Gustavo Lamartine em um rolé pelo coração de Ponta Negra

Publicação: 2017-07-16 00:00:00 | Comentários: 0
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“De dia é Ponta Negra, de noite é Black Point”. A frase de uma das canções mais conhecidas do DuSouto, banda do músico, publicitário e designer Gustavo Lamartine, já explicitava a veneração que ele sempre teve pelo bairro praieiro. “É o lugar mais cosmopolita da cidade”, declarou ele, nascido numa família que tradicionalmente viveu entre Petrópolis e Tirol. Como o próprio ressalta, ele é que foi escolhido por Ponta Negra.

O bairro à beira-mar foi cenário de vários momentos da vida de Gustavo. Nos tempos em que esteve à frente da banda  General Junkie – que não acabou e ocasionalmente volta pra fazer barulho – tocou em vários bares importantes da área. Lugares como o Bali Bar, Vila Negra e Bar do Buraco, redutos undergrounds e marcantes dos anos 80 e 90.
Bairro praieiro mais cosmopolita da capital, Ponta Negra é repleta de significados especiais para o músico e publicitário Gustavo LamartineBairro praieiro mais cosmopolita da capital, Ponta Negra é repleta de significados especiais para o músico e publicitário Gustavo Lamartine

“A coisa funcionava mais na orla mesmo e sempre parecia que a galera era mais alternativa”, lembrou. Até hoje Ponta Negra é um centro movimentador de boêmios de todas as idades e origens. “Ponta Negra já cresceu sendo povoada por pessoas de todos os lugares”, afirma, ressaltando o caráter multicultural do bairro, e a razão de admirá-lo tanto. Bairro boêmio, descolado, diverso e ensolarado, Ponta Negra é mesmo uma área que inspira quem vive de arte. 

Gustavo Lamartine elege Ponta Negra como seu lugar
Gustavo Lamartine compôs três músicas sobre Ponta Negra, em diferentes fases e bandas


Como era a “Black Point" quando você chegou?
Vou a Ponta Negra desde criança. Lembro que ainda era uma praia distante, quase de veraneio, tanto que na hora de ir embora meu pai falava: “vamos voltar pra Natal?”. Depois veio a fase que ia com os meus irmãos. Banho de mar e um caranguejo com guaraná na barraca de Santiago.

Que boa história vivida no bairro você pode lembrar?

Histórias são muitas, principalmente quando comecei a tocar em banda. Estreei na noite no Chernobyll, que era na Praia dos Artistas, mas logo fomos chamados pra tocar no Vila Negra. Depois teve a fase do Tropicália, Bali bar, todos em Ponta. Era um cenário fértil pras músicas que fazíamos. Meu primeiro baseado foi lá, primeira larica também, meu segundo filho... Mas as histórias mais babadeiras mesmo eu posso contar depois (nem sei se tenho coragem) tomando uma cerva no Bar dos Doido.

E os espaços culturais, botecos, lugares "lendários"?

Tem muitos, é praticamente um organismo vivo, sempre em movimento. A boemia do Bar dos Doido, a praça do disco voador, praça do gringos, a galera fazendo um som na Barraca Astral de frente pro pico do surf, reggaezinho no Old Five, no pé do Morro. Tapiocaria da Vila sempre uma MPBzinha rolando. Feiras de artesanato. Capoeira na Vila. No passado tiveram vários espaços “lendários”. Bar do Buraco, Bodega da Praça, O Salsa, que batiza informalmente uma rua até hoje.

Ponta Negra mistura turistas, moradores estrangeiros e natalenses. Como é isso no dia-a-dia?

Ponta Negra cresceu sendo povoada por pessoas de todos os lugares. Quem deixava seus estados e países pra vir morar em Natal acabava no bairro. Os moradores de “Ponta” se misturaram com o mundo e passaram a ter um comportamento diferente do natalense tradicional. O turista se deslumbra, desde a Ponta Negra saudável, limpa, de banho de mar, água de coco e açaí, até a “Black Point” noturna, boêmia e, às vezes, do sexo turismo. Infelizmente o turismo sexual acabou se abatendo nas nossas praias. Primeiro foi a Praia dos Artistas, depois Ponta Negra. Não quero ser demagogo em achar que uma cidade existe sem ter prostituição, drogas e criminalidade, o triste é que isso acabou afastando muita gente da orla.

Que lugares do passada você mais sente falta?

Talvez a Bodega da Praça, na Vila. Era nosso after quando nem se falava em after ainda. Geralmente Pedrinho Mendes tava tocando lá. Quando a noite acabava e o dia amanhecia era nosso endereço certo. Hoje em dia é um supermercado. Posso citar também o Bar do Buraco, uma casa de show perfeita pra 200 pessoas que cabia shows pequenos. Era comandada por Arlindo. Hoje é uma igreja. Barraca Rústico e Pé na Areia eram bares que estavam na orla. Sinto falta de estar em frente a praia. Nesse sentido, o Old 5 e a Barraca Astral trazem o espírito novo de novo.

Ponta Negra tem algo de musical?

É muito musical. Na areia os ambulantes trazem todas as novidades musicais, pop, novo forró, suingueira, brega, reggae, dub e musica eletrônica em geral. Tem também as rodas de samba. De vez em quando você encontra uns senhores que podem te contar uma história inteira no melhor estilo repentista. Se você der um rolé na areia você vai ouvir tudo isso quase ao mesmo tempo.

Como foi que surgiu a música Black Point?

Surgiu em Ponta Negra mesmo, eu voltando pra lá de carro. Durante o dia, ela é  saudável do surf, do banho de mar, das caminhadas, corridas, frescobol, peteca, vôlei de praia, futebol na maré seca. E no decorrer do dia ela vai ficando boêmia, da cerveja, da cachaça, das drogas, até virar a dama da noite. Vara a madrugada sempre e depois acorda de novo no mesmo ciclo.

Ponta Negra aparece em outras músicas do Dusouto ou do General Junkie?

A primeira vez que citei Ponta Negra numa música foi no General. “Quem matou Brigite?”. Brigite era um travesti, prostituta, que fazia ponto no bairro. Um dia ela apareceu morta. Me incomodou o descaso de quase todos com sua morte e até a chacota com o assunto. Resolvi escrever sobre isso. Me lembrava de Brigite chegando na Bodega da Praça, de manhã, depois do expediente, sempre muito bem humorado, conversava com a gente muito à vontade. Com o crescimento do carnaval em Natal, principalmente o mais democrático que é o de Ponta Negra, acabei criando um hino pro bloco “Ia + fiquei”. Nele declaro todo o amor que tenho pelo bairro. Digo que Ponta Nerga ela é linda, me alucina e se, no carnaval, eu não fui pra Olinda, foi por que por Ponta Negra eu me apaixonei. Fico emocionado quando canto pra ela.

A praia de Ponta Negra perdeu muito do interesse dos natalenses?

Acho que ela acaba sendo banalizada por ser uma praia urbana. Mas, olha, com todas as mazelas de uma praia de centro urbano, vamos combinar, Ponta Negra é linda, o banho é maravilhoso, o morro fazendo aquele cenário todo. Eu já fui em muitas praias urbanas e raramente você vê uma tão bela quanto Ponta Negra.

O que você sente que falta no bairro?

Por ser um ponto turístico os garis já fazem um grande trabalho de limpeza todos os dias por lá. Mas a população deveria se conscientizar e parar de sujar tanto. Poderia ter mais segurança também, para as pessoas poderem transitar a qualquer hora do dia de Ponta Negra e da noite de Black Point.



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