Um país tropical há 50 anos

Publicação: 2019-11-06 00:00:00 | Comentários: 0
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Alex Medeiros
alexmedeiros1959@gmail.com

Rio de Janeiro, meados de 1969, o Maracanã lotado com as torcidas do Botafogo e do Flamengo, o clássico que por quatro anos seguidos vinha impondo humilhação ao time da Gávea. Um jogo abrindo o segundo turno, cujo primeiro havia sido conquistado pelo alvinegro de General Severiano, e que ficaria marcado para sempre como a quebra do tabu e a ascendência da ave urubu como símbolo dos rubro-negros e não mais como imagem pejorativa.

A vitória do Flamengo promoveria também o surgimento de uma das mais belas canções da MPB, País Tropical, que Jorge Ben (ainda sem Jor) compôs inspirado no jogo e embevecido pela paixão clubista. Muitos anos depois ele disse ter composto após telefonar para uma paquera chamada Tereza logo após os 2 x 1 no Botafogo. A moça foi homenageada na canção e também em “Cadê Tereza”, no mesmo LP que ele lançaria em novembro daquele 1969.

Se existiu ou não a “nega chamada Tereza”, a verdade histórica é que o rei do samba-rock namorava na época com a baiana Gal Costa e foi a ela que ele entregou a música para ser cantada no show da casa noturna carioca Sucata.

Com acesso às turmas da Bossa Nova, Jovem Guarda e Tropicália, Jorge não tinha pinimba com ninguém, talvez o único artista a se apresentar nos programas de Elis e Jair Rodrigues, de Caetano e Gil e no de Roberto Carlos.

Aliás, a popularidade musical do Brasil em 1969 era dividida entre o Rei e Wilson Simonal. E foi com o cantor de Sá Marina, sucesso absurdo de 1968, que Jorge foi assistir a um ensaio do show da namorada Maria da Graça.

Um mês depois, Simonal telefonou e convidou o amigo a dar uma passadinha na gravadora. Estava gravada País Tropical, que sairia em julho e ganharia as rádios e as bocas de Norte a Sul. Quando Gal gravou, já era um hino nacional.

Coincidência ou não, a gravação de Simonal começa com uma gargalhada e um discursinho: “em homenagem à graça, à beleza, o charme e o veneno da mulher brasileira”. Nem ele nem Gal jamais insinuaram aquela graça no início.

Neste novembro faz exatos 50 anos da versão do dono, já que Jorge Ben foi o último a lançar País Tropical, numa pegada toda peculiar. As três gravações tocaram pelo Brasil, sendo a de Simonal um vetor de arrebatamento musical.

Quando ouço o hit, em qualquer versão, as imagens de 1969 saltam na memória afetiva, me vejo colando figurinhas, lendo gibis, vendo seriados na TV, atravessando a cidade nos ônibus, as peladas no barro da rua Mário Lira.

O médico e poeta Napoleão Paiva relembra bem: “De todas as emoções, nada igual a Wilson Simonal no palco do elegante América, com suingue que só a ele Deus deu, cantando Moro num país tropical, mó num pá tropi... Genial”.

A tentativa de dar a Jorge e Simonal as suspeitas dadas aos Incríveis e a Dom e Ravel sumiu com o sucesso e com Aquele Abraço, de Gil. Meu mano Graco Medeiros diz que quase se deixou levar pelo patrulhamento ideológico.

“Aquela música me torrava o saco com os versos do Flamengo, mas no íntimo eu gostava, não estava nem aí para as patrulhas que pegavam no pé até de Roberto Carlos e dos Incríveis. Ainda moro num país tropical, patrulheiros”.

A canção é a síntese do suingue e da batida de Jorge, bem representados por Simonal e Gal há 50 anos. Bem disse Caetano: “Jorge é um homem que habita um país utópico trans-histórico, aceito por diferentes tendências musicais”.

Perda
Natal não perdeu Luiz G. M. Bezerra apenas como referência humana, mas também no sentido histórico, por sua abnegação em guardar as memórias da cidade. Como disse o advogado Francisco Nunes, ele viveu para agregar.

Absurdo
A picuinha ideológica do governo está beirando a imbecilidade na questão das ruínas do que foi um dia o hotel Reis Magos. Não fosse a intransigência e a vizinhança do megatério não estaria ameaçada pelo risco de desabamento.

Regalias
O caso dos vereadores presos na Paraíba, após flanarem em clima de férias, deveria ser exemplo para a PF agir também em instâncias maiores, como no Judiciário, MP e nos tribunais de contas, onde férias de 60 dias são vendidas.

Panfletário
O histriônico Marco Antônio Villa foi demitido da rádio Jovem Pan e em poucos dias já estava praticando o jornalismo partidário na rádio Bandeirantes, de onde também já recebeu o boné. Vai fazer revolução no próprio canal do YouTube.

Pesquisa
Números incríveis sobre os usuários de redes sociais em Natal, coletados numa pesquisa encomendada por uma agência de publicidade. O WhatsApp tem a preferência de 93%, seguido pelo Facebook com 59% e Instagram com 46%.

Pesquisa II
O mercado local ganha um novo instituto de pesquisa, o RadarNE, com escritório na Avenida Amintas Barros, em Lagoa Nova. Tem na gerência o executivo Maurício Garcia, com larga experiência pelo Brasil e pela América Latina.

Champions League
Quarta gorda na TV com PSG x Brugge, Real Madrid x Galatasaray, Bayern Munique x Olympiacos, Zvezda x Tottenham, Atalanta x Manchester City, Dynamo x Shakhtar, Lokomotiv x Juventus, Bayer Leverkusen x Atlético Madrid.

Toca Raul
A terceira edição do Toca Raul no Espaço Cultural Ruy Pereira, leia-se Bar do Zé Reeira, será sábado, 9, a partir das 15h30, com shows de Gustavo Concentino & Blue Montain, Luna, Mobydick, Insular, Erivan Lima e Taxímetro.

Surge Banksy
O segredo mais guardado do inglês Banksy, o Midas da arte de rua, acaba de ser revelado, pelo menos em parte. O fotógrafo Steve Lazarides, amigo do artista e que trabalhou com ele como um assessor durante dez anos, tornou públicas algumas fotos do grafiteiro trabalhando, mas sem focar seu rosto.




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