Um tufão chamado Nina Rizzi

Publicação: 2010-03-14 00:00:00 | Comentários: 6
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Nelson Patriota - Escritor

Nina Rizzi visitou Natal no fim da semana passada. Blogueira, militante de movimento reformista do campo, poetisa, Nina Rizzi andou pelo velho Centro, visitou o Sebo Vermelho, conheceu o Beco da Lama com seu corredor de bares repletos de boêmios, bebeu e proseou com um grupo de admiradores hipnotizados pela sua gama de adereços sedutores: juventude, espontaneidade, beleza, civilidade, talento e uma isenção edênica para pecar sem pecar porque tem certeza de que esta é a sua estação e não está disposta a desperdiçá-la.

Moacy Cirne, Jarbas Martins, Abimael Silva, Francisco Sobreira, Nei Leandro, Inácio Magalhães... Todos se sentiram de repente mais joviais, mais vivos, mais recompensados das cobranças da vida, após a visita de Nina Rizzi. É bem verdade que foi uma visita meteórica (precisaria amanhecer em Fortaleza na segunda-feira), mas deixou impressões duradouras, como a sugerir que a beleza caminha sob pés alados (Diana) e é tão indescritível como a Helena disputada por gregos e troianos.

De nossa parte, confessamos com pesar que faltamos aos locais por onde transitou a sedutora Nina (nome é destino, então, e seduzir parece ser o das Ninas). Em compensação, ela nos deixou um exemplar do livro no qual verseja ao lado de outras iguais. Trata-se de Dedo de moça – uma antologia das escritoras suicidas ? desde já o agradecemos ­? que, felizmente, é mesmo o que parece: uma rica metáfora poética de autoras, aliás, bem vivas.

Nina Rizzi aí é descrita, nos créditos finais, como “historiadora, escritora e militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST)”. Outra informação importante: Nina Rizzi é “sem raízes, vive atualmente em Fortaleza [...] edita o blog Ellenismos e escreve no Putas Resolutas. [ ninarizzi@gmail.com]”.

Meditemos nesta informação biográfica dada em boa hora pelo anônimo resenhista do livro: Nina Rizzi é “sem raízes”. Terá isso algo a ver com o fato de a poetisa vasculhar os campos, de quando em vez, junto com bandos de outros desenraizados? Ou se trataria de outra semântica, lapso de polissemia que escapou a quem escreveu? As origens italianas que o sobrenome denuncia talvez pesem para o seu atual (queremos crer, provisório) desenraizamento...

Esse dubitativo conflito botânico, aliás, comparece às primeiras linhas do seu poema “A valise” (antologizado em Dedo de moça: “se, esquerdatária, vivo tanto seca/ posso vender qualquer coisa/ pra que não sucumba, oh dona de adversidades.// uma faca de passar manteiga/ ? a espessa gordura que me cobre,/ me serve de chave, burra, nos pulsos.// se vivo de (me) ver-dura,/ quedo horrorizada ante as carnes mortas.// é nos entretantos, os mais sutis, que me escamo-teio”.

Visto assim de relance o poema, salta aos olhos que as palavras não chegam para o tanto que Nina (Rizzi) tem a dizer. Como se decidir por um único sentido, ante palavras-valise como esquerdatária, seca, ver-dura, gordura, escamo-teio, nessa poética de múltiplos dizeres?

Dedo de moça prossegue a luta de Nina Rizzi em outras trincheiras. Uma delas é nitidamente aquela que em nossos tempos se esforça para consumar a compatibilização entre sexo e gênero, em suas variadas e criativas possibilidades. Aí se destacam sobretudo os poemas ligeiros e precisos de Adelaide de Julinho (parente de um certo e caviloso Julinho de Adelaide). Outra questão lida com o tópico nunca resolvida sobre uma possível escrita de sexo feminino.

Cremos que essa seja uma questão atualmente esquecida das discussões de gênero, talvez devido às inúmeras dificuldades que surgem quando se tenta sexualizar a gramática e a semântica, razão pela qual os estudiosos da linguagem tradicionalmente a têm evitado.

As escritoras suicidas, tendo à frente a militante Nina Rizzi, tornaram-se agora uma referência poética entre nós. Com novos motivos na praça, não é exagero se afirmar que a poesia anda por aí de cara nova...

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Comentários

  • mariannarbotelho

    é fato e é unânime que a nina é uma poeta incrível e uma pessoa linda. adorei a matéria.

  • louvilela

    Prezado Nelson, Você nos brinda com uma bela e importante matéria: Nina Rizzi é uma excelente escritora e alçará voos cada vez mais altos - creio nisso! Parabéns, meu caro! Abraços

  • fnuding

    Acompanho diariamente o trabalho de Nina Rizzi, aqui do Rio de Janeiro, através de seu blog ellenismos, abismado com sua sensibilidade e poder de criação dessa jovem poetisa. A mestria com que Nina Rizzi manipula as palavras, alem de sua lucidez ao criar novas palavras através de junções das ja existentes, dá as mesmas sentidos verdadeiramente extraordinários naquilo que ela se propõe dizer. Isso só faz quem realmente tem poder criativo e sensibilidade. O artigo de Nelson Patriota na Tribuna do Norte, bem que poderia ser oferecido a Jornais de outras praças do Brasil a fim de que pudessemos conhecer melhor o trabalho dessa poetisa nascida em São Paulo radicada em Fortaleza e que seguramente encantaria a todos aqueles que são amantes da Poesia. Francesko Ratzel

  • mirse03

    Justa e bela homenagem feita à querida amiga, poetisa e historiadora NINA RIZZI. Como amiga, tenho por ela profunda admiração e respeito. Ela consegue alegrar qualquer ambiente, brilha como uma estrela. É com imensa alegria que parabenizo a \"Tribuna do Norte\" pelo destaque merecido à Me-NINA! Atenciosamente Mirze

  • ninarizzi

    Nelson, não é porque eu seja uma menina disléxica que li este texto numa só talagada. Não é também porque eu sou vaidosa (e como fiquei)... eu ainda estou as suas palavras dançando aqui na minha cabecinha e ficarei ainda um tempo. Pensando o que responder diante de um texto como esse? Tentando te encontrar nestas linhas, já que, que pena, sua matéria não estava conosco naqueles instantes eternos. Por hora, por ora, eu lhe deixo um beijo desses sem raízes... que não só por condição andam de déu em déu... um cheiro desses que dou aos irmãoszinhos da terra por crer, aleluia: é possível ter irmandade com as gentes.

  • marcelodenovaes

    Nina Rizzi é poeta \"das boas\". E seus texos (e aqui me refiro aos de seu blog individual, \"ellenismos\") são verdadeiros murais de poesia e análises hitórico-estéticas de pintores e outros poetas. Nina é \"intertextual\". Deslinda as linhas (ou cores) de outros, com a mesma desenvoltura com que passeia (e encanta) pelas ruas e bares de Natal. E isso é só o começo. ;) Abraços, Marcelo Novaes