Natal
Uma Natal que nunca saiu do papel: relembre projetos que não foram executados
Publicado: 00:00:00 - 19/09/2021 Atualizado: 12:27:36 - 18/09/2021
Capital do Estado viu nos últimos anos vários projetos serem anunciados pelo poder público sem que nunca tenham deixado de ser somente uma ideia. Com o crescimento dos problemas de mobilidade em centros urbanos como Natal, as ideias para novas intervenções, que possam diminuir o problema, surgem de forma constante. Nos últimos anos, a capital do Estado foi apresentada a inúmeras intervenções, algumas bastante impactantes e que prometiam resolver gargalos de mobilidade. Mas que não saíram do papel. 

Entre essas propostas, destaca-se a terceira ponte sobre o Rio Potengi, anunciada algumas vezes, a nova Roberto Freire, também parte do pacote de obras para a Copa do Mundo e um Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT), que passaria pela UFRN e pelo Aeroporto de São Gonçalo do Amarante. Dessas, somente em relação ao VLT ainda há possibilidade de que a obra saia do imaginário.

Por outro lado, outras ações que poderiam também trazer mais conforto e se transformar em opções turísticas também ficaram no papel.

No entendimento do arquiteto Jeferson Souza, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Norte (CAU/RN), muitos projetos foram frutos de desejos pessoais dos autores, mas sem grande relevância ou possibilidade de execução. 

"Muitos desses projetos são fruto dos desejos pessoais, quando se deixa de levar em consideração aspectos mais amplos, isso pode ser devido a ausência de um escritório de projetos dentro desses órgãos. Natal hoje faz divisa com outros municípios. Quando se define um projeto pensando em Natal sem considerar que será utilizado por habitantes de outros municípios e interferências entre essas regiões, são problemas que fazem com que os interesses mudem na medida em que acaba aquela gestão. O ideal seria que as obras fossem pensadas a longo prazo e não para a gestão", analisou (leia mais da entrevista no fim da matéria).

Compare os projetos com o que de fato foi realizado:

COMPLEXO ARENA DAS DUNAS
Magnus Nascimento
Complexo da Arena das Dunas

Complexo da Arena das Dunas

Expectativa:
Além do estádio com capacidade para 45 mil pessoas em formato de Arena para abrigar jogos, shows e eventos, a área no entorno formaria um complexo urbanístico com  área de entretenimento, os centros administrativos estadual e municipal, shopping center, auditório, teatro, sistema viário imediato, centro de convenções e até um lago artificial. A maquete que mostrava toda essa estrutura foi divulgada è época pelo Governo do Estado.
Magnus Nascimento

Realidade:
De todo o previsto, a arena multiuso saiu do papel. A área em seu entorno abriga um estacionamento que passa a maior parte do ano sem utilidade. Grande shows e jogos, inclusive quatro da copa do mundo de 2014, além de feiras, convenções e outras atividades que costumam ser realizados. A obra também foi alvo de questionamento do Tribunal de Contas do Estado, que viu sobrepreço de um montante de R$ 77 milhões e é alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito na Assembleia Legislativa do Estado. O Centro Administrativo do Estado continua o mesmo e está passando por reforma para corrigir riscos de alagamentos e modernizar a fachada dos prédios e a entrada do centro com novos pórticos. O de Natal segue sem previsão de que seja construído.

MARINA DE NATAL
Reprodução
Marina de Natal

Marina de Natal

Expectativa:
Gestado desde 2006, o projeto da Marina de Natal chegou a despertar interesse de investidores internacionais como o grupo espanhol BCM Ingenieros S.L. e o grupo francês New Co Marine. Três locais foram cogitados: Rio Potengi (ao lado do Forte dos Reis Magos), Redinha (na área de embarque de balsas) e Via Costeira (atrás do Hotel Barreira Roxa).
Contaria com áreas de atracação para embarcações de recreio de diferentes portes, desenvolvendo o turismo náutico e uma cadeia de atividade em seu entorno. Se tivesse sido construída ao lado do Forte, contemplaria também a construção de um parque público, jardim botânico, zona de estaleiro, torre de controle, posto policial de aduana e área comercial com restaurantes e lojas de artesanato.
Alex Régis

Realidade:
A regulamentação da Área de Proteção Ambiental (ZPA 7) onde está o Forte dos Reis Magos impediu qualquer construção do gênero naquele terreno que nada abriga, além do Forte e de uma área de estacionamento quiosques com pouca movimentação. Depois de muitas reuniões, a gestão municipal mudou e há mais de cinco anos não aconteceu nada de concreto que ressuscitasse o projeto para a Via Costeira ou Redinha.

REVITALIZAÇÃO DA ORLA
Reprodução

Expectativa:
A revitalização da orla, desde a Praia de Ponta Negra até a Forte dos Reis Magos, foi prometida em 2013 para ser entregue antes da Copa do Mundo de 2014, beneficiando cerca de 7 km de orla. Foram previstas adequações do passeio público com substituição do revestimento do piso; implantação de novos mobiliários urbanos; ciclovias entre as praias do Meio e Forte; adequação e distribuição dos quiosques em áreas mais agradáveis e amplas; implantação de banheiros acessíveis; criação de áreas de depósito para guarda de materiais dos quiosques; rampas e escadarias para acesso à faixa de areia; sinalização adequada; área de estacionamentos; substituição de iluminação pública; iluminação decorativa; paisagismo; áreas de recreação infantil; e academia da Terceira Idade.
Emanuel Amaral/Arquivo TN

Realidade:
Passados oito anos, a orla recebeu algumas intervenções, mas que não duraram por muito tempo. O mar continua a derrubar os muros de contenção e até as calçadas, a acessibilidade às praias, ainda não existe, banheiros foram construídos, mas não funcionaram por muito tempo e o ordenamento para uso e ocupação dos espaços permanece sendo um dos desafios a serem enfrentados.

NOVO VLT 
Reprodução

Expectativa:
Também apresentado em 2013 como legado da Copa do Mundo de 2014, o Veículo Leve Sobre os Trilhos (VLT) de Natal traria a integração da mobilidade urbana, inclusive passando pelo Aeroporto Internacional Aluízio Alves, em São Gonçalo do Amarante, e pela UFRN. A linha férrea formaria um anel ferroviário integrando a Grande Natal, desde Extremoz, até Nísia Floresta, em 56 km com 12 VLTs e duas locomotivas. Novas e modernas estações seriam criadas para facilitar a integração física com outros modais de transporte e contariam com estrutura urbanizada, bicicletário, área de passeio e equipamentos urbanos entre a Ribeira e a zona Norte.

Realidade:
Alex Régis

Atualmente o projeto está em andamento, mas ainda não contempla tudo o que foi previsto e nem chegará ao Aeroporto, por ora. Duas linhas estão sendo implantadas para a ampliação do sistema de trens urbanos até Nísia Floresta, além de mais 4 km de via ao Norte com três estações, expandindo o sistema de trens em direção ao município de São Gonçalo do Amarante e Extremoz. O sistema ficará com 84 quilômetros de extensão no total e deverá incluir cerca de 2 mil novos usuários, segundo a Companhia Brasileira de Trens Urbanos. 

Uma das obras misturava um projeto de mobilidade com turismo: era a revitalização da Ponte de Ferro, o que culminaria com um museu e levaria os visitantes  num circuito de pontos turísticos, localizado às margens do rio Potengi.

NOVA AVENIDA ROBERTO FREIRE
Arquivo TN
Roberto Freire

Roberto Freire

Expectativa:
Via de acesso à Praia Turística de Ponta Negra, a Avenida Engenheiro Roberto Freire teria 12 pistas, sendo seis em cada sentido, viaduto com seis vias, dois túneis, mirante nas imediações da rótula da Via Costeira, cinco passarelas e ciclovia às margens do Parque das Dunas.
Arquivo TN

Realidade:
Pelo menos dois projetos da obra foram apresentados pelo Governo do RN ao longo de oito anos, que causaram polêmica pelo alto custo para uma via de cerca de 5 km e pelas intervenções que provocaria na região, inclusive, tendo que remover uma parte da vegetação do Parque das Dunas. Como os recursos tinham um prazo de contrato para serem liberados e, diante da falta de consenso com a sociedade civil e com os órgãos de controle, os projetos não chegaram a ser aprovados e nunca saíram do papel. A via continua carente de infraestrutura e os gargalos no trânsito são comuns em horários de pico. A Secretaria Estadual de Infraestrutura informou que deverá promover mudanças simples na avenida, sem grandes intervenções, como  melhoramento no pavimento do asfalto, conciliando alguns fluxos com outras vias, para evitar os gargalos no trânsito.

TERCEIRA PONTE SOBRE O RIO POTENGI
Expectativa

Reprodução

Com a finalidade de facilitar o acesso à zona Norte da cidade e desafogar o trânsito na Ponte de Igapó, a terceira ponte ligaria o Viaduto Baldo, na Zona Leste, à Avenida Itapetinga, na Zona Norte. Uma lei, de autoria do ex-vereador Luiz Almir, que autoriza a construção de uma terceira ponte sobre o Rio Potengi, foi publicada no Diário Oficial do Município no dia 18 de junho de 2015.
Arquivo TN

Realidade:
Nenhum projeto foi efetivamente divulgado sobre essa terceira ponte em Natal. A cidade conta com duas: a ponte de Todos Newton Navarro, que ajudou no fluxo para alguns bairros, e a Ponte do Potengi Presidente Costa e Silva (mais conhecida como Ponte de Igapó), que continua registrando engarrafamentos todos os dias em horários de pico. Uma proposta elaborada pelo Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne) para a construção do novo porto de Natal foi entregue no ano passado ao Ministério da Infraestrutura e prevê outros investimentos em logística, como construção de uma terceira ponte sobre o Potengi e um ramal ferroviário até o aeroporto.

MUSEU MIRANTE NA PONTE DE FERRO DE IGAPÓ
Reprodução
Observatório

Observatório

Expectativa:
O projeto, fruto do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em 2003 do arquiteto Júnior Ubarana, previa o “Museu Mirante do Potengi”, com cafeteria e cybercafé no final da ponte de ferro, que fica no meio do rio. O monumento teria três andares e comportaria um deck, museu, auditório e praça de alimentação. Ao longo da ponte, bancos e mirantes seriam instalados. Para completar, a locomotiva Catita, que fez a viagem inaugural da ponte em 1917, seria restaurada e utilizada para passeio desde a estação da Ribeira até o museu. De lá, o passeio continuaria de barco, saindo do píer do museu por mais de 20 pontos turísticos nas margens do Potengi.
Arquivo TN
Igapó

Igapó

Realidade:
“A gente chegou a apresentar o projeto a algum secretário na época, mas nunca houve interesse real, somente especulação”, contou o autor do projeto. Em 1970, após 54 anos de uso, a ponte foi desativada e, posteriormente, vendida a uma empresa de sucata que começou a desmontá-la. Em 1992 foi tombada pelo patrimônio histórico estadual – Fundação José Augusto, de modo a impedir a retirada do que restou. Hoje permanece sem perspectivas de sofrer alguma intervenção que lhe dê nova utilidade.

Entrevista com Jefferson Souza, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Norte (CAU/RN):

Por que os grandes projetos urbanísticos não saem do papel?
Muitos desses projetos são fruto dos desejos pessoais, quando se deixa de levar em consideração aspectos mais amplos, isso pode ser devido a ausência de um escritório de projetos dentro desses órgãos. Natal hoje faz divisa com outros municípios.  Quando se define um projeto pensando em Natal sem considerar que será utilizado por habitantes de outros municípios e interferências entre essas regiões, são problemas que fazem com que os interesses mudem na medida em que acaba aquela gestão. O ideal seria que as obras fossem pensadas a longo prazo e não para a gestão.

Mas a cidade tem grandes obras, como a Arena das Dunas. Foi uma boa aquisição?
A Arena das Dunas acho um espaço subutilizado. Um estádio onde ocorrem eventos privados e uma área externa onde se pode realizar atividades físicas e outras, mas que fica inoperante durante todo o ano quando poderia ser um parque. Não tem uma árvore no entorno. Essas intervenções urbanas quando são pensadas sejam objeto de concurso público de arquitetura que agregue profissionais e participação da população. É o que ocorre no mundo todo.

Natal carece de mais equipamentos turísticos e urbanos?
A cidade carece de equipamentos turísticos, mas também que a população possa fazer uso diário. Por exemplo, temos uma obra chamada Presépio de Natal que hoje está deteriorada. Foi projetada por Oscar Niemeyer e era para ser um ponto turístico e utilizada pela população. Então, pode ser problema de gestão, de desinteresse.

Quais áreas poderiam receber esses equipamentos?
A área litorânea é o grande atrativo de quem visita a cidade. A Via Costeira poderia ser melhor aproveitada. A Ribeira é uma área que merece olhar cuidadoso porque está ali o registro de uma Natal que foi efervescente na época da Segunda Guerra Mundial e por isso Natal ficou conhecida nacionalmente, por ter sido base de apoio das forças aliadas. Mas está descaracterizada,  cada dia o processo de degradação aumenta, a população foge. Se deslocar alguns órgãos e secretarias já é um começo, uma iniciativa que pode gerar movimento. Mas a revitalização só ocorre se houver fixação de pessoas na área. Imagina se tornasse um bairro boêmio, ainda existe traços de arquitetura em prédios que podem ser preservados e se tornar atrativo como em grandes cidades do Brasil e do mundo.

Como facilitar a execução de mais intervenções urbanas?
Estamos em processo de revisão do Plano Diretor que precisa garantir o crescimento sustentável, econômico e social, respeitando o meio ambiente. Mas precisa definir prazos para prioridades, elaboração de projetos, captação de recursos. Isso começa a entrar na questão de entendimento político, com emendas e parcerias entre os governos. Parcerias Público-Privadas são outra alternativa. Dinheiro não é fácil, mas também não pode ser colocado como empecilho para tudo.



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