminário Museu, Cidade e Memória
Da igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos se tem uma bonita visão do rio Potengi. E ambos são fontes de memória, patrimônio e meio-ambiente, por isso a escolha do local para o Seminário Museu, Cidade e Memória

O Museu é uma iniciativa é do Instituto Casadágua e conta com a parceria do escritório MAGA (arquitetura e urbanismo) e do Espaço Duas (fotografia). A iniciativa é um desdobramento do projeto “De Fora Adentro: Cartografia dos Sentidos”, criado em 2010 pelo antropólogo e artista visual Maurício Panella, do Instituto Casadágua. A realização do Mmac conta com patrocínio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura (Djalma Maranhão) da Prefeitura de Natal, da Potiguar Turismo e da Arena das Dunas, e apoio do Sebrae/RN e do Hotel Safari. O lançamento oficial do Mmac será feito por meio do I Seminário Museu, Cidade e Memória Afetiva, que ocorrerá nos dias 22 e 23 de maio, na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, na Cidade Alta.

Segundo Panella, o Mmac visa estimular as pessoas a conhecer a cidade pela experiência de outras pessoas. “Percebi ao longo do processo do “Cartografia dos Afetos” que o público participante interagia com o mapa de modo a compartilhar suas referências da cidade. Isso gerou um referencial da cidade com base na memória, que nos levou a criação do museu virtual”, diz o antropólogo, que espera quebrar o estigma de que o natalense é um povo sem memória. “A nossa intenção é fazer com que o natalense perceba a história da cidade. A memória de um povo é construída por cada um de nós”.

O museu começará do zero. As memórias vão aparecendo no mapa da cidade à medida que as pessoas começarem a colaborar com seus relatos, o que pode ser feito de maneira fácil pelo site do museu. Todo o processo é bastante intuitivo. O site vai “perguntando” sobre sua memória, identificando se será um texto, uma foto, um vídeo ou tudo isso junto; também perguntará onde e quando ocorreu a lembrança. Será possível inclusive dar um nome à memória postada. Após essa etapa, sua memória afetiva da cidade do Natal estará disponível e poderá ser vista, lida, ouvida e descoberta por qualquer pessoa do planeta.

“Quem visitar o site do museu verá logo de cara um mapa da cidade. As memórias estarão localizadas com cores distintas em seus respectivos locais”, conta Panella. “O trabalho dialoga com o que de mais contemporâneo se pensa em se tratando de museu, que é não somente o viés tecnológico, mas o de posicionamento crítico de maneira a estimular a transformação social”.

Importância social
Panella conta que a partir das memórias afetivas se pode descobrir coisas incríveis, como experiências de infância que hoje não se tem mais. O antropólogo cita por exemplo um relato que ouviu sobre a Cidade da Esperança, que antigamente as crianças brincavam nas dunas do bairro, e hoje, devido a insegurança, não se brinca mais. Outro relato é sobre o Rio Potengi. “Numa das apresentações do Cartografia dos Sentidos no Passo da Pátria encontramos memórias diferentes com relação ao Potengi. Enquanto os pais lembravam das brincadeiras no rio, das competições de barco, seus filhos falavam dos corpos que aparecem boiando”, comenta.

“Esse trabalho de memória afetiva ajuda a perceber o que já se perdeu de relação com o espaço urbano. E isso implica em questões de Segurança Pública e de Meio Ambiente”, argumenta Panella. “Ter conhecimento da própria história fará com que lutemos para melhorar nossas condições sociais”.

Embora ainda não esteja disponível para ser acessado, o Museu já está rendendo frutos. O Mmac será trabalhado nas escolas de Natal numa parceria com a Secretaria Municipal de Educação. “Vamos preparar roteiros de metodologia para os professores de português, história, geografia, artes e informática trabalharem atividades em sala de aula”, anuncia Panella.


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