“Um talento não se define só pelo curriculo”

Publicação: 2011-10-02 00:00:00
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Renata Moura
Editora de economia

Bilhões de pessoas acordaram no mundo hoje simplesmente porque não morreram na noite anterior. Bilhões se arrastam para o trabalho sem propósito, sem paixão, sem tesão. Poucas pessoas vibram. A tese, que pode parecer dura à primeira vista, é defendida pelo headhunter, ou em bom português, caçador de talentos, Robert Wong.  “Made in China”, mas brasileiro desde os três anos, Robert é apaixonado pela origem das palavras. Missão, Vocação e Descobrir são algumas na lista das que destrincha e que produzem significado diferente articuladas pela voz firme, que conserva algum sotaque estrangeiro. Descobrir qualidades no outro também é uma paixão para ele. Não é à toa que já foi considerado pela revista The Economist um dos 200 mais destacados “caçadores” do planeta na área em que atua. É sobre a caça que deve ser feita por cada um de nós e pelas empresas que ele fala nesta entrevista à Tribuna do Norte, em que também dá outras pistas do que abordará em Natal no próximo dia 26 de outubro, como um dos palestrantes do Fórum Internacional de Gestão, Estratégia e Inovação, que será promovido  pelo K&M Group no Teatro Riachuelo. Na palestra, Robert vai falar sobre a importância de se descobrir vocações, um passo para a realização profissional e, sobretudo, um degrau para o autoconhecimento. Outra palavra que não deverá deixar de fora é talento. Confira a entrevista:

Empresários, profissionais de RH e o próprio governo têm feito coro no Brasil para dizer que falta gente qualificada no país para atender a demanda. Também está mais difícil identificar possíveis talentos?

Na realidade sempre houve falta de talentos. Em qualquer época da historia, não só do Brasil, sempre houve uma lacuna. Não é porque a economia no momento está mais ativa. Mas porque no fundo nossos jovens não são bem treinados e qualificados para o mercado. O que quero dizer com isso é que coloca-se pessoas em funções, em tarefas, não mais apropriadas, não mais adequadas. Então tem gente trabalhando em setores ou em atividades que não são a sua verdadeira vocação. O que nós temos que fazer, sempre, e não só agora que o mercado de trabalho está aquecido, é tentar descobrir a verdadeira vocação e  talento das pessoas. Dados estatísticos mostram que 84% das pessoas não estão satisfeitas ou realizadas com o que fazem. Estão infelizes. Isso é muito estarrecedor. Os jovens escolhem profissões, empregos, que não tem nada a ver com eles.

Qual é a origem do problema?

A origem do problema é que os jovens, as pessoas no Brasil, têm que escolher muito cedo sua profissão. Às vezes por necessidade, às vezes por imposição dos pais, às vezes pela questão da sociedade e às vezes por falta de opção. Então o que temos que fazer, o que é fundamental é  autoconhecimento. É a pessoa se conhecer e saber onde está o seu potencial. A pessoa tem que descobrir sua vocação e  vocação vem do latim, vocare. Vocare é chamar. Então vocação é seu chamado, sua voz interna. Que diz que atividade, que profissão você deveria escolher. Neymar descobriu sua vocação. Joga futebol. Bill Gates descobriu sua vocação, na área de tecnologia. Ivo Pitanguy descobriu sua vocação de médico. Mas quantos outros não sabem o que estão fazendo? Ou estão fazendo atividades que não combinam com sua verdadeira habilidade e aptidão. E quando você descobre – a palavra descobrir é tirar, remover, descartar as coisas que nos encobrem - coisas como crenças, medos, culpa, ignorância, ego, imposições, vemos que tudo o que a gente pode potencialmente ser está dentro de nós. Mas  a gente não descobre.  Não procura dentro. Procura fora.

Qual a estratégia para descobrir essa vocação, para se chegar a esse autoconhecimento?

Descobrir é uma viagem para dentro de si. E você não pode delegar isso a ninguém. É uma viagem de cada pessoa. Ninguém pode fazer essa viagem por você. É preciso entender que mais do que ouvir as vozes externas é tentar ouvir a sua voz interna. A voz da sua vocação, da sua intuição, da sua consciência.   A palavra intuição é uma palavra muito bacana. Eu gosto da etimologia das palavras. Intuição vem de três palavras. “In” de interno, “ção” de ação e a raiz “tui” que vem de Deus. Intuição é a ação de Deus dentro de você. É aquele lampejo divino, é aquele click, aquele insight, que temos de vez em quando. Tudo o que você pode ser está dentro de você, na sua essência, no seu âmago, na sua alma. Então tem que se fazer uma viagem para dentro de si. Um mergulho dentro de si. E tem sinais que ajudam você a saber se está escolhendo a vocação certa.

Que sinais são esses?

Quando você faz uma coisa com total naturalidade. Quando você faz uma coisa sem esforço. Inclusive, a palavra esforço, esforçar, quer dizer “ex-força”, sem força. Quando você tem que suar, batalhar pra fazer, então você não está fazendo naturalmente. Então são coisas que você faz com imenso prazer. Satisfação. Algo que você faz sem cansar. Algo que você faz com excelência. Você não vê tempo, dureza, dificuldade. Você faz com grande vontade e naturalidade.

Num mercado que sabemos que é cada vez mais concorrido, que só os melhores ficam. O ideal é que todos trabalhem fazendo as coisas por prazer, mas nesse contexto de competição extrema, não seria uma idéia meio utópica para as pessoas buscarem suas vocações? Há espaço para todo mundo?

A condição existe, mas a maioria das pessoas publica a manchete que eu falo. Que bilhões de pessoas acordaram no mundo hoje simplesmente porque não morreram na noite anterior. É uma manchete para chocar, mas, infelizmente, é uma verdade. Bilhões de pessoas caíram da cama de manhã, e se arrastam para o trabalho, ou para a escola, sem propósito. Sem paixão. Sem amor. Sem tesão. Pouquíssimas pulam da cama de manhã dizendo: “Uau! Vou fazer aquilo. Que legal!” São poucas pessoas. Então, você falou bem. A verdade no mundo é que vamos tocando a vida. Mas a gente não tem que viver assim. Eu não preciso ser um dos bilhões que acordei porque não morri ontem. Eu quero ser uma daquelas pessoas que pulam da cama para fazer o que quero fazer. Então, não é utópico também. Na realidade, a gente começa com um emprego. Depois do emprego queremos procurar algo melhor, uma profissão. Depois que você acha uma profissão você quer seguir uma carreira. E no próximo passo, algumas pessoas conseguem achar sua vocação. E no topo da pirâmide, os mais abençoados descobrem sua missão de vida. Missão é uma coisa linda. Missão vem do latim “missione” que vem do verbo “mittere”, que quer dizer enviar. Por isso “missionário”, que vem dessa palavra, é uma pessoa enviada para pregar a palavra. O míssil, que também vem dessa palavra, é um artefato enviado para atingir certo alvo. Quer dizer Renata, você, eu, todo mundo foi enviado a Terra para nossa missão. E eu quero crer que essa missão não é simplesmente ganhar dinheiro, encher a pança de comida, fazer farra. É algo muito maior. Que é realizar nossa missão e fazer esse mundo melhor. Mas pouca gente atinge isso. Mas todo mundo tem potencial para fazer isso. Essa é a mensagem.

E talentos de alta performance? Você falou que descobrir a vocação é um exercício interno. Mas os empreendedores, os empresários, os recrutadores estão atentos a características que sinalizem que ali existe um talento. Como identificar essas pessoas? Como perceber que ali na empresa há um talento, às vezes, escondido?

Tem umas características. Acho que uma coisa que você pode notar é alguém que nunca está satisfeito com o que ele já fez. Quer sempre melhorar. Isso é uma atitude proativa. Sempre querer progredir, melhorar, aprender. Outra coisa é uma pessoa com muita dedicação ao trabalho. Você pode ser talentoso, mas preguiçoso também, não é legal. Tem que ser um cara trabalhador. É uma pessoa com visão. Ele não enxerga só o imediato. Ele está sempre olhando lá para frente, onde ele pode chegar. Onde ele pode atingir, almejar. Ele nunca se dá por satisfeito com o que ele atingiu. Um talento nunca é uma pessoa isolada. Ele sempre está querendo compartilhar seu aprendizado. Ele sabe trabalhar em equipe. E ele convive com pessoas também talentosas. Ele é um líder de verdade. Tem muitas outras coisas que você pode notar. Ele sabe se comunicar. Se comunicar não é só falar. Se comunicar é falar e ouvir. Ele se dá bem com pessoas. Ele está atendo às mudanças no mercado. Ele entende as pessoas. Conhece as pessoas, mas, fundamentalmente, ele conhece a si próprio. Ele tem o autoconhecimento. Tem tanto autoconhecimento que ele é capaz de dizer: “Não sei fazer isso. Não quero fazer isso.” Para finalizar, o autoconhecimento te dá a característica mais essencial para o sucesso: autoconfiança. Quem tem isso é um vencedor. Essa autoconfiança é tem que ser baseada no autoconhecimento. Porque autoconfiança sem base no autoconhecimento é lorota. É loucura. É arrogância. Tem gente que fala, “eu sei resolver isso, eu sei fazer tudo”, isso é arrogância. O cara que tem autoconfiança baseada no autoconhecimento sabe dizer: “Não. Isso não sei fazer. Isso não é para mim.”

Todas essas características que você listou me fazem crer que o talento não é só definido pelo currículo, não é?
Não mesmo. O currículo aceita tudo. Eu conheço pessoas que foram a escolas fantásticas, mas não têm essa humildade. Inclusive, humildade tem a mesma origem da palavra humano. Elas vêm da palavra latina “humus”, que é terra. Isso quer dizer que nós, humanos, temos que aprender com a terra. Ser felizes. Ser generosos. Tolerantes, qualquer coisa que você joga na terra ela recebe. Nós humanos temos que reaprender a sermos tolerantes, generosos e humildes. Mas infelizmente, a grande maioria hoje é egocêntrico, intolerante, e quer ser servido e não servir.

 Falando um pouco da retenção desses talentos dentro empresas. Algumas, e eu acho que esse número é crescente, têm apostado em bônus, participação nos lucros, e outros tipos de compensações financeiras para segurar os profissionais, de alguma maneira, imperdíveis. Não só no alto escalão. Em sua opinião, o bolso é o melhor alvo na hora de reter um profissional como esse? 

Não. Não mesmo. O cara que se retém por causa do bolso, do dinheiro, é um mercenário. É a mesma coisa de alguém ser casado, e ficar com o marido ou a mulher porque ele/ela paga as contas. É a pior razão para ficar lá. Eu quero ficar lá por que eu amo a pessoa. Eu quero crescer com a pessoa. A pessoa que está numa empresa pelo dinheiro... Claro que ajuda, mas não é o mais importante. O mais importante é estar lá porque acredita no sonho. Tem amor, paixão pelo que está fazendo. Vou dar um exemplo. Não estou querendo fazer propaganda de ninguém, mas... Mas um determinado banco que não paga bons salários. Paga bem menos que concorrentes. Mas ninguém sai de lá. Porque eles têm uma cultura de agregar pessoas. De a pessoa sentir-se parte do todo, até de uma família por assim dizer. Essa é a verdadeira retenção. As pessoas ficam por vontade, e não por coisas materiais.

 As empresas têm que trabalhar esse ambiente, de modo que os profissionais tenham aquela sensação de pertencimento. De reconhecimento. É isso?

Exatamente. Tem que ter justiça. Tem que ter meritocracia. Tem que ter ética. Ter uma estratégia muito boa. E o mais importante, tem que ter um sonho. Um sonho realista. Possível. E que as pessoas compram o sonho e vão embarcar nessa viagem com você. Você viu na seleção brasileira. Teve uma seleção que não ganhava nada porque tinha um pessoal que estava lá para conseguir um contrato maior, pegar um dinheiro a mais com um parceiro. Teve uma época que os jogadores estavam lá para defender a camisa, por amor a pátria. Estes é que ganhavam.

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