Uma história de alegria e ‘fechação’ nas Quintas

Publicação: 2018-04-08 00:00:00 | Comentários: 0
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Isaac Ribeiro
Repórter

Quem vê o senhor Ubirajara Batista dos Santos, 54 anos, vestido sobriamente, com botas pretas, camisa social e bolsa tipo carteiro  com a alça passada pelo tronco, não imagina que também está diante de uma das figuras mais emblemáticas do show business gay natalense.

Sim, Ubirajara é Jarita Night and Day, personagem desbocado do ator e humorista Bira Santos, que capricha nas roupas extravagantes, no batom borrado e na fechação.
Criador da escrachada personagem Jarita Night and Day, Bira Santos lembra de sua vida no bairro das Quintas
Criador da escrachada personagem Jarita Night and Day, Bira Santos lembra de sua vida no bairro das Quintas

Quando sobe no palco, Jarita não poupa palavras... nem muito menos palavrões. E conquista a todos com seu humor escrachado, porém respeitador. Suas convicções artísticas e sua linha humorística não permitem fazer piadas deletérias a quem está assistindo ao seu show.

Nascido em uma família de onze irmãos, filho de um pai rígido como Lampião, como diz, Bira Santos viveu boa parte de sua vida — 43 anos — nas Quintas, onde estudou, frequentou as primeiras festinhas e conheceu o teatro, integrando grupos de teatro católicos. Isso mesmo!

A idade lhe trouxe serenidade e outros olhares sobre a vida e a arte. Uma coisa, porém, nunca mudou; sua outra metade, sua lilith, “a avó de todas elas”, a maravilhosa, poderosa, Jarita Night and Day!  

Infância nas Quintas

“O bairro das Quintas sempre foi muito tranquilo. O perigo mesmo, a violência, começou há uns dez anos; e nem faz isso tudo. Tinha as brincadeiras de rua, essas coisas todas... Fiz o primário na Escola Maria Montezuma, onde eu comecei indiretamente a questão do teatro, as festinhas, declamar. No final dos anos 80, eu fui estudar no Colégio 29 de Setembro, na av. Felizardo Moura. Eu tinha um professor de Português que montou um grupo de teatro e cada um tinha um papel. No espaço das Quintas, eu nunca fui encaixado em nenhum grupo de teatro. No início dos anos 80 eu participei do grupo de teatro da Igreja do Perpétuo Socorro, que era só trabalho bíblico, era Paixão de Cristo, era José do Egito, essa coisa toda. Mas não tinha essa finalidade teatral. Não tinha a necessidade de conhecer personagem, se aprofundar no mundo artístico. Eram jovens católicos que faziam apresentações. Eu comecei a me aprofundar quando conheci Carlos Nereu (diretor teatral), que começou a me indicar livros, filmes.”

Inspiração


“O personagem Jarita nasceu mesmo de brincadeiras entre amigos. Nos anos 80, quando se reunia grupos gays, todos tinham  um nome feminino. Não era nem questão de show; era brincadeira de turmas. E eu era fã de uma primeira. Meu nome é Ubirajara, eu juntei o Jara a uma parte do nome dessa primeira e deu Jarita. Aí começou! Tanto que eu usei o sobrenome dessa mulher por muito tempo em brincadeiras. Quando a coisa se tornou show, aí me orientaram mudar. Aí, vamos criar um sobrenome. Então se juntou o cabeleireiro Johnny Coiffeur, que disse que eu estava sempre bem-humorado. E na época tinha um personagem na TV, interpretado pela mulher de Lulu Santos, na época, que Scarlet Moon, chamava-se Tatá Night and Day. Aí ele falou que era pra colocar Jarita Night and Day.”

Jarita no palco


Eu comecei a fazer shows em 1986, na Zona Norte. Em 1987, eu venci o concurso das Kengas. Mas onde eu comecei mesmo foi no Atheneu. Um amigo meu, do Centro da Cidade, me chamou para fazer uma brincadeira lá, uma dublagem. Quando chegou lá, o som pifou. Aí e chegou a organizadora avisando que o som tinha sido cancelado e perguntando quem sabia fazer outra coisa. Eu disse que sabia conversar com a plateia. Ela perguntou se era piada e eu disse que não. Então, ela disse que eu estava dentro. Então, o que fazia na praça Sete de Setembro, em frente ao Palácio do Governo de fechação, aí eu entrei no palco e fiz. Só que quando eles viram  uma peruca despenteada, uma pessoa mal maquiada, desdentada,  os 150 alunos começaram a vaiar. Eu sentei na cadeira, comecei a passar batom e eles vaiando. Quando eu achei que estava demais, me levante e disse: 'Quer vaiar o fresco? Jogue pedra no fresco!' Aí eles começaram a aplaudir. Foi aí que nasceu Jarita.”
Jarita Night and Day é a “Kenga” mais famosa do carnaval de Natal
Jarita Night and Day é a “Kenga” mais famosa do carnaval de Natal

Preconceito em família


“Meu pai não sabia. Lá em casa eram 11 filhos. Meu pai tinha uma coisa que dizia: 'Se eu descobrir que um filho meu é gay, sai de casa. Se eu não matar!' Eu saía de casa de bolsa e meu pai achava que eu era barman. Mas nunca abriu minha bolsa. Meus irmãos também não sabiam de nada da minha vida. Nem vizinho, nem ninguém. Era tudo muito escondido. Minha homossexualidade sempre foi muito travada por ter muitos irmãos, meu pai ser esse homem durão. Eu tinha muito trejeitos. Todo mundo falava. Mas era aquela coisa: tinha o crime mas não tinha o corpo. Todo mundo desconfiava, mas nada. Quando veio à tona a questão artística, a a coisa já veio mais para outra visão. Aí eu já não era mais o irmão gay. Eu era o irmão artista.  Foi assim que eu conquistei os meus irmãos. Hoje em dia, com 54 anos, vivo realmente só de eventos e shows. E eles reconhecem que é o meu trabalho. Na minha pessoal ninguém se mete.”

Longe das boates


Há dez anos não faço mais show em boates. No contexto todo, é muita biba nova, tudo bonitinha, tudo magrinha, bem feitinha. Padrão drag. Eu não acho Jarita uma drag. Evito debates. Só digo que Jarita é uma personagem do ator Bira Santos. Eu sou um humorista. Eu tenho uma história de teatro. Então, eu não quero ser colocado só como uma drag, pois eu faço todo tipo de trabalho. Aqui em Natal, só quem faz show de humor mesmo somos eu e Katreva.”

Sem projetos


O Teatro Alberto Maranhão sempre comprou muito show meu. Ano passado fiz show no Teatro de Cultura Popular, mas o espaço lá é muito pequeno. E puxa muito de mim, pois eu só faço um espetáculo por noite. Na minha mente, eu tenho que criar, ter cuidado para não magoar ninguém, e só eu e Deus entendem mesmo. Eu termino o show muito cansado.”

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