Um pé de tomate

Publicação: 2020-09-16 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação

Agora faço como o grande e genial Rubem Braga: sou um homem da cidade. Cheguei aqui com nove anos e vim de um mundo árido, chão salgado, aldeia de salineiros e pescadores. Por isso tenho um certo encantamento com esses morros cobertos de árvores e com as pequenas vidas que espontaneamente brotam aqui e ali. Como um pé de tomates minúsculos chamados cerejas. Arredondados e verdes, que vão avermelhando quanto mais amadurecem nos galhos. 

Há dias acompanho a sua vida, num vaso aqui da varanda. Maria, nossa assessora para assuntos assim, separou umas poucas sementes e fez o plantio. Pediu terra e adubo, e garantiu que o pé de tomate nasceria e daria frutos. Como contestar, se era tão pouco o que pedia para o milagre prometido? E o tomateiro foi crescendo, crescendo, verde e viçoso, embora nos dias de muito sol revele um certo e justo cansaço, de folhas derreadas, tristes, de um quase desânimo. 

Foi então que lembrei da crônica que titula um esquecido livro de Rubem Braga: ‘Um pé de Milho’. Originalmente lançado em 1948, pela editora José Olympio, só vários anos depois pôde voltar às livrarias com o selo da sua Editora do Autor. É a edição que tenho aqui, nesta caverna de livros velhos. Um campo verde, na parte superior da capa, e ocupando mais espaço a figura de um pé de milho desenhado a crayon por um Anísio Medeiros que não sei quem é.

O grande cronista conta sua história sem relevância nenhuma, mas comovente. Nasceu num monte de terra trazido pelo jardineiro. No começo, tinha os traços sem realce de um pé de capim. Depois, pareceu cana-de-açúcar, até que finalmente revelou-se sem mistério: era um pé de milho. Chegou a dois metros, numa altivez sem orgulho, e passou da altura do muro até que um dia, por seu próprio mérito, pendoou as espigas, como registra com esmero o velho Braga. 

O pequeno milagre agora se repete aqui. Não conhecia, pelo menos tão de perto, um pé de tomate. Já vi e comprei muitos tomates e devo ter visto tomateiros por ai, mas não assim, de um jeito tão íntimo. Braga escreve nos dias natalinos daquele ano de mil, novecentos e quarenta e oito, que mudou o Natal, mas não muito. A agitação das pessoas, o comércio frenético sob a ordem dos presentes e diante de um Cristo que renasce já sem emocionar a sua humanidade.

O pé de tomate vai nos dando os tomatinhos pequenos e vermelhos. Ainda bem que não é dezembro e não há, como escreve Rubem Braga, o olhar cúpido dos que fazem do Natal uma festa pagã. Aliás, tenho pena da mutilação que sofreu meu exemplar de ‘Um Pé de Milho’. Foi vítima do primeiro dono que apagou seu nome e, certamente, com vergonha quando precisou vendê-lo. E deixou só, como um sinal da nobreza: “...e a simpatia do Rubem Braga, julho, 64”.

DESTINO - Quem pergunta ao ministro Rogério Marinho se ele será candidato em 2022 a governador ou Senado, ele nega. Ninguém sabe se despista a marcação ou se afirma para valer. 

CONVITES - Segundo a mesma fonte, Marinho já teve convites da iniciativa privada, em São Paulo, para missões executivas. Quem tem alma de político sempre cumpre o velho horóscopo... 

CERTO - Fez bem o deputado federal Walter Alves ao aceitar o conselho do pai para não ser candidato a prefeito. Abandonaria o MDB no interior e seria, certamente, derrotado em Natal. 

HOJE - Walter presidiu as convenções do MDB em algumas dezenas de municípios e mantém as bases de sua reeleição de deputado federal em 2022. Resta saber se o quadro não será outro.

CRIME - Já picharam a imagem perfeita do rosto de Câmara Cascudo nos grafites do Beco da Lama. O que revela, por si só, até que ponto chega o vinho azedo da envenenada inveja humana. 

PADRÃO - O Colégio CEI-Romualdo Galvão vem sendo notícia nacional pelo padrão e rigor dos seus protocolos de retorno às aulas. É, justamente, o que falta nas redes públicas de ensino.

CORTEZ - É bom agradecer citações e transcrições da crônica de ontem sobre Cortez Pereira e a defesa da riqueza que representa a Chapada do Apodi. O cronista, ainda comovido, agradece.

ÓDIO - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, sobre o mel amargo do ódio quando escorre nos lábios humanos: ‘Pior do que odiar é servir seu ódio ao prazer venenoso dos outros’. 

BALANÇO - A governadora Fátima Bezerra persegue em silêncio, mas obstinada, chegar ao mês de dezembro com o balanço positivo de 26 meses pagos ao longo dos seus dois anos e mais o fato de ter pago dois dos quatro meses atrasados, mesmo nas agruras da queda de arrecadação.

EFEITO - Esse balanço, a não ser para espíritos sectários, não canoniza sua gestão na medida em que pagar em dia é um dever de quem governa. Mas, credite-se, é um aferidor negativo para quem não cumpriu o dever. O que confere à governadora um inegável poder de argumentação.

RESCALDO - Na sua mesa, resta ainda o rescaldo do incêndio que devorou, na gestão anterior, quatro folhas sem quitação e cerca de R$ 800 milhões engolidos da previdência que, somados aos R$ 200 milhões sacados no governo Rosalba Ciarlini, alcançaram o rombo de um bilhão. 






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