Um romancista potiguar pelo mundo

Publicação: 2017-04-11 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter


Um dos mais importantes eventos literários da Europa, o Salão do Livro de Paris, contou com uma comitiva de mais de 30 escritores brasileiros cuja missão era apresentar ao público francês um panorama sobre a literatura contemporânea do país. Dentre os autores, um potiguar pouco conhecido em seu estado de origem. Nascido em Natal, mas há muitos anos vivendo fora do RN, Antonio Salvador participou do Salão do Livro de Paris como convidado, mas também integrou a programação de outro evento importante, a “Printemps Littéraire Brésilien" (Primavera Literária Brasileira), realizado em paralelo na capital francesa, Bélgica, Espanha e Portugal.
Vivendo em Berlim, escritor Antonio Salvador participa de feiras literárias internacionais enquanto conclui seu novo romance
De Berlim, onde atualmente reside, Antonio falou ao VIVER sobre sua participação nos eventos e sobre seu próximo livro “Homem-Número”. A nova obra vai suceder o romance de estreia “A Condessa de Picaçurova” (2012) – vencedor do 17° Prêmio Nascente de Literatura (USP) e finalista do Machado de Assis da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura.

Sobre os festivais europeus, o o escritor diz ser boas oportunidades para conseguir visibilidade internacional, mas não se limitam apenas a esse fator, há intenções pedagógicas no meio. Antonio integrou o Salão do Livro a convite da Université Paris-Sorbonne, por meio do professor Leonardo Tonus (Diretor do Departamento de Estudos Lusófonos).

Já a participação na Primavera Literária partiu da própria Comissão Curadora do Festival. “Fiquei contente em poder participar de um evento literário que, dado o atual contexto da cultura no Brasil, é um evento não apenas literário, mas também político, é uma tomada de posição política”, conta. Dentre as atividades da programação, estão mesas-redondas, debates, lançamentos de livros, leituras, saraus e performaces cênicas. Na comitiva brasileira, ainda participaram Marcia Tiburi, Sheyla Smanioto, Carlos Henrique Schroeder, o também potiguar Estevão Azevedo, dentre outros.

Nas mesas em que participou nos festivais, Antonio pode falar sobre seu primeiro romance e o próximo. Sobre “A Condessa de Picaçurova” ele diz que seu maior intuito era “problematizar os paradigmas do poder, ao mesmo tempo em que levantava questões sobre a própria forma da contemporaneidade”. Já em “Homem-Número”, o autor acredita ser a ideia da performatividade uma inquietação premente no romance. “O número é a performance. A entrada de cada personagem em cena marca o acúmulo de obsessões da personagem protagonista, Regina, e expõe uma contagem progressiva que conduz à erosão total da subjetividade”, comenta. Antonio não é um autor conhecido do circuito literário potiguar e seu foi sugerido ser um pseudônimo, o que o autor desmente.

Você atualmente vive em Berlim. A que deve sua ida ao país alemão?
Vim trabalhar em um instituto de pesquisa alemão sobre a América Latina. Depois emendei minha carreira acadêmica. Gosto de Berlim, me identifico com a Alemanha. Deveria voltar ao Brasil ainda em 2017. Ocorre que com o violento golpe parlamentar de 2016, em circunstâncias tão macabras, meu novo calendário me obriga a permanecer fora do Brasil por tempo incerto. Não voltarei a um país pior do que o que deixei, em 2012.

Como foi sua vivência no RN?
Os meus pais mudaram-se para São Paulo quando eu tinha uns quatro anos. Recordo-me com frequência de uma vizinha muito pobre, de cujo filho eu era amigo – aquelas amizades puras e belas dos primeiros anos. Lembro-me daquela mulher, tão negra, tão boa, tão generosa. Ela andava quilômetros todos os dias, descalça, ia ao rio Potengi, ao mangue, de onde extraía mariscos, caranguejos, e os cozinhava primorosamente. Uma única vez almocei na casa dessa vizinha. Tive a impressão de que ela cozinhou com esmero particular, com requinte, por causa das visitas. Nunca mais me ocorreu comer nada com semelhante apetite. Anos depois, soube que o filho dela, aquele amiguinho de infância, fora assassinado a tiros na frente da mãe. Não há dia em que não pense nesse jogo de xadrez que é o destino.

Sobre o que trata seu próximo romance, "Homem-Número"? Já tem data de lançamento?
O romance está finalizado e agora está na fase burocrática. No livro, a personagem protagonista, Regina, procura desempenhar com fidelidade os papeis sociais a ela destinados, e acaba reafirmando a vida como espetáculo numérico. Isso permite levantar questões sobre se essa trajetória da personagem seria a síntese da vida humana ou o recorte de uma criação ficcional. O que acontece à pessoa humana que se constrói como personagem? Em que medida, a vida na obra ficcional seria uma inescapável realidade? Em que medida, a realidade da vida seria pura ficção? Acredito que essas questões alimentem o romance e a vida fora da página escrita. Dito assim, talvez pareça hermético, mas é um livro com muito humor, como a vida, dependendo da cosmovisão de cada um.

Livros
A CONDESSA DE PICAÇUROVA (Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura/2012)
O ponto de partida da narrativa é o aparecimento fortuito de uma macaca nascida do tronco podre de uma árvore. A condição simiesca, longe de representar qualquer obstáculo, impulsiona o animal rumo à proeminência em meio aos 'humanos'. A condição humana e o pretenso status de superioridade do ser humano frente ao mundo natural entram em colapso. O leitor pode encontrar a personificação dos medos - uma provocação que permite dissipar a atmosfera do absurdo, à medida que a lógica atribuída à realidade é desvelada, ela em si, como fantasiosa.

HOMEM-NÚMERO (Inédito)
No livro, a personagem protagonista, Regina, procura desempenhar com fidelidade os papeis sociais a ela destinados, e acaba reafirmando a vida como espetáculo numérico. Isso permite levantar questões sobre se essa trajetória da personagem seria a síntese da vida humana ou o recorte de uma criação ficcional.


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