Um príncipe em Nova York

Publicação: 2021-01-24 00:00:00
Alex Medeiros
alexmedeiros1959@gmail.com

Não haverá outro ano como 1977 na mais importante cidade do mundo, nem tantas consequências no âmbito internacional como ocorreram a partir daquele momento em que Nova York verteu lágrimas, risos, amor e glamour. Quando o economista Kenneth Galbraith invadiu as livrarias e o raciocínio do ambiente acadêmico com a sua A Era da Incerteza, a Big Apple experimentou dois choques de tristeza: em agosto, Elvis morreu; em outubro, Pelé disse adeus.

Houve convulsão nacional pelo Rei do Rock e uma multidão lotou o Giants Stadium, em clima de velório, para a despedida do rei do futebol, que fez um gol e repetiu três vezes “love”, numa visão comovente que inspirou Caetano Veloso a batizar uma canção no álbum “Muito – Dentro da Deusa Azulada”, lançado no seguinte, 1978. Nos cinemas, os nova-iorquinos assistiram os filmes Alta Ansiedade, Aeroporto 77, Contatos Imediatos do Terceiro Grau.

A iniciativa de Steve Rubell em abrir em 1977 o Studio 54 teria uma importância musical e comportamental nos EUA e também uma interação com o time de futebol local, o New York Cosmos, comandado por Steve Ross.

O fato de perder Pelé teve, no entanto, dois fatores para otimismo: o Cosmos conquistou seu primeiro título da liga de soccer (hoje MLS) e o italiano Giorgio Chinaglia mostrou que veio para inserir quantidade na qualidade vinda do rei.

A contextual melancolia da torcida na despedida do craque maior foi logo substituída pela empolgação nos muitos gols de Chinaglia. Esta alegria parecia misturar-se às cenas de apologia à cidade no musical New York, New York.

E se Nova York já era o centro do mundo, os dias e noites ganharam dois templos de agitação e glamour. A boa vida acontecia no Giants Stadium e no Studio 54. Em ambos, famosos e anônimos festejavam os gols de Chinaglia.

Era tudo uma só emoção, adversários dançando nos arranques do atacante que veio da Lazio depois de dar o único Scudetto da história do time de Roma, e fãs das estrelas do time bailando sob as luzes da boate de Manhattan.

O Cosmos estava na moda e conquistava o público nova-iorquino, que via no clube uma extensão da grandeza urbana e cultural do lugar. O desfile de astros vestindo o uniforme desenhado por Ralph Lauren era mais que simbologia.

Quando Steve Ross levou a poderosa Warner Bros, em 1971, a conceber o time, pensou bem além do marketing; anteviu um grande negócio envolvendo emoção popular e showbiz. Por isso, tanta similaridade com o Studio 54.

Os jogadores do Cosmos se tornaram algo mais que estrelas do mundo pop. E atraíam Mick Jagger aos jogos, misturando-se aos torcedores no culto ao clube. Já o camarote VIP da equipe no Studio 54 era um altar de adoração.

Ícones como Robert Redford, Muhammad Ali e Andy Warhol se deixavam fotografar ao lado de Beckenbauer e, principalmente, de Giorgio Chinaglia, o artilheiro celebrado pela torcida. E o poderoso Henry Kissinger era um tiete.

Evidente que enquanto Pelé esteve presente na vida do Cosmos, o brilho de Chinaglia ficou ofuscado, tanto pelo lado técnico quanto pelo disciplinar. Ambos não se entendiam bem e isso saltava do clube para as páginas da imprensa.

Mas os deuses quiseram consagrar Giorgio Chinaglia. Pois se 1977 deu a Pelé o único título de campeão nos EUA, ao italiano deu quatro taças e cinco vezes o título de maior goleador da liga norte-americana. E o fez ícone do Cosmos.

São muitas as imagens do culto a Chinaglia nos EUA a partir de 1977, como os jovens com camisetas do Cosmos número 9 nas filas de Os Embalos de Sábado à Noite ou na histórica turnê da banda Supertramp naquele ano.

O menino nascido pobre no País de Gales, que dominou a cidade de Roma com a então frágil Lazio, ouviu uma vez um velho craque galês prognosticar: “Você será mais famoso que Bobby Charlton”. Na Inglaterra, não foi. Mas foi, e ainda é, em Nova York. Hoje ele faria 74 anos.

Créditos: Divulgação

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