Uma joia de sertão

Publicação: 2017-10-06 00:13:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

A ourivesaria potiguar se revigora com uma nova geração de designers que apostam na valorização de temas e materiais do Nordeste. Utilizando madeiras e pedras preciosas nativas, artistas como Caio Freire e Gabriela Sales – do Ateliê Ser Tão – e Aldenôr Gomes – focado mais na prata – produzem jóias autorais, à custo acessível e de forte relação com a identidade regional. Todos estão com novas coleções que serão lançadas nesta sexta-feira (6). Com espaço localizado no Tirol, o Ateliê Ser Tão mostra “Raízes”.

Paisagem sertaneja: Madeira presenteada por Ítalo Trindade, guardada há 30 anos, ganhou casinha e árvore de metal
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Esta é a a primeira coleção lançada a quatro mãos pelo Ateliê Ser Tão. Ao todo a série reúne cerca de 40 peças, dentre brincos, colares, braceletes, anéis. Os preços estão entre R$ 40 e R$ 400. Os materiais utilizados variam entre prata, madeiras (umbuzeiro, louro) e pedras regionais, como o quartzo, turquesa, topázio imperial, esmeralda, água marinha e turmalina paraíba, uma das mais requisitadas do mundo, encontrada em minas da Paraíba. As peças, todas únicas, confeccionadas artesanalmente, combinam requinte com elementos rústicos, mostrando forte relação temática com árvores da região.

“Estamos apresentando o conceito de biojoia. Fazemos o reaproveitamento de materiais orgânicos descartados, casando com metais e pedras preciosas”, diz Caio Freire, que tem mais de 10 anos de experiência na profissão. “Na prata trabalhamos com texturas e oxidação com fogo controlado, além de outras técnicas”.

Os designers Caio Freire e Gabriela Sales: ourivesaria acessível e cheia de significados
Os designers Caio Freire e Gabriela Sales: ourivesaria acessível e cheia de significados

Recém-chegada na profissão, Gabriela se interessou pela ourivesaria depois de fazer um curso com o próprio Caio. Pegou gosto pela arte de produzir joias e deixou de lado a gastronomia, área que atuava há anos. Ela explica que o universo regionalista é algo muito forte na dupla e que por isso foi natural abordar essa temática na série. “Morei no sertão alguns meses, quando trabalhei com gastronomia sertaneja. O Caio vem de família do interior, conhece aquele ambiente. Então o sertão é uma tema que a gente sentiu que precisava abordar”, comenta.

Dentre as peças que se destacam estão um anel de louro, uma madeira nobre, cujo pedaço foi encontrado em materiais de descarte. A madeira é combinada com prata trabalhada na textura e oxidação, e com detalhe de turmalina paraíba. Outra peça que chama atenção é a “Jurema Sagrada”: um colar cujo pingente de prata é uma árvore de jurema de prata esculpida, associada a um pedaço de madeira rústica da própria jurema.

Outras peças tocam em temas religiosos, como o Santo Antônio: um colar com pingente pintado pela artista potiguar Raquel Lima, coberta coberto com resina e detalhes de quartzo rosa, pedra abundante no Nordeste. O colar “Meu Cantinho” é outro destaque. “Essa peça foi o trabalho mais artístico. É um sonho meu, ter uma casinha no interior, afastada da cidade. O colar mostra uma casinha, árvore e poço esculpidos em prata sobre pedaço rústico de madeira nativa do Nordeste. Esse pedaço de madeira foi encontrado há 30 anos pelo artista Ítalo Trindade. Ele deu de presenteou Gabriela e a partir dela compomos esse trabalho”, descreve Caio.

Segundo a dupla, a coleção sai um pouco do modelo convencional, muitas vezes industrial, tão comum nas lojas da cidade. “Esse trabalho é uma aposta. Sabemos que muitas pessoas estão apegadas à joias clássicas. Mas nosso objetivo é mostrar novidades, fazer peças artesanais, únicas, com materiais diferenciados, com histórias. Queremos dar significado às peças, trabalhar em cima da identidade local. Acreditamos que isso valoriza as peças. Jóia não é só ouro”, argumenta Gabriela. Ela diz que a ideia é a cada três meses apresentar uma nova coleção. “A próxima coleção vamos trabalhar com azulejos portugueses originais. Já temos o material que uma amiga trouxe de Portugal e fizemos alguns desenhos. Mas o foco agora é no 'Raízes'”.

Oficina de joias
O Ateliê Ser Tão tem cerca de um ano de funcionamento. O espaço, além de comercializar as joias autorais da dupla, é oficina de produção e escola. “A ourivesaria é um conhecimento muito fechado, passado de pai pra filho. Queremos com esse espaço abrir essa arte para mais pessoas interessadas em conhecerem. Assim como eu fiz, tendo as aulas com o Caio. Em três meses de oficina com ele é possível aprender a técnica básica para desenvolver trabalhos futuros”, diz Gabriela.

Com 31 anos, Caio entrou em contato com a ourivesaria durante a adolescência. Skatista, ele visitou uma oficina de produção, foi ficando, pegou o jeito pra coisa e não parou mais. “Entrei nessa área por acaso. Comecei fazendo de tudo. Até chegar nas etapas mais técnicas. Minha escola foram foram as oficinas da avenida 7, lá no Alecrim”, lembra. Dos mestres ourives clássicos do Alecrim, ele passou para os ateliês de design de joias de Valéria Françolin e Luandagan, até poder se dedicar ao trabalho autoral que desenvolve hoje.

Serviços
Exposição “Raízes”, de Caio Freire e Gabriela Sales
Dia 6 de outubro, às 17h
Ateliê Ser Tão (Rua Maxaranguape, 683, Tirol, loja 2). Entrada gratuita


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