Um palacete à venda

Publicação: 2013-01-18 00:00:00 | Comentários: 6
A+ A-
Yuno Silva - repórter

O centro histórico de Natal ainda guarda verdadeiras relíquias arquitetônicas, lugares onde o tempo se encarrega de fragmentar uma memória que nem sempre pode ser recuperada por completo. A exemplo de outros casarões, restaurados após décadas de abandono, a residência número 398 da Av. Câmara Cascudo (antiga Junqueira Ayres) poderá recuperar parte de seu passado em breve caso a negociação entre a Arquidiocese de Natal – atual proprietária – e a Assembleia Legislativa se concretize. A intenção é que o lugar passe a abrigar o Memorial Legislativo do RN; o assunto ainda não está fechado e o destino do imóvel poderá ser selado no mês de fevereiro. Fechado desde os anos 1990, o lugar foi ocupado pela última vez pela Comunidade Católica Shalom – antes já havia abrigado setores do jornal A República.
Casarão faz parte do conjunto arquitetônico do Corredor Cultural
Praticamente ignorada por pedestres e motoristas que circulam pela principal via de ligação entre os bairros da Ribeira e Cidade Alta, a casa está em ruínas e engana quem tenta imaginar sua dimensão contemplando apenas a fachada: a residência onde morou o ex-governador Tavares de Lyra (1872-1958) no início do século 20, em frente ao sobrado de Câmara Cascudo e um pouco abaixo da Fundação Capitania das Artes, é uma discreta mansão com mais de 500 metros quadrados de área construída. Salas, salões, suítes, subsolo e quartos amplos dominam o ambiente, onde hoje moram morcegos, formigas e cupins. O centro histórico de Natal foi tombado pelo Iphan/RN, em 2010.

De acordo com o Ivan Lira, juiz federal e pesquisador, professor do Departamento de Direito da UFRN e membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN, o imóvel pertencia ao industrial Juvino Barreto, que tinha uma fábrica têxtil onde hoje funciona a agência da Caixa Econômica Federal e cedeu a Tavares de Lyra.  O jornalista e pesquisador Eduardo Alexandre ‘Dunga’ Garcia também acredita na versão que o ex-governador também morou lá: “Tenho uma foto da época em que Tavares de Lyra era governador (1904), onde vemos uma aglomeração de pessoas de frente à casa dele reivindicando mais atenção do Estado quanto aos problemas da seca. Chegaram a pensar que Lyra havia morado no Solar João Galvão, eu mesmo cometi esse engano, mas cruzando registros históricos desfiz o equívoco”, explicou.

Mas há uma outra versão para a moradia de Tavares de Lyra. O arquiteto Paulo Heider, professor da UFRN e servidor da Fundação José Augusto, disse que Tavares de Lyra morou onde hoje é o Solar João Galvão. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico não tem detalhes sobre o casarão, revelando apenas o número do imóvel (398) e as cores predominantes da fachada quando elas ainda eram visíveis: salmão e branco. 

Formigueiros gigantes e cupins infestam os salões do palaceteImóvel pertence à Arquidiocese desde 1979

A reportagem da TRIBUNA DO NORTE visitou a casa na manhã de ontem, com autorização do setor de Patrimônio da Arquidiocese de Natal, e acabou topando com um antigo morador que trabalha há mais de 20 anos na área. “Era tudo bem arrumadinho aqui por dentro, precisava só de reparos na fachada”, disse Manoel Nunes Filho Bezerra, 51, caseiro e guardador de carros que morou na casa nos anos 1990 por mais de um ano. Ele não entrava no imóvel há pelo menos 15 anos, mas vez às vezes de guia. “Na época eu morava no subsolo, mas depois que o pessoal do Shalom saiu vim aqui em cima. Hoje tomo conta de outra casa aqui do lado, mas lembro quando começaram a invadir e carregar portas, pias, louça de banheiro e as grades de ferro”, lamentou.

Segundo documentação arquivada no setor de Patrimônio da Arquidiocese, o imóvel foi adquirido em maio de 1979 pela igreja. Vital Bezerra, responsável pelo setor, consultou atas e contratos e revelou alguns detalhes sobre o histórico da casa: o registro mais antigo arquivado é datado de 13 de janeiro de 1950, quando a então proprietária Idalina Pereira Carrilho passou os direitos para a filha Alice Carrilho de Góis – na época casada com o professor Ulisses Celestino de Goís. “Foram eles que venderam a casa em julho de 1979 para a Arquidiocese”, verificou Vital.

O arcebispo de Natal naquela época era Dom Nivaldo Monte (1918-2006), ele que intermediou o negócio, e a residência foi comprada por 402 mil ‘dinheiros’. O terreno total mede 2,8 mil metros quadrados, mas grande parte é utilizado como praça esportiva para a escola que funciona ao lado – a área que está em negociação com a Assembleia Legislativa possui 715 metros quadrados e o imóvel foi avaliado pela Comissão Permanente de Avaliação da Secretaria Estadual de Infraestrutura em R$ 264.125,03 (laudo de outubro de 2012).

“Inicialmente a Arquidiocese pensou em criar um Museu de Arte Sacra e um Memorial da História da Igreja no RN, mas não dispúnhamos dos recursos suficientes para a restauração. Como nosso projeto acabou não contemplado em um edital do governo federal para instalação de museus, a ideia acabou abandonada em 2011”, recorda Vital Bezerra, ressaltando que a igreja tem total interesse em ceder espaço para o Memorial Legislativo – principalmente devido notificação do IPHAN/RN quanto a necessidade de preservação do patrimônio.

“Estamos na fase final de negociação com a AL, resolvendo questões burocráticas e documentação quanto ao desmembramento do terreno. Queremos ver aquele prédio recuperado e aberto ao público”, ressalta Bezerra, informando que a venda já foi aprovada pelo Conselho Patrimonial da Arquidiocese de Natal.

O caseiro Manoel Nunes viveu na residência nos anos 1990 e lamenta situação atual: Era tudo bem arrumadinho aqui por dentroA reconstrução do Corredor Cultural

A discreta mansão localizada no número 398 da Av. Câmara Cascudo, com 500 metros quadrados de área construída e que pertence à Arquidiocese de Natal desde 1979, retrata as consequências do abandono e da ação implacável do tempo. Suas enormes salas, quase uma dezena de quartos e subsolo estão desabitados há cerca de 15 anos, e a escuridão que toma conta do imóvel torna o ambiente propício para a proliferação de morcegos. No chão, enormes montanhas de areia denunciam a formação de formigueiros em todos os cômodos – o volume da movimentação do solo é tão grande que pode representar riscos para as fundações da casa. As raízes das árvores que brotaram no telhados e paredes externas, que varam o reboco e atravessam vários aposentos, conferem um cenário de filme de terror e/ou de ficção.  

O endereço poderá abrigar Memorial Legislativo, e as negociações entre a Arquidiocese e a Assembleia Legislativa estão avançadas. A estimativa é que até o mês de fevereiro o destino da residência que pertenceu à família Carrilho seja definido.

O lugar está inserido no chamado corredor cultural de Natal, onde se concentram as principais edificações do centro histórico da capital potiguar, trecho que engloba construções de relevância patrimonial entre a Cidade Alta e o bairro das Rocas. Tombado pelo IPHAN-RN em 2010, o corredor tem na Av. Câmara Cascudo sua grande vitrine para imóveis restaurados: a casa onde morou Câmara Cascudo, hoje transformada em museu (Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo); o prédio da antiga Capitania dos Portos, que atualmente abriga a Fundação Capitania das Artes; o Solar João Galvão, transformado pela Fundação José Augusto em centro de documentação histórica; o Solar Bela Vista, espaço cultural mantido pelo Sesi/Fiern; e o palacete onde funcionou a primeira casa legislativa e que hoje é sede da OAB-RN – o único que se manteve ativo e ocupado ao longo da passagem dos anos.

Dos demais imóveis citados acima, o primeiro a ser restaurado, em 1984, foi o Solar Bela Vista. Construído em 1907 em estilo neoclássico, o Bela Vista teve acabamento com materiais nobres vindos da Bélgica, França e Alemanha. Entre as décadas de 1950 e 60, funcionou como um luxuoso hotel para poucos abastados.

A recuperação do prédio onde funcionou a Capitania dos Portos de 1847 a 1972, veio em seguida, no início da década de 1990. Tombado em 1988, apenas o frontão do antigo edifício – também construído em estilo neoclássica – resistiu ao tempo. O sobrado Solar João Galvão foi o terceiro a merecer atenção na Av. Câmara Cascudo: sua restauração durou sete anos, entre 1995 e 2002, e hoje abriga o Centro de Documentação Eloy de Souza. O único imóvel restaurado por particulares foi a casa de Câmara Cascudo, um trabalho que durou de 2005 a 2009. No local, a família de Cascudo montou um museu com o vasto acervo deixado pelo escritor.

Em julho de 2012, a Secretaria Estadual de Turismo anunciou liberação de recursos do Prodetur/NE  para um abrangente programa de reabilitação do Centro Histórico,   ação que visa melhorias, manutenção e restaurações do patrimônio. De acordo com a Setur, a empresa Cunha Lanfermann, do Recife, que irá conduzir o programa, tem 270 dias para elaborar um projeto executivo.





Deixe seu comentário!

Comentários

  • zerepolho

    Um Povo que não preserva seu passado não terá futuro.

  • doroteiaforever

    Parabéns ao repórter. Não conhecia a história do casarão, mas cada vez que passo em frente não deixo de admirá-lo, ficava pensando, se pudesse deixá-lo novamente tal e qual e morar nele um dia(sonhos). Fico feliz em saber que vai ser restaurado, então poderei visitá-lo e conhecê-lo por dentro.

  • vanessafernandes_rn

    Nossa... que matéria bonita! parabéns pelo trabalho de pesquisa.

  • valdirfranco51

    estou muito gratificado com esse verdadeiro documentário, pois só assim o povo revive e conhece um pouco da nossa verdadeira historia norteriograndense, parabens a todos.

  • osirisaraujornn

    Vejo com orgulho as ruinas de nossa história, e com tristeza o despreso dos nossos governantes.

  • lyratavares

    Augusto Tavares de Lyra residiu mesmo no prédio apresentado na reportagem enquanto governou o Rio Grande do Norte 1904-06. Maravilha saber que o local será restaurado e terá vida novamente!! parabéns ao jornalista pelo resgate da história do prédio.